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Trump perdeu sua guerra contra o Irã, afirma Mearsheimer

Professor diz que Estados Unidos subestimaram Teerã, aproximaram Irã e Rússia e enfrentam uma crise estratégica no Oriente Médio, na Ucrânia e na Ásia

John Mearsheimer e Donald Trump (Foto: Brasil 247)

247 – O cientista político John Mearsheimer afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “basicamente perdeu” a guerra escolhida contra o Irã, ao apostar numa estratégia militar fadada ao fracasso e ao permitir que Israel conduzisse Washington a um conflito sem objetivos alcançáveis. A avaliação foi feita em entrevista ao programa Judging Freedom, apresentado pelo juiz Andrew Napolitano, no YouTube. Segundo Mearsheimer, Trump foi convencido por Benjamin Netanyahu e pelo Mossad de que uma campanha de “choque e pavor” contra o Irã poderia derrubar o regime iraniano rapidamente. Para o professor, essa premissa era irrealista.

A aposta fracassada de Trump

Mearsheimer afirmou que a estratégia adotada por Trump “era garantida para fracassar”. Segundo ele, não há registro histórico de uma campanha aérea isolada capaz de derrubar um governo e produzir um resultado político favorável aos Estados Unidos.

“Nós basicamente perdemos esta guerra”, disse o professor.

De acordo com Mearsheimer, assessores importantes de Trump, incluindo Marco Rubio, JD Vance, John Ratcliffe e o general Dan Caine, teriam alertado o presidente de que a estratégia israelense não funcionaria. Mesmo assim, Trump decidiu seguir o caminho defendido por Netanyahu.

“O presidente permitiu-se ser enganado por Bibi Netanyahu e também pelo chefe do Mossad, David Barnea, que foi um ator-chave, e está pagando o preço por isso. Devo dizer: nós estamos pagando o preço por isso”, afirmou.

Rússia e Irã se aproximam

Outro ponto central da entrevista foi a visita do chanceler iraniano a Moscou e seu encontro com Vladimir Putin. Para Mearsheimer, o gesto foi “substantivo” e mostrou que Rússia e Irã estão cada vez mais alinhados diante da política externa dos Estados Unidos.

Segundo ele, Moscou concluiu que está em guerra com o Ocidente e que nada mudou de forma relevante apesar das promessas de Trump de melhorar as relações com a Rússia e resolver a guerra na Ucrânia.

“Os russos basicamente desistiram dos americanos. Eles entendem que estão em guerra com o Ocidente”, afirmou.

Mearsheimer disse ainda que há evidências de apoio russo ao Irã no uso de drones e mísseis balísticos, inclusive com fornecimento de dados de satélite e componentes eletrônicos.

Irã ganha tempo e aumenta exigências

O professor avaliou que o Irã está em posição mais forte nas negociações. Segundo ele, Teerã não aceitará abrir mão do direito de enriquecer urânio para fins civis e passou a colocar outras exigências antes da questão nuclear.

Mearsheimer disse que a prioridade iraniana agora seria encerrar o conflito e obter garantias de que Estados Unidos e Israel não atacarão novamente o país. Em seguida, Teerã discutiria o Estreito de Ormuz. Só depois aceitaria tratar do tema nuclear.

“O tempo está do lado do Irã”, afirmou. “Não há pressa, na minha opinião, para o Irã fechar um acordo.”

Segundo ele, a pressão econômica e militar tende a aumentar sobre Washington, dando mais poder de barganha aos iranianos.

Ormuz como centro da disputa

Mearsheimer afirmou que os Estados Unidos não compreendem que o controle do Estreito de Ormuz é uma das principais fontes de poder do Irã. Para ele, Teerã não aceitará abrir mão dessa vantagem.

“Os iranianos não vão abrir mão do controle do estreito. Seriam loucos se abrissem mão do controle do estreito”, disse.

O professor também avaliou que Marco Rubio e JD Vance evitam assumir protagonismo nas negociações porque ambos desejam disputar a Presidência em 2028 e temem pagar um preço político junto ao lobby israelense.

Israel como obstáculo a um acordo

Para Mearsheimer, um acordo duradouro entre Washington e Teerã será extremamente difícil porque Israel está diretamente ligado à disputa. Ele citou o apoio iraniano ao Hezbollah, ao Hamas e aos houthis como fator que torna quase impossível separar a relação EUA-Irã da política israelense.

“Israel é um gigantesco albatroz em torno do nosso pescoço”, afirmou.

Segundo ele, o lobby israelense nos Estados Unidos continua exercendo enorme influência sobre formuladores de política externa e dificulta qualquer tentativa de Trump de fechar um acordo significativo com os iranianos.

Crise militar dos Estados Unidos

Mearsheimer também alertou para o esgotamento de estoques militares dos Estados Unidos. Segundo ele, muitos mísseis Tomahawk, Patriot, THAAD e bombas guiadas foram utilizados, reduzindo a capacidade americana de sustentar outras frentes estratégicas.

Para o professor, isso afeta diretamente a política de contenção da China na Ásia.

“Nós deveríamos pivotar para a Ásia para conter a China. Mas o que estamos fazendo é pivotar para longe da China”, afirmou.

Ele disse que a reposição desses armamentos pode levar anos, o que torna ainda mais arriscada qualquer retomada da campanha militar contra o Irã.

Risco nuclear na Ucrânia e no Oriente Médio

Na parte final da entrevista, Mearsheimer ampliou o alerta para a guerra na Ucrânia. Ele disse que há crescente pressão dentro da Rússia para encerrar o conflito e citou debates sobre eventual uso de armas nucleares como demonstração de força.

O professor afirmou não considerar esse cenário provável, mas advertiu que Estados podem tomar medidas radicais quando se sentem encurralados.

“Você não quer colocar os russos em uma situação desesperadora”, disse.

Mearsheimer também mencionou a possibilidade de Israel considerar o uso de armas nucleares contra o Irã caso não haja acordo sobre o programa nuclear iraniano. Para ele, o cenário internacional é extremamente perigoso.

“Ninguém entre nós consegue contar uma história feliz sobre como qualquer um desses conflitos termina”, afirmou. “Isso deveria deixar todos nós extremamente preocupados.”

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