Datafolha: maioria acredita em envolvimento de ministros do STF no caso Banco Master
Levantamento mostra que 55% dos brasileiros associam integrantes da Corte ao escândalo, enquanto desgaste institucional se aprofunda e pressiona o Supremo
247 – Pesquisa Datafolha divulgada pela Folha de S. Paulo mostra que 55% dos brasileiros dizem acreditar que ministros do Supremo Tribunal Federal estejam envolvidos no caso do Banco Master, episódio que se transformou em um dos mais graves focos de desgaste da Corte nos últimos meses.
De acordo com o levantamento, 4% dos entrevistados afirmam não acreditar em qualquer participação de integrantes do STF no caso, enquanto 10% dizem não saber opinar. Outros 30% afirmaram não ter tomado conhecimento das suspeitas. Ao todo, foram ouvidas 2.004 pessoas entre os dias 7 e 9 de abril, em 137 municípios, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
Os números revelam que o escândalo já alcançou ampla repercussão nacional. Somados, os grupos que afirmam conhecer ao menos de ouvir falar das suspeitas envolvendo ministros da Corte chegam a cerca de 70% da população, sinal de que o caso ultrapassou os círculos jurídicos e políticos e entrou de vez na percepção pública sobre o STF.
Diferença entre lulistas e bolsonaristas
A pesquisa também mostra que a percepção sobre o caso varia conforme a inclinação eleitoral dos entrevistados. Entre os que declaram intenção de voto no presidente Lula, 42% dizem acreditar em envolvimento de ministros. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, esse índice sobe para 70%. Já entre os que afirmam votar em branco, nulo ou em nenhum candidato, o percentual é de 48%.
Outro dado relevante é o nível de desconhecimento sobre o tema entre os mais jovens. Se, na média geral, 30% dizem não conhecer as suspeitas, entre brasileiros de 16 a 24 anos esse percentual chega a 48%. O desconhecimento também é mais elevado entre os que têm apenas o ensino fundamental e entre os eleitores que declaram intenção de votar em branco ou nulo.
O caso Banco Master ganhou centralidade no debate público desde o fim do ano passado, após sucessivas revelações que aproximaram os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. O episódio passou a alimentar pressões pela criação de regras éticas mais rígidas para os integrantes do Supremo e por apurações mais profundas sobre a conduta de magistrados.
Alexandre de Moraes e Dias Toffoli
No caso de Alexandre de Moraes, os questionamentos giram em torno do contrato do Banco Master com o escritório de sua esposa, Viviane Barci. Segundo documentos da Receita Federal divulgados na semana passada, as transferências teriam alcançado R$ 80,2 milhões em dois anos. O escritório admitiu publicamente, em março, que prestou serviços ao banco e afirmou não confirmar “informações incorretas e vazadas ilicitamente”. Também pesou contra o ministro a revelação de que ele teria trocado mensagens com Vorcaro, inclusive no dia em que o ex-banqueiro foi preso pela primeira vez. Moraes nega.
Dias Toffoli, por sua vez, tornou-se alvo de críticas por ter sido o primeiro relator do caso no Supremo e por ter adotado decisões consideradas controversas durante sua condução. O ministro deixou a relatoria após forte desgaste interno e externo, em uma saída considerada atípica, após reunião reservada com outros integrantes da Corte, seguida de nota pública de apoio.
Sobre Toffoli recaem ainda suspeitas relacionadas à empresa Maridt, da qual ele é sócio, e à venda de participação no resort Tayayá, no Paraná, a um fundo de investimentos apontado como peça na engrenagem de fraudes do Master. O ministro sustenta que a operação foi declarada regularmente e nega amizade ou recebimento de dinheiro de Daniel Vorcaro.
Kássio Nunes e Gilmar Mendes
Outros nomes do STF também foram atingidos pelas revelações. Documentos indicam que Kassio Nunes Marques viajou, em novembro, de Brasília a Maceió em aeronave da Prime Aviation, empresa que tinha Vorcaro entre os sócios. Segundo o ministro, a viagem foi organizada e paga pela advogada Camilla Ewerton Ramos, que atua para o banco.
Gilmar Mendes também utilizou aeronave da mesma empresa, em voo oferecido pelo empresário Marcos Molina. O ministro afirmou ao jornal Estado de S. Paulo que desconhecia as relações entre Vorcaro e a Prime Aviation. Conforme revelado, Moraes e Toffoli também teriam utilizado aeronaves da empresa.
Os termos do acordo de delação de Daniel Vorcaro seguem em negociação conjunta entre a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal. Em etapas iniciais, advogados do ex-banqueiro chegaram a sugerir que ministros do Supremo não fossem mencionados no acordo, hipótese que teria sido rejeitada pelos investigadores.
O impacto político do escândalo já produz efeitos além do Judiciário. Segundo a Folha de S. Paulo, críticas recentes feitas pelo presidente Lula ao tribunal e por aliados foram interpretadas como tentativa de conter o desgaste político do episódio e impedir que a direita capitalize eleitoralmente a crise.
Em entrevista na última semana, Lula relatou ter dito a Moraes para que não deixasse que o “caso do Vorcaro” jogasse fora sua biografia como ministro, destacando sua atuação no julgamento dos atos de 8 de janeiro.


