Assessor de Trump barrado por Lula teria reunião com Kassio Nunes para discutir eleições no Brasil
Darren Beattie buscava encontro com vice-presidente do TSE, que assumirá o comando da Corte eleitoral em junho, mas visita foi impedida pelo governo Lula
247 – O assessor do governo dos Estados Unidos Darren Beattie, impedido de entrar no Brasil por decisão do presidente Lula, pretendia se reunir com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques para discutir o processo eleitoral brasileiro. O encontro, que chegou a ser solicitado pelo conselheiro norte-americano, não deverá mais ocorrer após a decisão do governo brasileiro de barrar sua entrada no país.
A informação foi revelada pela colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, que relatou que o magistrado havia concordado com a reunião, embora a data ainda não tivesse sido definida. Vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques assumirá a presidência da Corte em junho e será responsável por comandar a condução das eleições deste ano.
A visita de Beattie ao Brasil gerou forte controvérsia política e diplomática. O conselheiro de Donald Trump também havia solicitado autorização para visitar Jair Bolsonaro na prisão, em Brasília. O ex-presidente cumpre pena por tentativa de golpe de Estado.
A decisão de impedir a entrada do assessor foi tomada pelo governo Lula como resposta ao cancelamento de vistos de autoridades brasileiras pelo governo dos Estados Unidos, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal e integrantes do governo federal. A medida foi interpretada no Planalto como um gesto de reciprocidade diplomática e de defesa da soberania nacional.
Além da tentativa de encontro com Bolsonaro, Beattie também buscava interlocução institucional no país. O pedido de reunião com Kassio Nunes Marques chamou atenção porque o magistrado terá papel central na condução das eleições brasileiras de 2026 ao assumir a presidência do TSE.
A agenda do conselheiro americano provocou reação de autoridades brasileiras e levou o Supremo Tribunal Federal a reavaliar a autorização inicial concedida para que ele visitasse Bolsonaro. O ministro Alexandre de Moraes havia permitido o encontro em um primeiro momento, mas voltou atrás após receber informações do Itamaraty sobre o contexto da viagem.
Em ofício enviado ao STF, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, alertou para o risco de interferência externa na política brasileira em pleno ano eleitoral. “Cumpre observar, por oportuno, que a visita de um funcionário de Estado estrangeiro a um ex-presidente da República em ano eleitoral pode configurar indevida ingerência nos assuntos internos do Estado brasileiro”, afirmou o chanceler.
No documento, o diplomata também destacou que o princípio da não intervenção é reconhecido no direito internacional. “Recordo que a Corte Internacional de Justiça, em mais de uma oportunidade, ressaltou o caráter costumeiro do princípio da não-intervenção [...]. O princípio da não-intervenção também está insculpido na Carta da Organização dos Estados Americanos, em seu art. 3(e), da qual tanto o Brasil quanto os Estados Unidos da América são partes”, acrescentou.
Beattie é identificado como um ativista de ultradireita e mantém proximidade política com Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente. Em declarações anteriores, ele também criticou o ministro Alexandre de Moraes, afirmando que o magistrado seria “o coração pulsante do complexo de perseguição e censura contra Jair Bolsonaro” no Brasil.
A tentativa de articulação do conselheiro americano, envolvendo encontros com integrantes do sistema político e judicial brasileiro, ampliou o debate em Brasília sobre riscos de ingerência externa no processo eleitoral. Para o governo Lula, a decisão de barrar a entrada do assessor representa uma forma de reafirmar a autonomia institucional do país diante de pressões externas em um momento considerado sensível para a democracia brasileira.


