China acelera exportação de carros ao Brasil e assume liderança entre importados
País se torna o terceiro maior mercado global para veículos chineses no primeiro trimestre, impulsionado por eletrificados, câmbioe antecipação a tarifas
247 – A China quase triplicou as exportações de veículos ao Brasil no primeiro trimestre de 2026, consolidando-se como principal fornecedora externa de automóveis ao mercado brasileiro e deslocando rivais tradicionais, como a Argentina.
Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, com base em dados da Alfândega chinesa, os embarques ao Brasil somaram US$ 2,16 bilhões entre janeiro e março, ante US$ 763,8 milhões no mesmo período de 2025. O resultado também superou o recorde anterior para o período, de US$ 1,17 bilhão em 2024.
Com esse desempenho, o Brasil saltou da sétima para a terceira posição entre os maiores destinos de veículos chineses no mundo, atrás apenas de Rússia e Reino Unido. No segmento de eletrificados — elétricos puros e híbridos — o país também chegou ao terceiro lugar, atrás de Bélgica e Reino Unido.
A expansão chinesa não se limita aos veículos elétricos. As vendas de carros a combustão também dobraram em valor, levando o Brasil da 16ª para a sétima posição no ranking desse segmento.
Especialistas ouvidos pelo Valor apontam três fatores principais para a disparada: a antecipação ao aumento das tarifas de importação, o câmbio mais favorável e o ciclo de lançamentos de novos modelos.
As alíquotas sobre veículos elétricos e híbridos devem chegar a 35% em julho, ante os atuais 28% para híbridos plug-in e 25% para elétricos. Para Tulio Cariello, do Conselho Empresarial Brasil-China, o movimento reflete uma corrida das montadoras para aproveitar a janela antes da alta tarifária.

Os dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que as importações brasileiras de automóveis chineses já desembaraçados somaram US$ 1,5 bilhão no trimestre, alta de 552,5% em relação ao mesmo período de 2025. A China respondeu por 65,6% dos carros importados pelo Brasil.
A Argentina, antes principal origem dos importados, ficou em segundo lugar, com 11,3% e US$ 253,2 milhões, queda de 25,5%.
Cariello afirma que a demanda brasileira também reflete uma mudança de percepção sobre os carros chineses. “Muita gente quer comprar carro elétrico, que hoje é sinônimo de carro chinês. As pessoas veem o carro chinês rodando na rua e veem que é um produto de alta tecnologia”, disse.
Segundo ele, essa boa imagem já se estende aos veículos a combustão. “Os chineses miram o mercado de carros elétricos, mas isso beneficia a China em outros mercados no Brasil também”, afirmou.
A professora Lia Valls, da UERJ e pesquisadora do FGV Ibre, avalia que as tarifas brasileiras não bastaram para conter a competitividade chinesa. “As tarifas impostas pelo Brasil na importação de automóveis não foram suficientes para deter os veículos chineses, porque a China tem grande economia de escala e o preço deles acaba compensando”, disse.
O câmbio também ajudou. No primeiro trimestre de 2025, o dólar oscilava entre R$ 5,80 e R$ 5,90. No mesmo período de 2026, ficou entre R$ 5,20 e R$ 5,30, barateando importações.
O avanço ocorre em um contexto de maior protecionismo global e disputa comercial entre Estados Unidos e China, acirrada sob o governo do presidente Donald Trump. Para Lia Valls, a China precisa direcionar ao exterior parte de sua enorme produção automotiva. “Isso precisa ser absorvido por outros países porque a China está com dificuldade para elevar o consumo doméstico”, afirmou.
A tendência, segundo especialistas, é que o fluxo de importações continue forte nos próximos meses. No médio e longo prazo, porém, a presença chinesa deve mudar de perfil, com mais produção local no Brasil.
Montadoras como BYD e GWM já avançam com fábricas próprias, enquanto Geely e Leapmotor têm parcerias com Renault e Stellantis. A GAC também anunciou planos de produzir no país a partir de 2027.


