Nordeste vira foco de atração para investimentos chineses no Brasil
Energia limpa, logística e custos baixos impulsionam interesse chinês
247 - O Nordeste atrai investimentos chineses no Brasil ao reunir condições favoráveis como abundância de energia renovável, posição estratégica para exportações e custos operacionais mais baixos. Esses fatores têm impulsionado o interesse de empresas e consórcios asiáticos, que ampliam sua presença na região em setores como infraestrutura, indústria e tecnologia.
Especialistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, apontam que o avanço chinês no Nordeste reflete uma combinação de vantagens naturais e oportunidades econômicas que fortalecem a inserção da região nas cadeias globais de valor.
Energia renovável e vantagens competitivas
A capacidade de geração de energia limpa é um dos principais atrativos. A incidência solar constante e os ventos regulares favorecem projetos de grande escala, alinhando-se à demanda chinesa por fontes sustentáveis.
A economista Diana Chaib, doutora pelo Cedeplar/UFMG, destaca que o Nordeste se tornou mais competitivo em relação a outras regiões. “O Sudeste brasileiro, que historicamente até então concentrava esses investimentos, já apresenta uma maior saturação, custos mais elevados e menos espaço para grandes projetos novos. O Nordeste, por outro lado, ainda oferece áreas disponíveis, custos operacionais mais baixos, incentivos regionais também que tornam os projetos mais viáveis e mais atrativos economicamente.”
Expansão industrial e projetos estruturantes
Os investimentos já se traduzem em iniciativas concretas. A montadora BYD iniciou a produção de veículos em Camaçari, na Bahia, utilizando a antiga estrutura da Ford. Também no estado, um consórcio chinês constrói uma ponte de 12 quilômetros entre Salvador e Itaparica, que deve reduzir o tempo de deslocamento entre as cidades de quatro horas para cerca de dez minutos.
Segundo Chaib, esses projetos têm impacto direto na economia regional. “Projetos em energia, indústria e infraestrutura ampliam a base produtiva e ajudam a diversificar a economia. [...] Com esses investimentos, o Nordeste passa a integrar de forma mais ativa as cadeias globais de valor.”
Tecnologia e novos setores em expansão
O avanço não se limita à indústria tradicional. O co-presidente do Lide China, José Ricardo dos Santos, afirma que há crescente interesse em áreas de tecnologia. “Estamos escutando cada vez mais o interesse e o apetite de investimentos chineses na área de data centers, que utilizam muita energia. Eles têm observado a potencialidade e absorção dessa energia limpa na região do Nordeste.”
Ele também aponta uma mudança na percepção sobre produtos chineses. “Hoje em dia, os empresários brasileiros me procuram por querer uma tecnologia melhor, ainda que eventualmente o preço seja superior àquelas tecnologias americanas, europeias e de outros países do mundo”, diz Santos.
Relação econômica e interesses mútuos
Os especialistas destacam que os investimentos seguem uma lógica estratégica. Chaib afirma que os projetos são direcionados para áreas que impulsionam o crescimento econômico e facilitam exportações. “Eles gostam do desenvolvimento do Brasil quando vai facilitar a exportação para a China, vai reduzir custos logísticos, vai fortalecer parcerias estratégicas dentro do próprio BRICS”, afirma Chaib.
A economista também alerta para a necessidade de regulação adequada, uma vez que “projetos que são de grande escala exigem marcos regulatórios muito claros e previsíveis [...] É fundamental que exista uma estratégia de desenvolvimento regional que seja bem definida.”
Santos reforça que a relação é baseada em cooperação. “Há um interesse genuíno de uma forma pragmática de desenvolver negócios com o Brasil. A questão política é algo que não interessa à China”, afirma.
Impactos globais e disputa econômica
O avanço chinês ocorre em meio à disputa com os Estados Unidos. Medidas tarifárias adotadas pelo país norte-americano têm incentivado a China a diversificar seus parceiros comerciais. Chaib explica esse cenário. “Quando os EUA colocam alguma restrição tarifária, o natural é que a China procure diversificar e procurar novos parceiros”, destaca.
Santos destaca projetos estratégicos na América Latina, como o porto de Chancay, no Peru, que deverá se conectar a uma ferrovia bioceânica com início em Ilhéus, na Bahia. Ainda assim, ele afirma que o fortalecimento da relação com a China não exclui outros parceiros. “O Brasil é um país que tem um histórico de multipolaridade [...] ainda tem desenvolvido seu diálogo com os EUA”, observa.



