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Meta passa a rastrear cliques e teclas de funcionários para treinar inteligência artificial

Empresa amplia coleta de dados internos nos EUA, acelera uso de agentes de IA no trabalho e enfrenta alertas sobre privacidade e vigilância corporativa

Impressão em 3D de logo da Meta sobre teclado de computador, em foto de ilustração (Foto: REUTERS/Dado Ruvic)

247 – A Meta começou a instalar um novo software de monitoramento nos computadores de funcionários baseados nos Estados Unidos para capturar movimentos do mouse, cliques e teclas digitadas com o objetivo de treinar seus modelos de inteligência artificial. A medida integra uma reestruturação mais ampla da força de trabalho da companhia, cada vez mais orientada pelo uso de agentes de IA capazes de executar tarefas de forma autônoma.

Segundo a Reuters, que teve acesso a memorandos internos da empresa, a ferramenta foi apresentada aos trabalhadores como parte de uma iniciativa destinada a melhorar o desempenho dos modelos da Meta em atividades nas quais a IA ainda encontra dificuldades para reproduzir o comportamento humano ao usar computadores, como selecionar opções em menus e utilizar atalhos de teclado.

Coleta de dados em aplicativos e telas de trabalho

De acordo com um dos memorandos vistos pela Reuters, a ferramenta se chama Model Capability Initiative (MCI) e funcionará em aplicativos e sites relacionados ao trabalho. O sistema também fará capturas ocasionais do conteúdo exibido nas telas dos funcionários.

No documento, a empresa afirma: “É aqui que todos os funcionários da Meta podem ajudar nossos modelos a ficarem melhores simplesmente realizando seu trabalho diário.”

A justificativa da Meta é que esse material ajudará a treinar modelos mais eficazes no uso cotidiano de computadores. Em nota citada pela Reuters, o porta-voz Andy Stone afirmou: “Se estamos construindo agentes para ajudar as pessoas a concluir tarefas cotidianas usando computadores, nossos modelos precisam de exemplos reais de como as pessoas realmente os utilizam — coisas como movimentos do mouse, cliques em botões e navegação em menus.”

Meta aposta em agentes de IA para executar tarefas

A iniciativa ocorre em meio a uma mudança estratégica da Meta, dona de Facebook e Instagram, que vem integrando inteligência artificial a seus fluxos internos e reformulando sua estrutura de trabalho para ganhar eficiência.

Em outro memorando compartilhado com funcionários, o diretor de tecnologia da empresa, Andrew Bosworth, explicou a visão de futuro da companhia: “A visão que estamos construindo é aquela em que nossos agentes realizam principalmente o trabalho e nosso papel é direcioná-los, revisar e ajudá-los a melhorar.”

Ele acrescentou ainda que o objetivo é que esses sistemas consigam aprender com a intervenção humana: “Eles possam identificar automaticamente onde sentimos a necessidade de intervir para que possam ser melhores na próxima vez.”

Bosworth também destacou que a empresa será rigorosa na construção de dados e avaliações internas: “Seremos rigorosos na construção de dados e avaliações para todos os tipos de interações que temos no nosso trabalho.”

Segundo a Reuters, a Meta confirmou que os dados coletados pelo sistema MCI estarão entre as fontes usadas nesse processo de treinamento.

Empresa afirma que dados não serão usados para avaliar funcionários

A Meta procurou minimizar preocupações internas ao afirmar que os dados coletados não serão usados para avaliação de desempenho dos funcionários.

Andy Stone declarou: “Os dados coletados não serão utilizados para avaliações de desempenho ou qualquer outra finalidade além do treinamento dos modelos.”

Ele também afirmou que existem mecanismos para proteger conteúdos sensíveis, embora a empresa não tenha detalhado exatamente quais tipos de informações ficarão fora da coleta.

Reestruturação inclui demissões e pressão por uso de IA

A nova política de monitoramento faz parte de uma reestruturação mais ampla da força de trabalho da Meta. A empresa planeja demitir cerca de 10% de seus funcionários globalmente a partir de 20 de maio, além de avaliar novos cortes ao longo do ano.

Internamente, a companhia tem incentivado os funcionários a utilizar agentes de IA em tarefas como programação e organização de processos, mesmo quando isso reduz a produtividade no curto prazo. Também está eliminando distinções entre funções para adotar um novo título mais amplo: “construtor de IA”.

No mês passado, a Meta criou uma equipe chamada Applied AI (AAI), voltada a aprimorar as capacidades de programação dos modelos e desenvolver agentes capazes de executar grande parte do trabalho necessário para construir, testar e lançar novos produtos.

Tendência global de automação nas grandes empresas

A estratégia da Meta reflete uma tendência mais ampla no setor de tecnologia, em que empresas buscam substituir ou reduzir o trabalho humano por sistemas automatizados baseados em inteligência artificial.

Segundo a Reuters, empresas como a Amazon já reduziram cerca de 30 mil cargos corporativos, enquanto outras companhias também vêm promovendo cortes significativos diante do avanço da automação.

Esse movimento evidencia uma mudança estrutural no mercado de trabalho, em que a atividade humana passa a ser utilizada não apenas para produzir resultados, mas também para treinar sistemas que poderão substituir parte dessas funções.

Especialistas alertam para riscos de vigilância

A iniciativa da Meta também levanta preocupações entre especialistas em direito e privacidade.

A professora da Universidade Yale, Ifeoma Ajunwa, afirmou: “Nos Estados Unidos, em nível federal, não há limite para a vigilância de trabalhadores.”

Segundo ela, o monitoramento por meio de registro de teclas e capturas de tela amplia significativamente o nível de controle sobre funcionários de escritório, aproximando-os da realidade já vivida por trabalhadores de aplicativos e logística.

Já o professor Valerio De Stefano, da York University, destacou que esse tipo de prática provavelmente seria proibido em países europeus. Ele explicou que legislações mais rígidas limitam o uso de monitoramento eletrônico no ambiente de trabalho e que a prática pode violar regras de proteção de dados.

De Stefano alertou ainda que a simples consciência de estar sendo monitorado altera o equilíbrio de poder dentro das empresas, favorecendo os empregadores.

Debate sobre limites éticos da inteligência artificial

A decisão da Meta evidencia um dilema central da era da inteligência artificial: o uso intensivo de dados humanos para treinar sistemas que podem, no futuro, substituir parte do trabalho humano.

Ao transformar interações cotidianas — como cliques, digitação e navegação — em insumos para seus modelos, a empresa avança em uma estratégia que reforça sua liderança tecnológica, mas também amplia o debate sobre privacidade, direitos dos trabalhadores e os limites éticos da automação no ambiente corporativo.

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