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Ex-presidente do BRB foi aconselhado a delatar e viveu crise conjugal, mas insistiu no caminho que o levou à Papuda

Paulo Henrique Costa rejeitou a colaboração com a Polícia Federal e acabou preso na nova fase da Operação Compliance Zero

Paulo Henrique Costa, presidente do BRB (Foto: Kim Wyller / Lide)

247 – O ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi aconselhado a firmar um acordo de delação premiada com a Polícia Federal, viveu uma crise conjugal em meio ao avanço das investigações e, ainda assim, decidiu manter uma estratégia de defesa que terminou por levá-lo à prisão. As informações foram publicadas em reportagem da Folha de S.Paulo.

Segundo a reportagem, Costa foi detido nesta quinta-feira (16), em seu apartamento em um edifício de luxo no bairro Noroeste, em Brasília, sob suspeita de receber propina de R$ 145 milhões em imóveis e de integrar a organização criminosa atribuída a Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. A prisão ocorreu no contexto da nova fase da Operação Compliance Zero, que aprofunda as investigações sobre o escândalo envolvendo negócios firmados entre o BRB e o banco privado.

De acordo com relatos ouvidos pela Folha sob anonimato, o ex-dirigente foi orientado a colaborar com a Polícia Federal antes que seu depoimento perdesse utilidade para os investigadores, diante da perspectiva de análise do material apreendido na segunda etapa da operação, em 14 de janeiro. Mesmo diante desse cenário e da pressão de familiares, preferiu insistir na tese de que as compras de carteiras do Master — e depois de parte do próprio banco de Vorcaro — haviam sido vantajosas para o BRB.

A reportagem informa que Paulo Henrique Costa nunca chegou a oferecer formalmente uma delação. Segundo esses relatos, ele alegava ser inocente e dizia estar abalado emocionalmente após o pedido de separação da esposa. Ainda assim, mergulhou de forma meticulosa na montagem de sua defesa, reunindo em sua sala relatórios financeiros, dados de fundos de investimento, contratos e documentos do BRB que teria levado consigo antes de ser afastado do banco.

Seu advogado, Cléber Lopes, afirmou à Folha que o ex-presidente do BRB “não praticou crime algum” e classificou a prisão como um exagero da Justiça. Também declarou que manterá a estratégia adotada até aqui e segue “firme na convicção de que o Paulo Henrique não cometeu crime algum”.

Defesa técnica e tentativa de sustentar as operações

Uma das principais preocupações de Costa, segundo a reportagem, era demonstrar que não tinha conhecimento de que Daniel Vorcaro e seus sócios haviam ficado com 23,5% do capital do BRB por meio de fundos, em operações de aumento de capital realizadas durante sua gestão. A interlocutores, ele mostraria mensagens extraídas de seu celular com dirigentes do Banco Central que, em sua avaliação, comprovariam o apoio do regulador à operação de compra de parte do Banco Master pelo BRB.

Essas conversas, ainda conforme os relatos, seriam tratadas por ele como a peça central de sua defesa. Na primeira fase da operação, Costa estava fora do Brasil e o juiz responsável não acolheu o pedido do Ministério Público Federal para sua prisão. Afastado do cargo, no entanto, ele seguiu mantendo contato com antigos auxiliares que permaneceram no BRB e que o mantinham informado sobre assuntos internos — fato que, segundo a Folha, foi mais tarde identificado pela auditoria forense contratada pela nova gestão do banco.

A reportagem também afirma que Costa dizia a interlocutores que a delegada da Polícia Federal Janaina Palazzo, responsável pela investigação do caso Master, e seus auxiliares não teriam domínio suficiente sobre o mercado bancário. Por isso, afirmava estar disposto a prestar novos esclarecimentos para corrigir o que considerava distorções técnicas que estariam sendo reproduzidas na apuração e repassadas à imprensa. Ele chegou, inclusive, a pedir um novo depoimento à PF.

Polícia Federal identificou suspeitas de documentos falsos

Enquanto o ex-presidente do BRB apostava nessa linha de defesa, a Polícia Federal já reunia indícios de que ele teria falsificado documentos posteriormente para sustentar as decisões relacionadas à compra de carteiras do Banco Master. Segundo um integrante da corporação ouvido pela Folha, a nova fase da operação resulta do amadurecimento da investigação e do reforço trazido pelo relatório da auditoria forense.

Com base na extração de dados telemáticos dos celulares de Daniel Vorcaro e de outros investigados, além da documentação apreendida, os investigadores passaram a sustentar que Costa teve participação central na produção em massa de documentos artificiais. Entre os materiais citados estão planilhas de Excel, contratos, extratos, procurações e cláusulas de mandato que teriam sido elaborados para conferir aparência de regularidade a ativos sem lastro.

A reportagem informa ainda que o Banco Central também já havia identificado documentação falsificada e fabricada. Procurado para comentar esse ponto, o advogado de Costa disse que não iria se manifestar sobre o uso desses documentos pelo cliente.

As provas levantadas pela investigação mencionam ainda ajustes manuais de extratos, documentos antedatados, produção seriada de instrumentos contratuais e utilização de procurações atípicas, assinadas por agentes do banco em substituição aos supostos tomadores de crédito. Para a PF, esse conjunto de evidências desmontou a narrativa construída por Costa.

Conversas indicariam conhecimento prévio de irregularidades

A Folha relata que os diálogos extraídos dos telefones dos investigados indicariam que, desde o começo das operações, já havia conhecimento de inconsistências relevantes nas carteiras ofertadas. Mesmo assim, as aquisições teriam sido aceleradas, com sucessivas flexibilizações de procedimentos e pressão para liquidação rápida das compras, em aparente desprezo aos controles prudenciais exigidos de um banco público.

Essas conversas também apontariam, segundo a investigação, para vantagem indevida por meio da transferência de seis imóveis de alto padrão localizados em São Paulo e no Distrito Federal, mecanismo que teria servido para viabilizar a aquisição de carteiras consideradas fraudulentas.

Poucas semanas antes da prisão, a defesa de Paulo Henrique Costa havia apresentado uma manifestação técnica com a intenção de demonstrar que todas as decisões seguiram governança colegiada, boa-fé, padrões de mercado e racionalidade econômica, tanto na tentativa de aquisição do Banco Master quanto nas compras de carteiras.

Desde janeiro de 2025, a defesa também pedia a realização de um novo depoimento. Na ocasião, negava qualquer tratativa de delação e sustentava que “todas as operações do BRB seguiram os trâmites adequados e foram regulares”.

Caminho até a prisão

Do lado dos investigadores, havia a expectativa de que um eventual novo depoimento de Costa só ocorresse depois de uma possível delação de Daniel Vorcaro. O desfecho, contudo, foi outro. Antes que isso acontecesse, Paulo Henrique Costa acabou preso, já sob a avaliação de que a investigação reunira elementos suficientes para vinculá-lo não apenas às operações suspeitas no BRB, mas também à produção de documentos que teriam sido usados para dar sustentação artificial a esses negócios.

O caso aprofunda a crise em torno do BRB e do Banco Master e lança nova luz sobre um dos mais explosivos escândalos financeiros e políticos em investigação no país. A queda de um ex-presidente do banco público do Distrito Federal, cercada por suspeitas de propina, fraude documental e favorecimento indevido, expõe a dimensão de um esquema que agora se aproxima de um desfecho ainda mais grave para seus principais envolvidos.

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