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Agricultores franceses ocupam Paris em protesto contra acordo UE-Mercosul

Mobilização com tratores expõe crise de renda no campo, gera confrontos políticos e amplia tensão sobre acordo UE-Mercosul

Agricultores franceses ocupam Paris em protesto contra acordo com o Mercosul (Foto: REUTERS/Gonzalo Fuentes)

247 - Agricultores franceses ocuparam, na manhã desta quinta-feira (8), alguns dos principais cartões-postais de Paris em um protesto contra a iminente assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Com tratores espalhados por áreas como o Arco do Triunfo e a Torre Eiffel, a manifestação ganhou contornos de forte tensão política, refletindo a insatisfação de uma categoria historicamente influente na opinião pública francesa. As informações são do Le Monde.

O ato quase resultou em agressão à presidente da Assembleia Nacional, Yaël Braun-Pivet. Ao deixar o prédio do Parlamento para dialogar com os manifestantes do lado de fora, Braun-Pivet foi vaiada, chamada de “traidora” por uma agricultora e atingida por um líquido arremessado por outro manifestante, o que levou seus seguranças a retirá-la rapidamente do local.

Mesmo após o episódio, Braun-Pivet procurou legitimar o descontentamento dos agricultores e reafirmou disposição para o diálogo. “Os franceses têm o direito de exprimir sua cólera”, declarou mais cedo. Já no interior da Assembleia, voltou a defender a escuta das reivindicações do setor. “Eles estão com raiva, é normal que essa raiva se expresse”, afirmou, acrescentando que pretendia ouvir “o conjunto das organizações sindicais” em reuniões que descreveu como “trocas apaziguadas sobre o fundo da questão”. A dirigente também ressaltou: “Devemos estar à escuta dos cidadãos, mesmo quando é tenso”.

O contraste político ficou evidente quando o porta-voz do partido de ultradireita Reunião Nacional, Laurent Jacobelli, foi recebido de forma efusiva pelos manifestantes no mesmo local, em meio ao desgaste do governo do presidente Emmanuel Macron. Agricultores acusam o chefe de Estado de ter recuado de posições críticas ao acordo e de permitir seu avanço no âmbito europeu.

Entre as principais queixas está a deterioração da renda agrícola. Diante da Assembleia, o jovem criador de gado Mathieu Grandet, de 23 anos, descreveu a situação financeira do setor. “Já não conseguimos nos pagar decentemente. Tiro apenas 500 euros por mês, menos os 100 euros do crédito da casa… com a ameaça dos abates e o Mercosul, não sabemos como vamos sobreviver”, disse. Ele também criticou as medidas sanitárias relacionadas à dermatose nodular bovina: “Não faz sentido abater todo o rebanho. Sou a favor de sacrificar o animal doente e colocar os contatos em quarentena, mas o rebanho inteiro não faz sentido”.

A mobilização não se limitou à capital. Houve bloqueios de estradas em diferentes regiões do país, derrubada de árvores para interromper o trânsito e apreensão de tratores. Em Paris e arredores, agricultores foram detidos, enquanto a atuação policial foi considerada contida. Em Rodez, no sul da França, manifestantes fecharam acessos à cidade após a prisão de um dirigente regional da Coordination rurale. “Somos um movimento pacífico, não houve nenhuma violência”, afirmou Mathieu Galliou, copresidente da entidade no Aveyron.

No plano nacional e europeu, a pressão segue crescendo. A Federação Nacional dos Sindicatos de Exploradores Agrícolas (FNSEA) convocou uma grande mobilização para o dia 20 de janeiro, em Estrasburgo, reunindo agricultores de vários países. O presidente da entidade, Arnaud Rousseau, explicou a estratégia: “Queremos interpelar os eurodeputados que ainda podem recorrer à Corte de Justiça Europeia para adiar esse acordo”, cobrando do governo francês “medidas de urgência” diante da crise no campo.

O governo francês mantém discurso oficial contrário ao tratado. O ministro das Relações com o Parlamento, Laurent Panifous, foi direto: “É preciso que o voto francês seja não”, argumentando que “as condições não estão reunidas” e que não é aceitável importar produtos agrícolas produzidos sob regras proibidas na França. A Irlanda também anunciou posição contrária. O primeiro-ministro Micheál Martin afirmou que as garantias apresentadas são insuficientes: “Devemos ter certeza de que as normas impostas aos agricultores europeus não serão comprometidas por sistemas de produção menos exigentes”.

Enquanto isso, a porta-voz do governo francês, Maud Bregeon, classificou como “inaceitáveis” as ações de bloqueio, alertando que o Estado não permitirá o cerco de rodovias ou da Assembleia. Já o ministro dos Transportes, Philippe Tabarot, adotou tom conciliador. “Os agricultores não são inimigos do país”, declarou, defendendo a continuidade do diálogo.

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