Pepe Escobar explica como Rússia e China estão apoiando o Irã
Analista geopolítico explica articulação entre Moscou, Pequim e Teerã para conter escalada militar no Oriente Médio
247 – O jornalista e analista geopolítico Pepe Escobar afirmou que Rússia e China passaram a atuar diretamente ao lado do Irã na tentativa de impedir uma nova escalada militar no Oriente Médio e construir uma saída diplomática para a crise envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Estreito de Ormus. A análise foi feita em seu programa Pepe Café, publicado no YouTube.
Segundo Escobar, houve uma mudança brusca no cenário geopolítico após ataques de drones e mísseis contra os Emirados Árabes Unidos, especialmente na região de Fujairah, porto estratégico utilizado pelos emiradenses para tentar reduzir sua dependência do Estreito de Ormus.
Inicialmente, os ataques foram atribuídos ao Irã, mas Teerã negou envolvimento. Escobar destacou a posição oficial do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC): “A República Islâmica do Irã não atacou os Emirados Árabes Unidos com nenhum míssil e com nenhum drone”.
O jornalista afirmou que o episódio permanece cercado de incertezas e sugeriu que a ação pode ter sido uma operação de bandeira falsa, hipótese que, segundo ele, circulou em diferentes setores da imprensa regional.
Rússia e China entram em cena
Na análise apresentada no Pepe Café, Escobar afirma que o principal fato geopolítico da semana foi a entrada explícita de Rússia e China nas negociações relacionadas à guerra.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, esteve primeiro em São Petersburgo, onde se reuniu com Serguei Lavrov e com o presidente Vladimir Putin. Em seguida, viajou para Pequim para um encontro com o chanceler chinês Wang Yi.
Para Escobar, a sequência das reuniões mostra a consolidação de um eixo estratégico entre Moscou, Pequim e Teerã.
“A mesa agora inclui necessariamente China e Rússia por trás do Irã”, afirmou.
Segundo o jornalista, Putin teria conversado diretamente com Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, para apresentar as posições iranianas e defender uma solução negociada.
As exigências iranianas
Pepe Escobar detalhou os pontos que, segundo ele, foram apresentados pelo Irã a Rússia e China como condições para qualquer processo de negociação.
Entre as principais exigências estão:
- garantias por escrito de que não haverá novos ataques contra o Irã;
- fim da guerra contra o Irã e contra o chamado eixo da resistência;
- retirada das forças militares americanas da região;
- encerramento do bloqueio naval;
- devolução de ativos iranianos congelados;
- discussão sobre reparações econômicas.
O jornalista também afirmou que o Irã quer estabelecer um novo mecanismo de controle e segurança no Estreito de Ormus em coordenação com Omã.
China endurece discurso contra guerra
Outro ponto destacado no programa foi a posição adotada por Pequim. Segundo Escobar, os chineses classificaram a ofensiva militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irã como “ilegítima”.
Na avaliação do jornalista, o termo usado pela diplomacia chinesa representa uma crítica contundente às ações militares ocidentais.
“Essa é a maneira sofisticada, polida, chinesa de dizer que tudo isso é ilegal”, afirmou.
Para Escobar, a declaração foi dada estrategicamente antes da possível reunião entre Trump e Xi Jinping em Pequim.
Trump chega “sem cartas na mão”
Ao longo do programa, Pepe Escobar sustentou que Donald Trump chega fragilizado politicamente às negociações com a China.
Segundo ele, os Estados Unidos recuaram de iniciativas militares mais agressivas porque uma guerra aberta contra o Irã inviabilizaria qualquer tentativa de avanço diplomático com Pequim.
“Trump chega à China com zero cartas na mão”, resumiu.
O jornalista afirmou ainda que a crise no Oriente Médio já produz impactos profundos sobre a economia global e alertou para o risco de agravamento caso as negociações fracassem.
O novo eixo Rússia-Irã-China
Na parte final da análise, Escobar relacionou a aproximação entre Rússia, Irã e China ao conceito geopolítico desenvolvido pelo ex-ministro russo Yevgeny Primakov no fim dos anos 1990.
Segundo ele, se antes a ideia central era a articulação entre Rússia, Índia e China, agora o novo eixo estratégico da Eurásia seria formado por Rússia, Irã e China.
Os três países integram os BRICS e também possuem vínculos na Organização para Cooperação de Xangai, estrutura que, segundo Escobar, ganha peso crescente diante do enfraquecimento da influência ocidental na região.
Para o jornalista, o objetivo central da articulação sino-russa é impedir uma explosão militar de grandes proporções no Oriente Médio e criar as bases para uma negociação ampla envolvendo guerra, energia, sanções e segurança regional.


