Global Times: “Conselho de Paz” de Trump trata Gaza como mercadoria e empurra o mundo para a lei do mais forte
Editorial do jornal chinês alerta para erosão da ordem internacional e defende “palestinos governando a Palestina”
247 – Um editorial do jornal chinês Global Times acusa o governo dos Estados Unidos, sob a liderança do presidente Donald Trump, de tentar “privatizar” a política internacional ao propor um chamado “Conselho de Paz” para a Faixa de Gaza, com cadeiras “permanentes” precificadas em US$ 1 bilhão. O texto também relata que Trump teria ameaçado impor tarifas de 200% sobre vinhos e champanhes franceses após o presidente da França, Emmanuel Macron, supostamente resistir a aderir ao arranjo, segundo reportagens citadas pela publicação.
De acordo com o Global Times, a proposta integra um plano de 20 pontos apresentado por Washington como via para encerrar o conflito Israel-Hamas em Gaza, mas a arquitetura sugerida — presidida por Trump, com adesão “por convite” e poderes concentrados no mandatário para definir mandatos, renovações e exclusões — estaria menos orientada à paz e mais alinhada ao que o jornal chama de “diplomacia transacional”. Na avaliação do editorial, o desenho do órgão converte a reconstrução e o destino político de Gaza em um “negócio” comandado por interesses externos, desconsiderando o direito de autodeterminação dos palestinos.
Crise em Gaza e disputa pela narrativa do pós-guerra
O editorial situa sua crítica no prolongamento da guerra e no colapso humanitário em Gaza, apontando que, mesmo após cerca de 30 meses de conflito, a situação se deteriora e segue sem horizonte de solução estruturante. Nessa leitura, o impulso da Casa Branca para instituir um “Conselho de Paz” funcionaria como vitrine de influência geopolítica dos EUA, mais do que como resposta às urgências humanitárias imediatas.
O Global Times sustenta que o problema começa pela lógica de composição e pelo centro de gravidade político do organismo. Segundo o texto, o “Conselho de Paz” seria dirigido por uma autoridade estrangeira e montado com um círculo de políticos americanos e aliados, enquanto o ator “mais crítico” — os próprios palestinos — aparece ausente do núcleo decisório. Para o jornal, essa exclusão não é detalhe técnico: é uma mensagem política. Ao desenhar o futuro de Gaza “sem consentimento” dos palestinos, o plano adquire, no entendimento do editorial, traços de um arranjo “colonial”, pois terceiriza a governança e subordina o território a uma instância externa.
Declarações e pontos centrais do editorial: “diplomacia de balcão” e cadeiras à venda
O texto do Global Times descreve o “Conselho de Paz” como um produto típico da “diplomacia transacional”, isto é, um método que transforma temas de guerra, reconstrução e soberania em moeda de troca. O eixo mais chocante, segundo o editorial, é a oferta explícita de uma cadeira “permanente” por US$ 1 bilhão, o que equivaleria a rebaixar a “solene causa da paz internacional” a um jogo de dinheiro.
A publicação argumenta que “o futuro de Gaza não deveria ser uma mercadoria a ser comprada” e alerta que, sob influência do capital e da vontade hegemônica, qualquer promessa de pacificação tende a se tornar frágil e instrumentalizada. Ao precificar assentos e concentrar convites e expulsões nas mãos de um único líder, a proposta, diz o editorial, desloca o centro do debate do direito internacional para um mecanismo de “clube”, em que poucos definem regras e distribuem lugares conforme interesses.
Nesse enquadramento, a ameaça de tarifas de Trump contra produtos franceses — mencionada no texto como reação à suposta recusa de Macron em integrar o organismo — aparece como demonstração do método: pressão econômica para alinhar parceiros a uma arquitetura político-diplomática construída fora de marcos multilaterais tradicionais.
Repercussões e riscos: erosão da solução de dois Estados e fragmentação palestina
O editorial afirma que o mecanismo proposto não apenas tende a falhar em resolver a crise, como pode “envenenar” o cenário político do Oriente Médio. A crítica é organizada em três frentes.
A primeira é a inversão de prioridades. Em vez de colocar a crise humanitária no topo, o “Conselho de Paz” seria estruturado, segundo o texto, com foco maior em “operações de capital” ligadas à reconstrução pós-guerra. Nessa perspectiva, a reconstrução vira plataforma de negócios e alavanca geopolítica, não compromisso com vidas civis e direitos.
A segunda frente é o impacto sobre a solução política do conflito. O Global Times sustenta que o plano liderado pelos EUA “elimina” o papel político da Autoridade Nacional Palestina em Gaza e cria uma instância controlada por forças externas acima de um comitê tecnocrático palestino. O efeito, afirma o editorial, seria substituir governança soberana por intervenção, minando a base política da “solução de dois Estados”.
O texto também adverte para um risco adicional: ao institucionalizar uma governança externa sobre Gaza, a proposta aprofundaria a separação entre Gaza e a Cisjordânia, tornando “a paz justa e duradoura” ainda mais difícil. Em outras palavras, longe de unificar uma estratégia palestina para a autodeterminação, o desenho promoveria mais fragmentação.
Impactos globais: “governança de clube” e retorno à lei do mais forte
A terceira crítica do Global Times mira a ordem internacional. O editorial enquadra a crise de Gaza como exemplo brutal de um mundo em que “o poder faz o direito”. Nesse contexto, permitir que “cadeiras de paz” sejam compradas e que grandes potências criem sistemas próprios fora da ordem existente enfraqueceria a legitimidade e a imparcialidade do sistema internacional construído no pós-guerra.
A publicação chama esse modelo de “governança de clube”, em que o direito internacional se degrada a um “contrato privado” entre potências e seus associados, empurrando o planeta de volta à “lei da selva”. Na visão do jornal, se a paz pode ser precificada e a governança pode ser privatizada, o que se consolida é uma diplomacia de hierarquias, não de regras, e a noção de justiça internacional se torna contingente ao poder econômico e militar.
Saídas defendidas pelo Global Times: ONU, justiça e “palestinos governando a Palestina”
Como alternativa, o editorial sustenta que qualquer arranjo para a governança pós-guerra de Gaza deve ser discutido no marco das Nações Unidas e precisa respeitar o princípio “palestinos governando a Palestina”. O texto também afirma que a paz “genuína” deve se basear na solução de dois Estados e na restauração dos direitos legítimos do povo palestino — e não em estruturas montadas por um “pequeno grupo” sob liderança de uma potência hegemônica.
O alerta final é para que a comunidade internacional desconfie da tendência de submeter o direito internacional a jogos geopolíticos e, em vez disso, trate a reconstrução de Gaza como reconstrução de justiça, não como expansão de influência. O texto é apresentado como uma peça opinativa do Global Times, atribuída a um pesquisador do China Institute of International Studies, reforçando seu caráter editorial e interpretativo dentro do debate internacional.



