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Amauri Chamorro alerta para risco de novos golpes e diz que América Latina deve se preparar para ofensiva dos EUA

Analista afirma que “a certeza é que vai ter um golpe de Estado” e relaciona sequestro de Nicolás Maduro a uma doutrina histórica de intervenção na região

Jornalista Amauri Chamorro fala no painel o painel "As Experiências Internacionais", durante o evento "A Política Nacional sobre Drogas: um Novo Paradigma", realizado pelo Brasil 247, TV 247 e Consultor Jurídico, com apoio do grupo Prerrogativas - Brasília (DF) - 18/02/2025 (Foto: Log Filmes/Brasil 247)

247 – Em entrevista à TV 247, o analista Amauri Chamorro afirmou que a América Latina vive sob risco permanente de desestabilizações e golpes e defendeu que governos progressistas devem se preparar para uma nova ofensiva dos Estados Unidos contra o continente. A declaração foi feita durante uma transmissão que discutiu o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores, episódio descrito por Chamorro como uma escalada sem precedentes no cenário internacional.

Logo no início da conversa, ao ser questionado sobre “quem vai ser o próximo” alvo após a operação contra a Venezuela, Chamorro respondeu de forma categórica: “É uma loteria. A gente não sabe realmente o que pode acontecer, porém a gente pode ter a certeza de que vai acontecer. Não, não, não soframos por isso. Preparemo-nos por isso.” A fala sintetiza o tom central de sua análise: a região deve abandonar qualquer ilusão de estabilidade e adotar uma postura preventiva diante de um padrão histórico de intervenção externa.

“A gente tem que estar certo que vai ter um golpe de Estado”, diz Chamorro

Chamorro relacionou o episódio envolvendo Maduro a um histórico de golpes e tentativas de desestabilização em diferentes países latino-americanos. Ele citou a Bolívia, o Equador, o Peru e também o Brasil, incluindo o golpe de Estado contra Dilma e a ofensiva política e judicial que atingiu o presidente Lula.

Em um dos trechos mais contundentes, o analista insistiu que a ameaça não depende do alinhamento diplomático de governos da região com Washington. “Então a gente tem que estar certo que vai ter um golpe de estado. Não adianta o presidente Lula ser super amigo do Donald Trump agora, ele ser um querido, porque Obama também…”, afirmou, antes de acrescentar: “O Obama enfiou na cadeia o presidente Lula. Foi Obama que articulou o golpe de estado contra a presidenta Dilma Russef.”

A análise também incluiu críticas ao que ele chamou de modus operandi do poder norte-americano: “É um modus operante dos Estados Unidos da sua história. Isso faz parte do crescimento e da consolidação dos Estados Unidos como um império que domina a nossa região.” Para Chamorro, esse padrão se mantém porque a América Latina reúne recursos naturais estratégicos, fundamentais para o funcionamento do capitalismo global e das cadeias de tecnologia.

Recursos naturais e disputa geopolítica: “a gente tem tudo”

Ao contextualizar por que a América Latina permanece sob pressão, Chamorro afirmou que o continente é alvo central porque concentra riquezas decisivas: “A América Latina é dona dos recursos naturais que são fundamentais… Nós temos água, a gente tem todas as matérias primas necessárias para a produção de tecnologia, de satélites e celulares.” Em seguida, enumerou: “A gente tem o ouro, a gente tem óleo, a gente tem petróleo, a gente tem luz, tem sol, tem vento, a gente tem tudo.”

Na visão do analista, essa abundância é interpretada por Washington como parte de uma doutrina de domínio: “É importante para os Estados Unidos… ter o domínio sobre isso.” E a consequência, segundo ele, é uma escolha imposta: “Ou a gente se alinha ou a gente vai ser derrubado, a gente vai ser assassinado, a gente vai ser desestabilizado.”

Sequestro de Maduro e a continuidade do governo bolivariano

Questionado sobre a situação interna da Venezuela após o sequestro, Chamorro descreveu a movimentação institucional que, segundo ele, confirma a continuidade do governo bolivariano. Ele destacou o papel da vice-presidente Delcy Rodríguez, enfatizando que ela não assumiu formalmente a presidência como gesto político e simbólico diante do ataque.

Segundo Chamorro, “a revolução bolivariana continua governando o país” e Delcy manteve-se como vice-presidente, denunciando o crime: “Ela continua vice-presidente, denunciando o sequestro, porque realmente foi um sequestro do presidente Nicolás Maduro e da Cília, né, da primeira dama.” Para ele, trata-se de um fato inédito: “Um presidente vivo foi sequestrado, foi levado para o império, né, para os Estados Unidos.”

Chamorro afirmou ainda que Delcy Rodríguez estaria respaldada pelos principais atores do Estado venezuelano. Ele citou a presença de dirigentes e autoridades ligados à área política, militar e institucional, descrevendo uma estrutura de apoio que garantiria a governabilidade em meio ao que chamou de “situação de guerra”.

Embargo e bloqueio: “medida coercitiva unilateral”

O analista também criticou o embargo econômico contra a Venezuela, chamando-o de ilegal e sem legitimidade internacional. “Os Estados Unidos criaram um bloqueio econômico financeiro a Venezuela, que é uma medida coercitiva unilateral.” E completou: “Os Estados Unidos não são os donos do mundo, eles não são a polícia do planeta.”

Na mesma linha, Chamorro argumentou que a escalada contra Caracas não pode ser interpretada como evento isolado, mas como parte de uma lógica de punição e controle político. Ele também mencionou que a Venezuela teria conseguido contornar parcialmente os impactos do bloqueio, citando um dado atribuído à CEPAL: “A CEPAL indicou que a Venezuela é o país que mais cresceu em 2025, com uma projeção de crescimento fantástica para 2026.”

Brasil como alvo e o discurso do “narcoterrorismo”

Em outro momento, Chamorro alertou que narrativas de “narcoterrorismo” e terrorismo têm sido mobilizadas como justificativas para intervenções. Ele mencionou acusações e tentativas de enquadramento do narcotráfico como terrorismo, sugerindo que esse tipo de argumento poderia criar “base legal” para agressões internacionais.

Ele afirmou: “Eles estão tentando criar matriz de dizer que o Brasil também é um país que envia droga pra Europa, pros Estados Unidos, pro resto do mundo.” E completou: “Essa justificativa de terrorismo na Venezuela com o narcotráfico que permitiu uma falsa legalidade do Donald Trump em fazer esta barbaridade contra o nosso continente.”

Nesse contexto, Chamorro reforçou que não há garantia de proteção diplomática, mesmo com acordos ou concessões. “Não adianta a gente falar: ‘Não, a gente é super amigo, já baixou a tarifa, estamos bem, vamos aí’. Não, não dá para a gente como continente, como país, acreditar nisso.”

“Não vamos nos surpreender. Vamos construir capacidade de sobreviver”

Ao final, Chamorro ampliou o diagnóstico para além da América Latina e citou o colonialismo europeu na África como exemplo semelhante de dominação por meio de golpes, assassinatos e controle de recursos. Ele reforçou a ideia de que a única saída seria fortalecer a soberania e reduzir dependências tecnológicas e estratégicas.

Em uma frase que sintetiza sua conclusão, afirmou: “A gente tem que criar as nossas capacidades de sobreviver, porque isso é uma realidade que se repete todo ano.” E acrescentou: “Não vamos nos surpreender. Vamos pensar e construir uma capacidade onde a gente não dependa de forças exteriores.”

A entrevista, marcada por um tom de alerta e denúncia, colocou no centro do debate a tese de que o sequestro de Maduro não seria um episódio isolado, mas um “recado” a governos progressistas e um aviso sobre a intensificação da disputa geopolítica na América Latina. Para Chamorro, o caminho passa por lucidez, preparação e unidade regional diante de uma ameaça que, segundo ele, é recorrente e estrutural.

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