HOME > Economia

Mercado prevê novo corte de apenas 0,25 na Selic, mas vê ciclo de queda de juros mais curto

Alta do petróleo, inflação pressionada e expectativas desancoradas reforçam cautela do Banco Central na decisão desta quarta-feira

Mercado prevê novo corte de apenas 0,25 na Selic, mas vê ciclo de queda de juros mais curto (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

247 – O mercado financeiro aposta que o Comitê de Política Monetária (Copom) deve reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto percentual nesta quarta-feira (29), levando os juros básicos de 14,75% para 14,5% ao ano. A avaliação é de que o Banco Central manterá uma postura cautelosa diante da incerteza provocada pelo conflito no Oriente Médio, da alta do petróleo e da pressão sobre combustíveis e alimentos.

As informações são da Folha de S.Paulo, que ouviu economistas sobre as expectativas para a reunião do Copom. Segundo os analistas, o cenário ficou mais difícil desde a ofensiva lançada por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o que deve resultar em um ciclo de queda da Selic mais lento e mais curto do que o esperado anteriormente.

A decisão será tomada por um colegiado desfalcado. Além das vagas ainda abertas nas diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro, o diretor de Administração do Banco Central, Rodrigo Teixeira, não participará da reunião devido ao falecimento de um familiar. Assim, a deliberação ficará a cargo do presidente do BC, Gabriel Galípolo, e de mais cinco diretores.

Inflação e petróleo pressionam o BC

Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, afirmou que a piora das expectativas de inflação até 2028 reduziu o espaço para novos cortes. O banco elevou sua projeção para a Selic ao fim do ciclo, de 12,25% para 13%.

"O mercado coloca nos preços uma visão de que [o estreito de] Hormuz não volta à normalidade do pré-guerra. É uma região que vai ter um risco geopolítico maior do que costumava ter e, portanto, o petróleo fica com prêmio de risco [rentabilidade adicional cobrada pelos investidores]", afirmou.

O boletim Focus mostrou alta da expectativa para o IPCA de 2026 pela sétima semana seguida, chegando a 4,86%, acima do teto da meta de inflação, de 4,5%. Para 2027, horizonte observado pelo Copom, a projeção subiu para 4%. Para 2028, avançou a 3,61%.

No acumulado de 12 meses até abril, o IPCA-15 acelerou a 4,37%, pressionado pelos combustíveis e pelos alimentos. Ainda assim, Gonçalves vê espaço para um corte de 0,25 ponto agora, em razão da valorização recente do real, com o dólar abaixo de R$ 5.

Expectativa sobre o corte da Selic
Expectativa sobre o corte da Selic(Photo: Brasil 247)

Comunicação do Copom estará no centro das atenções

Solange Srour, diretora de macroeconomia para o Brasil no UBS Global Wealth Management e colunista da Folha, avalia que o Banco Central deve adotar uma postura “dependente dos dados”, como outros bancos centrais.

"Toda a tensão do mercado é muito mais na comunicação. Se o Copom vai deixar a barra muito alta para parar [de cortar juros] ou para acelerar [o ritmo de queda da Selic]", disse.

Para ela, o Brasil enfrenta um quadro mais delicado porque as expectativas de inflação seguem distantes da meta. "A desaceleração da economia no Brasil vai ser atrasada e mais gradual porque a gente tem uma política fiscal que continua expansionista. A gente já está com uma inflação corrente pior e expectativas de médio e longo prazo desancoradas [longe da meta]", afirmou.

Srour também relacionou a desancoragem das expectativas à falta de credibilidade fiscal. "Quando a gente não tem um horizonte de estabilização de dívida [pública], não tem um horizonte de obtenção de superávits primários que possam trazer algum tipo de trajetória mais benigna, a expectativa de inflação fica desancorada [distante da meta]", disse.

Segundo ela, não há espaço para a Selic cair muito abaixo de 13,5% ao ano ao fim do ciclo.

Artigos Relacionados