HOME > Brasil

Temer emerge como personagem central no escândalo do Master

Ex-presidente recebeu milhões para tentar viabilizar uma venda às pressas quando já se sabia que o banco seria liquidado

Michel Temer (Foto: Reuters)

247 – A tentativa de venda do Banco Master, em meio ao colapso da instituição e às investigações da Polícia Federal, expõe uma complexa rede de articulações que atravessou diferentes governos e reuniu empresários, intermediários internacionais, operadores financeiros e figuras políticas de alto escalão, com destaque para o ex-presidente Michel Temer.

Segundo reportagem do jornal Estado de S. Paulo, a operação liderada pelo banqueiro Daniel Vorcaro mobilizou uma ofensiva internacional para tentar salvar o banco, já pressionado pelo Banco Central e sob suspeita de irregularidades. O esforço incluiu contatos com investidores árabes e russos, negociações em Dubai e Abu Dhabi e a participação direta de Temer na tentativa de atrair capital estrangeiro.

Documentos obtidos pela reportagem mostram que, mesmo após a liquidação do banco, houve a assinatura de contratos envolvendo a gestora árabe Royal Capital e a empresa brasileira Fictor. Em um dos casos mais inusitados, a assinatura de executivos estrangeiros aparece vinculada a CPFs brasileiros, incluindo o do lutador Renzo Gracie, amigo de intermediários ligados ao mundo árabe.

A operação, no entanto, nunca se concretizou. O contrato não produziu efeitos, e dias depois a Fictor entrou em recuperação judicial, alegando uma crise provocada por saques em massa de investidores após o escândalo do Master.

A corrida desesperada de Vorcaro

A reportagem reconstitui a tentativa de Vorcaro de se desfazer do banco quando já enfrentava investigações e cobranças do Banco Central para equacionar a situação financeira da instituição. A estratégia incluiu a mobilização de uma rede de intermediários com acesso a investidores internacionais e autoridades estrangeiras.

Nesse contexto, Michel Temer surge como peça-chave. O ex-presidente foi acionado por Vorcaro para facilitar contatos com investidores do Oriente Médio. Ele chegou a viajar a Abu Dhabi, onde participou de reuniões com o sheik Abdullah Bin Rashid Al Mualla, membro da família real dos Emirados Árabes Unidos.

Segundo os documentos e apurações, Temer recebeu R$ 10 milhões do Banco Master, conforme dados de quebra de sigilo fiscal. Sua atuação incluía não apenas a tentativa de atrair investidores, mas também esforços para acalmar grandes bancos brasileiros preocupados com os impactos do eventual colapso do Master no Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

Temer no escândalo Master
Temer no escândalo Master(Photo: Brasil 247)

A viagem aos Emirados contou também com a presença do empresário Mário Arruda. Em Abu Dhabi, Temer participou de um jantar no palácio do sheik, em um encontro que discutiu a possibilidade de entrada de capital árabe no sistema financeiro brasileiro por meio da aquisição do Master.

Apesar das articulações, investidores estrangeiros recuaram diante das incertezas e dos riscos associados ao banco.

Intermediários, contratos e inconsistências

A operação contou com uma rede de intermediários, incluindo o advogado Bruno Burilli, responsável por apresentar o banco a investidores internacionais, e o executivo Christopher Langner, que atuava como ponte com fundos estrangeiros.

Cartas de intenção de investimento chegaram a ser apresentadas ao Banco Central, prometendo aportes de até US$ 800 milhões. No entanto, esses documentos não garantiam a efetivação dos negócios.

Um dos contratos mais controversos foi assinado em dezembro de 2025, já após a liquidação do banco. Nele, executivos estrangeiros aparecem como signatários, mas seus nomes estão associados a CPFs de terceiros no Brasil — entre eles, o de Renzo Gracie.

Os envolvidos não confirmaram a autenticidade das assinaturas nem esclareceram se autorizaram representantes a agir em seu nome.

O papel da Fictor e o colapso financeiro

A Fictor, empresa que se propôs a adquirir parte do banco, prometia investir R$ 3 bilhões, com outros R$ 3 bilhões vindos de fundos estrangeiros. O plano incluía transformar a instituição no chamado “Banco Fictor”.

No entanto, havia cláusulas contratuais que protegiam os investidores caso os ativos do banco fossem considerados inexistentes, inflados ou fraudulentos — o que poderia reduzir drasticamente o valor da operação, chegando simbolicamente a R$ 1.

Poucos dias após as negociações avançarem, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no Aeroporto de Guarulhos. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master.

Mesmo assim, a Fictor insistiu nas negociações e chegou a se reunir com o Banco Central para tentar reverter a liquidação, sem sucesso.

Posteriormente, a empresa entrou em recuperação judicial, declarando dívidas de R$ 4 bilhões.

Advogados, pressão judicial e suspeitas de fraude

A reta final da operação foi marcada por forte tensão. Vorcaro mobilizou uma equipe de advogados de peso para tentar evitar sua prisão e acelerar a formalização da venda do banco.

Entre os envolvidos estava o advogado Daniel Monteiro, que posteriormente seria preso sob acusação de intermediar pagamentos de propina ligados ao escândalo. Seu escritório recebeu R$ 71 milhões do Banco Master, segundo relatórios do Coaf.

As investigações apontam que a tentativa de venda pode ter sido uma estratégia para ganhar tempo diante das autoridades e dificultar a ação dos reguladores.

Carreira 3D • Investidor 3D • Consumo consciente

O Dinheiro 3D é um guia prático para quem quer evoluir financeiramente com visão, estratégia e equilíbrio.

Saiba mais

Artigos Relacionados