Al Gore alerta para poder das petroleiras e diz que crise climática é consequência dos combustíveis fósseis
Ex-vice-presidente dos Estados Unidos critica influência política das grandes corporações do setor e aponta papel estratégico do Brasil na COP30 em Belém
247 – O ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Al Gore, fez um duro pronunciamento contra a indústria de combustíveis fósseis, acusando-a de dominar a política mundial e travar decisões essenciais para enfrentar o aquecimento global. “O setor de combustíveis fósseis se tornou hegemônico e com poder político para ditar o que o mundo pode ou não fazer. É insano”, afirmou. A entrevista foi concedida ao Valor Econômico após palestra para 1.200 pessoas, no Rio de Janeiro, durante o quarto treinamento de lideranças climáticas promovido no Brasil pela organização que fundou, a Projeto Realidade Climática.
Aos 77 anos, Gore falou por mais de duas horas sobre causas e soluções para a emergência climática. Demonstrou indignação diante da força das petroleiras e questionou as prioridades da sociedade. “O que é mais importante para nós: aumentar os lucros dos piores poluidores ou proteger a saúde humana e salvaguardar o futuro da civilização? Me parece ser clara a escolha”, declarou.
A ameaça do plástico e os riscos à saúde
Gore ressaltou que, diante da perda de espaço no setor de energia elétrica para fontes renováveis e no transporte para veículos elétricos, a indústria de combustíveis fósseis tem concentrado esforços na expansão do mercado petroquímico, sobretudo do plástico. “Estão perdendo mercados, mas dizem aos investidores que vão compensar os lucros triplicando a produção de plástico”, alertou.
O ex-vice-presidente destacou pesquisas que mostram resíduos plásticos em sangue, placenta e até no cérebro humano, além de estudos em aves que apontaram sintomas semelhantes à doença de Alzheimer devido à presença de microplásticos. “É por isso que dedico tanto do meu tempo à criação de movimentos de base, para reafirmar a capacidade da humanidade de recuperar o controle do nosso destino”, afirmou.
O papel do Brasil e a expectativa para a COP30
Para Gore, o Brasil tem posição privilegiada na condução da Conferência do Clima, que acontecerá em Belém, em novembro. “O Brasil tem mais chances de sucesso do que qualquer outra nação, porque pode falar tanto pelo Norte quanto pelo Sul, tanto pelas economias desenvolvidas quanto pelas emergentes”, afirmou. Ele elogiou a escolha do embaixador André Corrêa do Lago como presidente da COP30 e destacou a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a quem chamou de “heroína mundial”.
Gore também disse ter “muita confiança no presidente Lula e em sua equipe diplomática”, acreditando que o Brasil será capaz de reafirmar compromissos internacionais de redução do uso de combustíveis fósseis.
Críticas aos Estados Unidos e a Donald Trump
O ex-vice-presidente também direcionou críticas à política de seu próprio país, que considera marcada por contradições. Para ele, os Estados Unidos têm adotado uma “abordagem esquizofrênica” em relação à crise climática, oscilando entre avanços e retrocessos a depender do governante.
Ao falar sobre o atual presidente Donald Trump, Gore foi categórico: “Ele mente descaradamente. Disse que os Estados Unidos têm déficit comercial com o Brasil, quando na verdade temos superávit. Disse que o carvão é limpo, que as torres eólicas causam câncer, que a Ucrânia começou a guerra com a Rússia. Tudo isso são mentiras”.
Ele declarou esperar que as eleições legislativas de 2026 e a escolha de um novo presidente em três anos mudem a postura dos Estados Unidos. “Tenho esperança de que a democracia se reafirme com muita força no meu país”, disse.
Sinais de esperança e transição energética
Apesar das críticas, Gore demonstrou otimismo ao citar avanços recentes. Em 2024, 93% da nova geração elétrica instalada no mundo foi de fontes renováveis, e mais de 20% dos automóveis vendidos já eram elétricos — chegando a 50% na China. “Isso é encorajador. Temos novas tecnologias, como aço e cimento verdes, agricultura regenerativa e manejo sustentável de florestas. Já dispomos dos meios para reduzir em 65% as emissões em dez anos”, afirmou.
Segundo ele, a questão central não é apenas tecnológica, mas política: “Temos de criar vontade suficiente para derrubar o poder hegemônico dos poluidores de combustíveis fósseis. A crise climática é, antes de tudo, uma crise causada pelos combustíveis fósseis”.
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