Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Jeffrey Sachs defende que América Latina busque autonomia estratégica em relação aos Estados Unidos

Professor de Columbia afirma que região deve agir unida, ampliar autonomia estratégica e resistir à pressão de Washington contra relações com China

Jeffrey Sachs (Foto: Reprodução Youtube)
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247 – O professor Jeffrey Sachs, da Universidade Columbia, defendeu que os países da América Latina atuem de forma coordenada para resistir às tentativas dos Estados Unidos de impor limites às suas relações comerciais e estratégicas, especialmente com a China.

Em entrevista ao Valor Econômico, Sachs afirmou que a região deve dizer ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que não aceita ser tratada como área subordinada a Washington. “Não somos serviçais, não dependemos que nos digam com quem podemos ter comércio ou com quem podemos investir”, disse.

Para o economista, a América Latina enfrenta dois desafios centrais: acelerar o desenvolvimento inclusivo e lidar com um cenário geopolítico cada vez mais tensionado. Na avaliação dele, a região ficou aquém de seu potencial nas últimas décadas e precisa avançar em tecnologia e qualidade da educação.

“A região está para trás em avanços tecnológicos: é um usuário, mas não um produtor das tecnologias”, afirmou.

Sachs também defendeu que os países latino-americanos fortaleçam sua autonomia estratégica diante da disputa entre Estados Unidos e China. Segundo ele, a Ásia voltou ao centro da economia global, enquanto Washington tenta impedir que a América Latina aprofunde seus laços com Pequim.

“A América Latina precisa retomar autonomia estratégica em relação aos EUA para poder dizer, de maneira amigável: ‘Não somos serviçais’”, declarou.

Para Sachs, essa posição deve ser adotada independentemente das diferenças ideológicas entre governos da região. “Sejam de esquerda ou de direita, pró-Trump ou anti-Trump, vocês são latino-americanos e devem dizer [a Trump] que não pode fazer isso”, afirmou.

O professor criticou a visão de Trump sobre o continente. Segundo ele, o presidente dos EUA enxerga América do Sul, América Central e Caribe como áreas de influência exclusiva americana.

“A visão de Trump é que América do Sul, América Central e Caribe pertencem aos EUA”, disse. “Os EUA não têm direito de ditar o que o resto das Américas faz.”

Sachs também afirmou que Washington não tem legitimidade para impedir o Brasil de negociar com a China. Para ele, aceitar essa pressão seria um erro estratégico.

“Se a região cair nessa armadilha, vai ficar para trás”, alertou.

Ao comentar o risco de uma terceira guerra mundial, Sachs atribuiu a principal responsabilidade à mentalidade de dominação dos Estados Unidos após a Guerra Fria.

“Os EUA assumiram que poderiam fazer o que quisessem, mas a realidade é diferente”, afirmou. Ele também classificou Trump como “quase uma caricatura, um desenho animado”.

Sobre a guerra tarifária, Sachs disse que Trump está blefando. “Trump está jogando pôquer. Não muito bem, na minha visão, mas ele está jogando pôquer e está blefando porque não tem as cartas”, declarou.

O professor afirmou ainda que as tarifas impostas pelo governo americano são ilegais e devem ser vistas como táticas de curto prazo. Segundo ele, a América Latina não precisa aceitar passivamente esse tipo de pressão.

“Esta região deveria dizer: ‘Com licença, senhor presidente, mas o senhor não pode fazer isso’”, afirmou.

Sachs também avaliou que o Brasil depende hoje muito mais do mercado asiático do que do americano. Para ele, a China será mais importante para o futuro econômico brasileiro do que os Estados Unidos.

Ao tratar de Cuba e Venezuela, o economista alertou para o risco de aumento da intimidação americana nas Américas, à medida que Washington percebe limites em outras regiões do mundo.

“Está claro que, à medida que os EUA aprendem que têm limites na vizinhança da Rússia, no Oriente Médio e no Leste Asiático, podem se tornar ainda mais militaristas e mais intimidadores nas Américas”, disse.

Sobre a Venezuela, Sachs afirmou que os Estados Unidos não podem governar o país no longo prazo. “Se a Venezuela se permitir ser governada pelos Estados Unidos, vai se tornar como uma colônia”, declarou.

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