Anvisa autoriza mais de 194 mil importações de cannabis medicinal em 2025
Número recorde cresceu 16,3% em um ano, com destaque para óleos e extratos ricos em CBD
A importação de cannabis medicinal por brasileiros atingiu um recorde histórico em 2025, com forte crescimento no número de autorizações concedidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). O avanço reflete a ampliação do uso terapêutico no país e a consolidação da procura por produtos à base de cannabis, especialmente em tratamentos voltados a doenças crônicas.
Segundo a CNN Brasil, com base em dados da Anvisa, o Brasil ultrapassou a marca de 194 mil permissões de importação ao longo de 2025. O total representa um crescimento de 16,3% em comparação com 2024 e configura o maior volume já registrado desde o início da série histórica.
Anvisa registra maior volume da série histórica
Os números divulgados apontam que mais de 194 mil autorizações foram emitidas para aquisição de produtos no exterior. O desempenho consolida um salto expressivo em relação ao cenário observado há uma década.
Em 2015, quando a Anvisa passou a permitir a importação de cannabis medicinal por meio de resolução específica, foram contabilizadas apenas 850 autorizações. O volume aumentou progressivamente até atingir 167.337 liberações em 2024, chegando ao novo recorde em 2025.
Outubro lidera liberações e impulsiona recorde
O mês de outubro foi o período de maior movimentação no ano. De acordo com os registros, 19.710 autorizações foram concedidas somente naquele mês, o maior volume mensal observado na série.
O crescimento indica uma demanda contínua ao longo do ano e reforça a tendência de expansão do mercado de cannabis medicinal, sobretudo entre pacientes que dependem de importações para manter tratamentos regulares.
Produtos mais importados incluem óleos e extratos de CBD
Entre os itens mais adquiridos por brasileiros estão óleos, extratos ricos em CBD, formulações full spectrum e cápsulas. O perfil das compras sugere que os pacientes têm buscado alternativas variadas de administração, o que contribuiu para a retomada do crescimento mesmo após mudanças regulatórias ocorridas nos últimos anos.
Setor aponta amadurecimento do uso clínico no Brasil
Allan Paiotti, CEO da Cannect, avaliou que os dados indicam uma transformação estrutural no acesso à cannabis medicinal no Brasil. Para ele, a evolução das autorizações reflete maior confiança na utilização terapêutica do produto.
“Os dados mostram que a cannabis deixou de ser uma alternativa marginal e passou a ocupar um espaço mais consolidado na prática clínica. O crescimento das autorizações indica um amadurecimento do mercado e uma maior confiança por parte de médicos e pacientes”, afirmou.
Agronegócio vê potencial produtivo, mas regulamentação trava avanço
Apesar do crescimento da demanda, representantes do setor ainda avaliam que o desenvolvimento do cultivo de cannabis no Brasil ocorre em ritmo inicial. O agronegócio acompanha o tema com cautela, e investimentos em produção tendem a ganhar força apenas com uma regulamentação mais avançada.
Paiotti destacou que o Brasil reúne condições naturais favoráveis para se tornar um grande produtor, mas ressaltou que a questão legal ainda é determinante para garantir controle e segurança no uso medicinal.
“O Brasil tem uma vocação agrícola com condições de solo, clima e disponibilidade de água. Uma série de elementos que colocam o Brasil como potencial líder da produção da cannabis. Do ponto de vista legal, o uso medicinal deve ter um controle de consumo para garantir um cultivo para fins lícitos e regulamentados”, explicou.
O CEO também afirmou que a produção nacional deve levar tempo para se tornar economicamente atrativa e estruturar uma cadeia produtiva sólida. “Podemos ter uma capacidade produtiva para a produção de insumos e estratos que serão vazados para a indústria. Minha preocupação é que no começo a produção tenha uma aplicação prática com retornos sobre os investimentos no cultivo. Isso vai levar algum tempo, acho que não vai mudar em até três ou cinco anos”, disse à CNN Brasil.
Uso terapêutico cresce e amplia prescrições médicas
O aumento das importações é atribuído, principalmente, ao crescimento da comunidade de médicos e dentistas especializados no uso terapêutico da cannabis. O produto vem sendo utilizado em diferentes tratamentos, especialmente relacionados a doenças crônicas.
O levantamento foi realizado pela Cannect por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). A plataforma digital atua conectando pacientes a especialistas em tratamentos à base de cannabis medicinal.
Importação segue como principal forma de acesso no país
Atualmente, a importação de cannabis medicinal permanece como o principal mecanismo de acesso para pacientes brasileiros. O processo exige prescrição de um profissional de saúde habilitado e autorização individual da Anvisa.
A regulamentação ocorre por meio da Resolução de Diretoria Colegiada RDC 660, que estabelece regras específicas para importação de produtos destinados ao uso pessoal.
“A RDC 660/2022 estabelece as regras para a importação de cannabis de uso pessoal, com autorização individual do paciente. Esse modelo é diferente do previsto na RDC 327/2019, que regulamenta os produtos de cannabis fabricados ou comercializados no Brasil e disponíveis para venda em farmácias e drogarias”, afirmou Paiotti.
Em setembro de 2023, a proibição da Anvisa para a importação de flores de cannabis provocou uma retração temporária no número de autorizações, já que esses produtos representavam uma parcela relevante do consumo no país. No entanto, o efeito foi passageiro e a demanda voltou a crescer após a ampliação de alternativas como óleos, cápsulas e comestíveis.
Entre as prescrições mais comuns no país, estão tratamentos voltados a dor crônica, ansiedade, distúrbios do sono, transtorno do espectro autista (TEA), Parkinson e epilepsia, condições que têm impulsionado o aumento contínuo da procura por produtos importados.


