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Queda nos títulos da Raízen se intensifica com temor judicial

Mercado reage a decisão da Cosan e amplia desconfiança sobre dívida da companhia

Raízen (Foto: Reuters)

247 - Os títulos da Raízen negociados no mercado internacional registraram nova rodada de forte pressão nesta quarta-feira (4), em meio ao aumento da percepção de risco entre investidores. O movimento reflete temores de que a companhia possa enfrentar dificuldades financeiras mais profundas, incluindo a possibilidade de um pedido de recuperação judicial.

A desconfiança ganhou força após a Cosan, uma das controladoras da Raízen, anunciar na terça-feira (3) o resgate antecipado de títulos com vencimento em 2030 e 2031. A operação elimina a cláusula de cross-default com a Raízen, mecanismo que vinculava eventuais inadimplências entre as empresas e que, até então, funcionava como um elemento de proteção adicional para os credores.

As perdas nos bonds da Raízen já haviam sido expressivas na sessão anterior e se aprofundaram ao longo desta quarta-feira. Os títulos em dólar com vencimento em 2034 chegaram a recuar 18 centavos, sendo negociados em torno de 60 centavos de dólar. A deterioração também se refletiu no rendimento exigido pelos investidores: a taxa do papel, que iniciou o dia em 10,55%, avançou para cerca de 15,20%, evidenciando o nível elevado de estresse no mercado de crédito.

Uma gestora de crédito, sob condição de anonimato, avalia que a iniciativa da Cosan foi interpretada como um sinal de distanciamento estratégico. “O mercado entendeu a ação da Cosan como o primeiro sinal de desvinculação entre as partes, de tal modo a já preparar o terreno para uma eventual renegociação de dívidas da Raízen com os credores”, afirmou.

A leitura é compartilhada por Florencia Palacios, analista de crédito do J.P. Morgan, que chamou atenção para a piora acentuada observada nos papéis da companhia. Segundo ela, a decisão da Cosan estava alinhada a indicações anteriores de desalavancagem. “Esse movimento [da Cosan] não deveria causar surpresa, já que já havia indicação anterior de planos de redução de endividamento, começando pelas dívidas mais caras, após a injeção de capital de R$ 10 bilhões, com o objetivo de longo prazo de zerar a dívida nesse nível”, disse.

Ainda assim, Palacios reconhece que a reação do mercado foi negativa ao interpretar a medida como um possível enfraquecimento do compromisso da Cosan com a Raízen. Para a analista, isso acabou “levantando preocupações de que isso possa abrir espaço para uma eventual recuperação judicial”.

Na avaliação da especialista, porém, esse cenário não está no radar imediato da companhia. Ela destaca que a Raízen “é sustentada por uma posição de liquidez confortável, pelo plano de venda de ativos em andamento; e pela expectativa de melhora do fluxo de caixa livre”.

Diante desse contexto, Palacios considera que a resposta dos investidores foi excessiva. Para ela, o mercado “reagiu de forma exagerada”, e a abertura dos spreads tende a se ajustar para níveis mais compatíveis com emissores classificados com rating “BB”.

Com base nessa leitura, o J.P. Morgan elevou nesta quarta-feira (4) a recomendação para os bonds da Raízen de “neutra” para “overweight”, ou exposição acima da média do mercado. A casa, no entanto, ressaltou o caráter tático da decisão. “Apenas uma injeção de capital resolverá a questão da estrutura de capital”, afirmou a analista, ao enfatizar que “a estrutura atual não comporta um rating de grau de investimento”.

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