BNDES amplia crédito para exportadores afetados por tarifas dos EUA
BNDES amplia crédito para exportadores afetados por tarifas dos EUA e reforça linhas para empresas brasileiras expostas ao tarifaço de Trump
247 - O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ampliou seus instrumentos de apoio a exportadores brasileiros, com foco nas empresas que vendem para os Estados Unidos e foram atingidas pelas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump. A estratégia combina financiamento, garantias e novos programas de crédito, relata o jornal O Globo.
Segundo o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do BNDES, José Luis Gordon, os Estados Unidos mantêm papel relevante no histórico de operações apoiadas pelo banco. “Em torno de 20% do que foi apoiado à exportação foi para os EUA”, afirmou.
A ofensiva do BNDES envolve a ampliação de linhas tradicionais, como o crédito pré-embarque e pós-embarque, além do fortalecimento de mecanismos de garantia. O banco também prepara novas frentes de financiamento voltadas a setores mais afetados pelas tarifas americanas.
Plano Brasil Soberano terá nova etapa
Ainda neste mês, o BNDES deve abrir as primeiras linhas de crédito da segunda etapa do Plano Brasil Soberano. Criado no ano passado, o programa tem como objetivo dar suporte a empresas prejudicadas pelo aumento de tarifas aplicado pelos Estados Unidos.
Em 2025, foram aprovados R$ 16 bilhões em financiamentos no âmbito do programa. Os setores mais atendidos incluíram alimentos, agroindústria, móveis e bens de capital. A nova fase prevê mais R$ 15 bilhões em recursos. “O foco agora são as empresas ainda afetadas pela seção 232 [da lei comercial] dos Estados Unidos”, disse Gordon.
A seção 232 permite ao governo americano impor tarifas a determinados produtos sob justificativas ligadas à segurança nacional. A norma atinge itens como aço, cobre e alumínio, com tarifas que podem chegar a 50%.
Crédito também poderá apoiar capital de giro e inovação
Para acessar as linhas do Plano Brasil Soberano, as empresas precisam comprovar que ao menos 5% de seu faturamento esteve vinculado a exportações para os Estados Unidos entre agosto de 2024 e julho de 2025.
O programa também alcança companhias que tiveram vendas ao Oriente Médio impactadas pela Guerra do Irã, além de setores considerados estratégicos.
As taxas de juros variam de 0,94% a 1,41% ao mês. Os recursos podem ser usados não apenas na produção destinada à exportação, mas também como capital de giro, na compra de máquinas e em projetos de expansão ou inovação. Os prazos chegam a 20 anos, com até quatro anos de carência.
O financiamento do programa virá, em grande parte, do superávit financeiro do Fundo de Garantia à Exportação (FGE), de fontes supervisionadas por unidades do Ministério da Fazenda e de verbas orçamentárias.
Linhas Exim seguem como principais instrumentos
Além do Brasil Soberano, as principais ferramentas do BNDES para empresas que exportam aos Estados Unidos são as linhas Exim Pré-Embarque e Exim Pós-Embarque.
A modalidade Exim Pré-Embarque antecipa recursos para a produção que será exportada, geralmente com prazos e taxas mais competitivos do que os oferecidos no crédito corporativo tradicional. A empresa precisa comprovar, em até cinco anos, que a exportação foi realizada.
Já a Exim Pós-Embarque permite que o BNDES pague à vista ao exportador brasileiro. A partir daí, o importador estrangeiro passa a dever ao banco, normalmente com taxa de referência em dólar mais spread fixo do BNDES de 0,9% ao ano.
“Todo o recurso do BNDES sempre fica no Brasil em reais para a empresa brasileira, gerando emprego e renda”, afirmou Gordon. “O BNDES nunca financia nenhum país [estrangeiro]".
Segundo o diretor, o banco já destinou cerca de R$ 50 bilhões a essas duas linhas durante o atual governo.
Embraer e WEG receberam apoio do banco
Um dos exemplos recentes de financiamento para exportações aos Estados Unidos foi a operação de R$ 1,7 bilhão destinada à venda de 13 aeronaves E-175 da Embraer para a companhia americana SkyWest Airlines. O crédito foi aprovado no fim do ano passado por meio da linha Exim Pós-Embarque.
Nesse modelo, os recursos serviram para pagar a compra à Embraer, enquanto a SkyWest deverá reembolsar o BNDES com juros. Desde 2023, a Embraer já obteve R$ 27,1 bilhões do banco, incluindo recursos para o financiamento direto da exportação de 169 aeronaves.
Outra companhia com forte presença no mercado americano, a WEG Exportadora S.A. teve aprovado, no ano passado, um crédito de US$ 144 milhões pela linha Exim Pré-Embarque. O valor pode ser contratado em parcelas até meados deste ano, e a produção financiada tem prazo de embarque de 360 dias a partir da liberação de cada parcela.
Novo sistema amplia instrumentos para exportação
Em março, o BNDES ganhou novos instrumentos com a aprovação do Projeto de Lei 6.139/2023, que cria o Sistema Brasileiro de Crédito Oficial à Exportação. A medida amplia o prazo de cobertura do risco comercial para micro, pequenas e médias empresas em operações de exportação, de 180 para até 750 dias.
A nova legislação também prevê a criação de um portal digital para envio de documentos e acompanhamento dos pedidos de crédito. Além disso, o BNDES deverá apresentar anualmente à Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal seu portfólio de projetos.
O Fundo Garantidor de Operações de Comércio Exterior (FGCE) passa a ter papel central no compartilhamento de risco com o setor privado, permitindo maior participação de bancos e seguradoras privadas. Em última instância, a União assumirá a cobertura das garantias emitidas, com limite máximo de exposição a ser definido pelo Senado.
EUA seguem como segundo maior parceiro comercial
Apesar das tarifas aplicadas pelo governo Trump, os Estados Unidos continuam sendo o segundo principal parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China.
No primeiro trimestre deste ano, porém, a participação americana nas exportações brasileiras caiu para o menor patamar da série histórica: 9,5%, equivalente a US$ 7,8 bilhões. O resultado representa queda de 18,7% em relação ao mesmo período de 2024, segundo o Monitor do Comércio Brasil-EUA, divulgado pela Câmara Americana de Comércio (Amcham).



