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Entenda por que Starmer fracassou no Reino Unido

Primeiro-ministro trabalhista renunciou após dois anos de governo marcado por falta de rumo, promessas frustradas, recuos políticos e avanço da direita

Primeiro-ministro britânico, Keir Starmer - 28/07/2025 (Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein)
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247 - A renúncia de Keir Starmer ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido, nesta segunda-feira (22), expôs o esgotamento de um projeto político que chegou ao poder prometendo pragmatismo, estabilidade e competência administrativa, mas terminou associado à falta de direção, à perda de apoio popular e à incapacidade de conter o avanço da direita populista.

Segundo reportagem da Reuters, assinada por Elizabeth Piper, com informações adicionais de Andrew MacAskill e Alistair Smout, Starmer caiu justamente pelo atributo que antes havia sido apresentado como sua principal força: a ausência de uma ideologia rígida. O que parecia moderação e pragmatismo durante a campanha passou a ser visto, no governo, como falta de convicção e de projeto nacional.

Depois de conduzir o Partido Trabalhista à maior maioria parlamentar da história moderna britânica em 2024, Starmer não conseguiu transformar a vitória eleitoral em um mandato político sólido. Seu governo, segundo mais de 20 integrantes e observadores internos do partido ouvidos pela agência, falhou em apresentar uma ideia central capaz de orientar decisões, mobilizar a sociedade e dar sentido às medidas adotadas.

Um parlamentar trabalhista resumiu o problema ao afirmar que faltou ao governo uma “luz guia”. Sem esse eixo, Starmer passou a ser pressionado por diferentes facções do Partido Trabalhista, por grupos de interesse e por uma opinião pública cada vez mais desconfiada. A imagem de gestor eficiente, construída antes da chegada ao poder, deu lugar à percepção de um líder indeciso, distante e incapaz de comunicar um rumo para o país.

A vitória era grande, mas frágil

O primeiro elemento para entender o fracasso de Starmer está na própria natureza de sua vitória. Em 2024, os trabalhistas conquistaram ampla maioria no Parlamento, mas analistas apontaram desde o início que o resultado escondia fragilidades importantes. O partido venceu em grande medida porque os conservadores estavam profundamente desgastados depois de 14 anos no poder, disputas internas, batalhas em torno do Brexit e cinco primeiros-ministros em apenas oito anos.

O cientista político John Curtice, um dos mais conhecidos analistas eleitorais britânicos, sintetizou essa avaliação ao dizer: “No geral, isso parece mais uma eleição que os conservadores perderam do que uma eleição que o Labour venceu.”

A avaliação ajuda a explicar por que Starmer não conseguiu transformar sua maioria parlamentar em entusiasmo social. O Labour chegou ao governo com muitos assentos, mas com uma base eleitoral menos sólida do que os números sugeriam. Parte expressiva do resultado dependia de voto tático e da rejeição aos conservadores, não necessariamente de adesão a um projeto trabalhista claro.

Essa fragilidade exigia um governo capaz de construir rapidamente uma narrativa política. Starmer, porém, optou por uma gestão cautelosa, centrada no que julgava possível realizar, e não em uma visão ambiciosa de futuro. O resultado foi um governo que prometia mudar o Reino Unido, mas tinha dificuldade de explicar como e para quê.

A falta de uma grande ideia

O principal problema político de Starmer foi a ausência de uma proposta mobilizadora. Sua trajetória até o poder havia sido marcada pela tentativa de modernizar o Partido Trabalhista, superar divisões internas e afastar o partido da imagem deixada pela liderança de Jeremy Corbyn. Como ex-diretor do Ministério Público britânico, Starmer abordou a política de forma estratégica e administrativa.

Essa estratégia funcionou na oposição. Starmer combateu acusações de antissemitismo no partido, enfrentou o faccionalismo, reorganizou as finanças trabalhistas, reuniu nomes relevantes em sua equipe e apresentou o Labour como alternativa confiável aos conservadores. Durante a campanha, seu porta-voz afirmava: “Tudo o que oferecemos será construído sobre uma base de estabilidade econômica e um plano de crescimento.”

No governo, porém, essa fórmula se mostrou insuficiente. O país enfrentava problemas profundos, como baixo crescimento econômico, crise habitacional, pressão migratória e dificuldades no sistema público de saúde. A resposta de Starmer foi frequentemente percebida como técnica, lenta e sem horizonte político.

Um ex-assessor afirmou que o primeiro-ministro não ofereceu “um destino” a partir do qual os eleitores pudessem compreender suas decisões. Sem essa direção, os recuos e as contradições passaram a dominar a percepção pública sobre sua gestão.

Promessas frustradas e recuos políticos

A frustração cresceu porque o governo não conseguiu entregar resultados rápidos nas áreas que havia priorizado. Starmer apostou no crescimento econômico, mas o crescimento esperado não veio. Prometeu reduzir a chegada de migrantes em situação irregular, mas o problema persistiu. Também tentou apresentar avanços no sistema de saúde, mas os desafios continuaram a se acumular.

O governo tentou valorizar algumas conquistas, como melhorias nas condições de trabalho, redução de listas de espera no serviço de saúde e um ambiente econômico em que os juros poderiam ser cortados. Ainda assim, essas medidas não foram suficientes para reconstruir a confiança pública.

A sucessão de mudanças de rota desgastou ainda mais a imagem do primeiro-ministro. Para muitos eleitores, Starmer parecia governar por reação, não por convicção. Para setores do próprio Labour, a cautela excessiva começou a ser vista como paralisia.

Um integrante da equipe trabalhista na oposição relatou que o partido não havia se preparado adequadamente para governar. Segundo essa pessoa, quando tentou formular políticas antes da eleição, foi orientada a “parar” para não “assustar as pessoas antes da eleição geral”. A lembrança atribuída a esse integrante foi direta: “Não temos um plano para o que vamos fazer quando entrarmos, se entrarmos, porque isso pode dar azar.”

Escândalos, desgaste interno e perda de comando

A crise política também foi alimentada por erros de julgamento e disputas internas. A nomeação do veterano trabalhista Peter Mandelson, apesar de seus conhecidos vínculos com Jeffrey Epstein, condenado nos Estados Unidos por crimes sexuais e já morto, tornou-se um dos pontos mais controversos da gestão.

A defesa de Starmer, segundo a qual ele não teria sido informado sobre a extensão das relações de Mandelson com Epstein, agravou a percepção de descontrole. Para críticos, o episódio mostrou um primeiro-ministro mal assessorado ou pouco atento ao funcionamento de sua própria administração.

Um ex-assessor definiu a decisão de forma simples: “Foi uma má nomeação.”

O caso provocou perdas relevantes no entorno de Starmer, incluindo a saída de aliados próximos. A relação com o serviço público britânico também se deteriorou após a demissão de uma autoridade de alto escalão do Ministério das Relações Exteriores. Nos bastidores, assessores passaram a culpar a hostilidade da mídia de direita, mas a sequência de “reinícios” do governo não conseguiu alterar a percepção de desgaste.

A falta de unidade no topo do governo foi decisiva. Mesmo aliados leais no gabinete passaram a defender reservadamente uma transição ordenada, em vez de uma disputa traumática pela liderança trabalhista.

O avanço de Farage e o medo da direita populista

O fator que acelerou a queda de Starmer foi o avanço do Reform UK, partido populista liderado pelo veterano defensor do Brexit Nigel Farage. As eleições locais na Inglaterra e as disputas parlamentares na Escócia e no País de Gales mostraram que o sistema tradicional de dois partidos estava se fragmentando.

Enquanto o número de filiados ao Partido Trabalhista caía, o Reform crescia e superava 270 mil membros. Para muitos trabalhistas, a permanência de Starmer à frente do partido tornava praticamente impossível enfrentar a próxima eleição nacional, prevista para 2029, com chances reais de vitória.

A deputada Catherine West, que decidiu se manifestar publicamente para estimular uma contestação interna ao primeiro-ministro, resumiu a motivação de parte do partido: “Eu faria qualquer coisa para parar Farage.”

Nesse contexto, Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester, passou a ser visto como alternativa mais competitiva. Após vencer uma eleição parlamentar no noroeste da Inglaterra, Burnham ganhou o rótulo de “matador do Reform”, ou seja, o político com maior capacidade de conter o avanço da direita populista.

A política externa não salvou o governo

Starmer teve desempenho mais reconhecido no cenário internacional do que na política doméstica. Na guerra entre Rússia e Ucrânia, recebeu elogios de líderes europeus por ajudar a articular a chamada “coalizão dos dispostos”, formada por países prontos a atuar em caso de acordo de paz. Ao lado do presidente francês Emmanuel Macron, também participou de conversas sobre a reabertura do Estreito de Ormuz.

O primeiro-ministro britânico ainda tentou construir uma boa relação com Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, recorrendo a gestos de deferência, como o convite para uma segunda visita de Estado ao Reino Unido e elogios a seus esforços relacionados à Ucrânia e a outros conflitos.

A relação, no entanto, deteriorou-se. Trump passou a ridicularizar Starmer depois que o britânico se recusou a envolver o Reino Unido na guerra contra o Irã. No domingo, o presidente dos Estados Unidos publicou na Truth Social: “Keir Starmer vai renunciar como primeiro-ministro do Reino Unido. Ele fracassou feio em dois temas muito importantes — IMIGRAÇÃO E ENERGIA (ABRAM O PETRÓLEO DO MAR DO NORTE!). Desejo-lhe o melhor!”

A provocação de Trump explicitou uma das fragilidades centrais do governo Starmer: mesmo quando conseguia alguma projeção internacional, o primeiro-ministro não convertia esse capital em apoio doméstico.

A renúncia e o fim de um projeto

Nos últimos dias, Starmer ainda tentou resistir. Depois dos maus resultados nas eleições locais, almoçou longamente com sua esposa, Victoria, e saiu decidido a continuar. No entanto, um fim de semana na residência oficial de campo de Chequers parece ter mudado sua avaliação. Ao lado da esposa, concluiu que a renúncia era inevitável.

Na porta de Downing Street, em um discurso emocionado, Starmer afirmou que faria tudo para garantir uma transferência ordenada de poder ao próximo líder trabalhista. A voz embargou quando agradeceu o apoio da família.

“A pergunta que meu partido faz agora é se sou a pessoa mais bem colocada para nos liderar na próxima eleição geral”, declarou. “Ouvi a resposta do meu partido parlamentar a essa pergunta e aceito essa resposta com boa vontade.”

A frase marcou o encerramento de uma experiência política que começou com promessa de estabilidade e terminou como símbolo de indefinição. Starmer não caiu por uma única crise, mas pela combinação de fatores que se reforçaram mutuamente: vitória eleitoral frágil, ausência de projeto, lentidão na entrega de resultados, recuos políticos, erros de julgamento, perda de apoio interno e incapacidade de enfrentar a ascensão de Farage.

Seu legado mais duradouro pode ser justamente o enfraquecimento do sistema bipartidário britânico. Ao tentar governar sem grandes rupturas, Starmer acabou presidindo um período de ruptura profunda na política do Reino Unido.

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