HOME > Mundo

Celso Amorim não vê conflito do Irã como uma guerra de curta duração

"No meio das negociações começou a guerra. Então isso coloca em dúvida qualquer disposição positiva. Não sou otimista em relação a isso", disse o diplomata

Celso Amorim não vê conflito do Irã como uma guerra de curta duração (Foto: ABR)

247 - Em meio a informações desencontradas de Donald Trump, de que estaria conversando com o Irã, e enviado àquele país um conjunto de 15 pontos a serem levados em conta para um cessar fogo, o 247 pediu a opinião abalizada do assessor especial da Presidência da República, Celso Amorim, a fim de trazer o seu prognóstico sobre o conflito, que em breve completa um mês, sem que nenhum dos lados aponte qualquer expectativa para o fim da guerra. 

O Irã, com visível superioridade nos ataques, não cede. Os EUA, que tenta passar aos olhos do mundo uma vitória que não obteve, segue sob o voluntarismo de Israel, respondendo aos mísseis dos persas como pode, enquanto o petróleo empaca no estreito de Ormuz, usado como a principal arma do Irã. Sem liberar a passagem de 20% do petróleo escoado para o mundo, por aquele canal, mantém poder sobre o setor e força a alta de preços, que vai acabar na ponta, elevando os preços nos demais países até do pãozinho diário. Para Celso, é difícil prever quando termina o impasse. Uma coisa, porém, lhe parece certa: é um conflito que nos assusta, pois pode ser o limiar de uma terceira guerra mundial.

Amorim não arrisca qualquer palpite sobre prazo e observa: “olhando hoje o panorama, não me parece próxima uma decisão. Os iranianos têm comentado que os americanos estão negociando com eles próprios. Por outro lado, a gente ouve que os EUA dizem que as propostas foram enviadas através do Paquistão, mas eu acho muito difícil terminar logo”. 

O assessor considera “muito complexo” arriscar qualquer palpite sobre o fim da guerra “por tudo que foi envolvido. Obviamente que no Irã houve uma enorme destruição e há um problema que é um fundamental, talvez, que é a questão da confiança. Essa guerra foi iniciada num momento em que havia negociações. No meio das negociações começou a guerra. Então isso coloca em dúvida qualquer disposição positiva. Não sou otimista em relação a isso não”, frisa.

Diante das propostas que Trump diz ter enviado ao governo iraniano, com os tais 15 pontos, dentre os quais exige a renúncia ao enriquecimento do urânio para qualquer fim e a abertura e eventual controle, pelos EUA, do Estreito de Ormuz, Amorim não crê em desfecho favorável às negociações. “A abertura do Estreito de Ormuz é uma coisa de interesse mundial. Evidente que numa situação de guerra é muito difícil prever, mas eu acho que seria positivo para a economia mundial que fosse desobstruído independentemente do interesse só dos dois países. Eu vi uns dois ou três pontos enviados, que são de muito difícil aceitação, pelo Irã. E existe um fator que deve ser levado em conta: é que as pessoas que têm mais condições de negociar precisam ter uma certa respeitabilidade interna para que se perceba que uma eventual cessão (de algum ponto) se aceita, seja necessária. Na medida em que os EUA têm tirado as principais lideranças, essa credibilidade nas lideranças também é menor”, observa. 

“Isso, ao contrário de facilitar, dificulta uma negociação. Eu não creio que o Irã vá desistir do enriquecimento a 3% ou 3,5%, que é o índice para a produção de energia elétrica. Isso eu não creio. Acho impossível. Como vocês vão recordar, o Brasil chefiado pelo presidente Lula – eu estive envolvido nisso -, tentou negociar. Nós obtivemos do Irã o compromisso de deixar fora do país uma quantidade grande de urânio enriquecido, naquela época o Irã tinha cerca de dois mil quilos de urânio levemente enriquecido, e ele colocaria fora, num terceiro país, 1200, se não me engano, o que tornaria impossível fazer a arma nuclear. Mas por alguma razão na época, os Estados Unidos, a secretária de Estado Hilary Clinton, recusou”, lembra.

Para o assessor, a medida em si (a transferência do urânio enriquecido a 3%, para um terceiro país) já estaria fora do tratado da não proliferação de armas. “Está escrito que os países têm direito ao enriquecimento para fins pacíficos. A questão seria não essa, mas o urânio enriquecido a 60%. Aí já está próximo do urânio que pode ser transformado em armamento”, diz.

O assessor rebate com veemência quando se aponta que a guerra é, na verdade, de Israel, e que os EUA estão a reboque. “Olha acho que essa separação, dizer que é uma guerra dos EUA ou de Israel, é um pouco arbitrária”, contesta. 

Em sua opinião, “talvez Israel tenha ditado o ritmo inicial da guerra, forçando os Estados Unidos a entrarem, mas obviamente eles não fariam isso se não tivessem confiança de que receberiam o apoio dos EUA. O conflito entre Estados Unidos e Irã também é uma coisa antiga, então eu acho que Israel tem grande interesse”. 

Para enfatizar a sua posição, Amorim lembra que “a ideia de que Israel faria uma expansão, que já está chegando também no Líbano, é uma ideia que o país persegue há muito tempo. E há pouco tempo o líder de oposição liberal de Israel defendeu, de modo que os interesses podem não serem os mesmos diretamente, mas o que é o interesse dos EUA? O interesse do povo americano? Acho difícil separar. Isso já é parte da política que os Estados Unidos já estavam seguindo há oito meses, quando bombardearam. Agora, indiscutivelmente Israel tem uma grande influência na política americana e nesse caso, me parece é que eles é que iniciaram”.

Sobre os efeitos que já transbordam para o Brasil, forçando uma mudança na política de ICMS e do preço do diesel, Amorim destaca que esse é o problema mais imediato. Porém, mais grave que isso, aponta, “É o clima de confrontação, de quem não é meu amigo é meu inimigo... Enfim, a repercussão são as piores possíveis e eu não acho que esta seja uma guerra de curta duração”, conclui.

 

Artigos Relacionados