Postos e distribuidoras aproveitam guerra no Irã para ampliar lucro sobre o diesel
Margens crescem até 71% mesmo após medidas do governo para conter preços dos combustíveis
247 - O aumento das margens de lucro de postos e distribuidoras de combustíveis no Brasil ganhou força nas últimas semanas, mesmo após o governo federal anunciar medidas para conter a alta dos preços, como a isenção de impostos sobre o diesel e incentivos ao setor. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps) revela que, desde o início da guerra no Irã, em 28 de fevereiro, os ganhos dessas empresas cresceram significativamente em produtos como diesel e gasolina, segundo dados do Ministério de Minas e Energia (MME), informa o G1.
De acordo com o estudo, o diesel S-500, utilizado principalmente por veículos mais antigos, registrou aumento de 71,6% nas margens de lucro. Já o diesel S-10, voltado a veículos mais novos, teve alta de 45%, enquanto a gasolina comum apresentou elevação de 32,2% no mesmo período.
Quando comparado a 2021, o avanço é ainda mais expressivo. No diesel S-500, a margem acumulada cresceu 238,8%, enquanto o diesel S-10 avançou 111,8%. A gasolina comum, por sua vez, teve aumento de 90,7% nas margens de lucro.
O economista do Ibeps, Eric Gil Dantas, aponta dois fatores principais para esse movimento. Segundo ele, o primeiro está relacionado ao aumento expressivo dos preços entre 2021 e 2022, período em que os combustíveis atingiram níveis históricos no país. “O primeiro foi a alta de preços entre 2021 e 2022, quando os derivados atingiram os maiores valores reais da história do país”, afirma.
Dantas explica que, naquela fase, a Petrobras adotava a política de Preço de Paridade de Importação (PPI), que vinculava os valores internos ao mercado internacional. Essa estratégia gerou forte volatilidade nos preços. “Essa tendência de alta, junto com a volatilidade dos preços e a perda de referência para os consumidores, permitiu que as margens crescessem sem serem percebidas. Mas isso não acabou com o período de maior volatilidade: as margens continuaram subindo ao longo de 2023, mesmo com poucos reajustes”, acrescenta.
O segundo fator destacado pelo economista é a privatização de empresas estratégicas do setor. “Com isso, perdeu-se a possibilidade de manter margens mais próximas do aceitável. A BR e a Liquigás tinham grande poder para determinar essas margens e, após serem privatizadas, isso se perdeu”, diz.
Procuradas para comentar o aumento das margens, entidades do setor evitaram se posicionar diretamente sobre a formação de preços. A Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes (Fecombustíveis) não respondeu até a publicação da reportagem. Já a Associação das Distribuidoras de Combustíveis (Brasilcom) afirmou que “não se manifesta sobre a formação de preços, pois essa é uma questão estratégica de cada associada, sem interferência da entidade.”
O cenário internacional também exerce forte influência sobre os preços dos combustíveis. Desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã no Oriente Médio, o barril de petróleo ultrapassou US$ 100, alcançando o maior nível desde fevereiro de 2022. A tensão na região afeta diretamente rotas estratégicas de produção e transporte de petróleo e gás, especialmente no Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, por onde circula cerca de 20% do petróleo consumido globalmente.
Com a redução da oferta mundial, os preços sobem e impactam toda a cadeia produtiva. No Brasil, o diesel, essencial para o transporte de cargas, eleva os custos logísticos e influencia diretamente o preço de alimentos, produtos industriais e serviços. O agronegócio também é afetado, tanto pelo encarecimento do combustível quanto pelo aumento no custo de fertilizantes, que têm forte participação nas importações brasileiras provenientes do Irã.
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) indicam que adubos e fertilizantes químicos representaram 93,5% das importações brasileiras oriundas do país do Oriente Médio em janeiro deste ano. Além disso, o encarecimento dos combustíveis também impacta a geração de energia elétrica, especialmente em usinas termelétricas, que dependem de derivados do petróleo para operar em períodos de escassez hídrica.


