Em um ano, consignado CLT cresce e leva crédito a mais brasileiros
Levantamento da Serasa mostra aumento de contratos e maior presença de bancos na oferta do consignado privado
247 - O crédito consignado privado completou um ano com queda de 73% no valor médio dos empréstimos contratados por trabalhadores, apesar do aumento na oferta de recursos e no número de instituições financeiras participantes, em um cenário que também registra avanço da inadimplência, relata o jornal O Globo.
Segundo levantamento inédito da Serasa Experian, o valor médio das operações caiu de R$ 8,6 mil para R$ 2,3 mil desde a criação da modalidade. No mesmo período, dados do Banco Central mostram que o volume mensal liberado no consignado privado passou de R$ 1,5 bilhão para quase R$ 11 bilhões após a implementação do chamado crédito do trabalhador.
A modalidade passou a permitir que empregados da iniciativa privada, trabalhadores domésticos, rurais e Microempreendedores Individuais tenham acesso a empréstimos com desconto em folha. A contratação é feita de forma digital, pelo aplicativo da Carteira de Trabalho, sem a necessidade de convênio direto entre a empresa empregadora e a instituição financeira que oferece os recursos.
O limite de comprometimento é de até 35% do salário do trabalhador. De acordo com dados divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a taxa média de juros do crédito consignado CLT está em 3,2% ao mês, patamar inferior ao de outras modalidades, mas ainda equivalente a mais de 110% ao ano.
Oferta de crédito aumenta e contratos ficam menores
O crescimento da modalidade também aparece nos números gerais do Banco Central. O estoque do consignado privado saltou para R$ 110 bilhões em março, enquanto no ano anterior estava em pouco mais de R$ 41 bilhões.
Ao mesmo tempo, a pesquisa da Serasa Experian indica uma mudança no perfil dos contratos. O prazo médio das operações caiu 48% após a criação do programa, enquanto o número médio de instituições financeiras ofertando crédito por empresa avançou de 4 para 21. O movimento sugere aumento da concorrência e maior pulverização das concessões entre os bancos.
Com essa expansão, o número de novos contratos passou de cerca de 11 mil para mais de 25 mil no período analisado pela Serasa Experian.
“O primeiro ano do programa mostrou que existia uma demanda reprimida entre trabalhadores CLT, ao mesmo tempo em que exigiu das instituições financeiras uma adaptação para ofertar crédito em um ambiente mais amplo e competitivo”, afirmou Délber Lage, CEO da SalaryFits, empresa da Serasa Experian voltada à gestão de benefícios com desconto em folha.
Inadimplência sobe e acende alerta sobre endividamento
Apesar do aumento no acesso ao crédito, os dados também apontam preocupação com o comprometimento da renda. Segundo a Serasa, 78% dos trabalhadores que contrataram o novo consignado têm mais de 81% da renda comprometida com dívidas de empréstimos e outras obrigações financeiras.
A inadimplência na modalidade subiu de 4,9% para 6,6% entre novembro de 2025 e março deste ano, de acordo com o Banco Central. “À medida que o consignado passa a fazer parte da rotina financeira de mais trabalhadores, cresce também a importância de planejamento e educação financeira para garantir decisões mais conscientes na contratação do crédito”, disse Délber Lage.
O avanço da inadimplência ocorre em um contexto mais amplo de endividamento das famílias brasileiras. Em março, o país registrou recorde de 82,8 milhões de inadimplentes, o equivalente a cerca de 49% da população adulta. No mesmo mês, o número de brasileiros negativados ultrapassou 81 milhões, com alta de quase 38% em dez anos.
Entre os principais fatores de endividamento aparecem o cartão de crédito e o atraso no pagamento de contas básicas, como água, luz, gás e telefone. Segundo dados da Serasa, essas despesas figuram entre os principais motivos de inadimplência no país.
Outro dado do Mapa da Inadimplência da Serasa mostra que cerca de 42% dos endividados permanecem nessa condição negativa há muitos anos.
Crédito alcança trabalhadores com menor score
O estudo também indica que o novo consignado privado teve maior adesão entre trabalhadores com menor histórico de acesso ao crédito. De acordo com a análise da Serasa, 86% dos empréstimos foram contratados por pessoas enquadradas nas faixas mais baixas do score de crédito. Apenas 21% dos tomadores tinham pontuação acima de 600.
A Serasa Experian analisou 191.798 contratos de empréstimo consignado privado vinculados a 88 empresas. O levantamento considerou operações realizadas até abril de 2026, envolvendo 61 instituições financeiras.



