Por unanimidade, STF condena irmãos Brazão como mandantes do assassinato de Marielle
Decisão unânime da Primeira Turma reconhece motivação política e atuação de milícia no crime contra a vereadora no Rio
247 - A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu, por unanimidade, condenar os irmãos Domingos Inácio Brazão e João Francisco Inácio Brazão como mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A decisão foi tomada após dois dias de julgamento e confirmou a responsabilidade dos acusados com base nas provas reunidas ao longo do processo.
O julgamento foi conduzido pelo relator, ministro Alexandre de Moraes, e contou com os votos favoráveis de Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino, presidente da Turma. A maioria acompanhou parcialmente a denúncia apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR), divergindo apenas quanto à imputação feita ao ex-delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa.
Crimes e condenações
Domingos Inácio Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, e João Francisco Inácio Brazão, deputado cassado, foram condenados por duplo homicídio, tentativa de homicídio e organização criminosa armada. Segundo o STF, ambos exerceram papel central na articulação do crime.
Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior foi condenado por obstrução à Justiça e corrupção passiva. Já o major da Polícia Militar Ronald Paulo Alves Pereira foi responsabilizado por duplo homicídio e tentativa de homicídio. Robson Calixto Fonseca, policial militar e ex-assessor de Domingos Brazão, foi condenado por integrar organização criminosa.
Para os ministros, o conjunto probatório confirma a participação individual de cada réu nos delitos apontados pela PGR. De acordo com a acusação, o assassinato foi motivado pela atuação política de Marielle Franco, que contrariava interesses ligados à regularização de áreas dominadas por milícias na capital fluminense.
Motivação política e violência de gênero
Em seu voto, Alexandre de Moraes destacou que o crime teve motivação política e também envolveu violência de gênero, racismo e discriminação. “Se juntou a questão política com misoginia, com racismo, com discriminação. Marielle era uma mulher preta, pobre, que estava peitando os interesses de milicianos. Qual o recado mais forte que poderia ser feito? E na cabeça misógina de executores, quem iria ligar pra isso?”, afirmou.
O ministro reforçou que o assassinato deve ser compreendido como parte de uma lógica de dominação do crime organizado. “O assassinato de Marielle tem que ser compreendido não só como atentado a parlamentar, mas um crime na ideia de dominação do crime organizado, e também de violência de gênero de interromper mulher que ousou ir de encontro aos interesses de milicianos homens, brancos e ricos. O recado a ser dado era esse”, declarou.
Moraes acrescentou que os acusados não esperavam a repercussão nacional e internacional do caso. “Numa cabeça de 50, 100 anos atrás, vamos executá-la e não terá repercussão. Eles não esperavam tamanha repercussão. E a partir disso uma série de execuções”, disse.
Ao concluir pela responsabilidade dos irmãos Brazão, o relator foi categórico: “Dentro desse contexto, Domingos e João Francisco Brazão foram os mandantes do duplo homicídio e da tentativa de homicídio contra as vítimas”. Segundo ele, “Marielle Franco se tornou um obstáculo, ou na fala do delator, uma pedra no caminho, e foi ‘decretada’ pelos irmãos Brazão”. E completou: “O recado a ser dado era esse. Não esperavam essa grande repercussão”.
Milícia, impunidade e investigação
O ministro Cristiano Zanin acompanhou integralmente o voto do relator e ressaltou o histórico de impunidade envolvendo milícias. “A impunidade histórica de grupos de milícias serviu de combustível para a escalada de violência que culminou para o assassinato de uma parlamentar eleita”, afirmou. Ele acrescentou: “Para as milícias e grupos relacionados matar significa apenas tirar uma pedra do caminho”.
A ministra Cármen Lúcia também acompanhou a maioria e fez uma reflexão sobre o impacto do caso. “Eu me pergunto, senhoras e senhores, quantas ‘Marielles’ o Brasil permitirá que sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de justiça nesta pátria de tantas indignidades”, questionou. “Esse processo me faz mal, pela impotência do direito diante da vida dilacerada”, prosseguiu.
Flávio Dino, presidente da Turma, igualmente seguiu o relator e criticou as falhas nas investigações iniciais. “Uma investigação tão falha, tão negligente, só é possível na presença de elementos de muito poder. Esse crime foi pessimamente investigado, de modo doloso no início”, afirmou.
Delação e provas técnicas
Alexandre de Moraes rebateu a tese das defesas de que a denúncia estaria fundamentada apenas na delação premiada de Ronnie Lessa. Segundo o ministro, os elementos apresentados pelo colaborador foram confirmados por testemunhas e provas técnicas, especialmente aquelas obtidas pela Polícia Federal.
“Os dados da delação foram corroborados por testemunhas e provas técnicas. As provas se mostram coerentes, especialmente em relação à promessa de terreno como pagamento e posição de comando. A investigação da polícia mostra a motivação do crime e a forma de pagamento”, afirmou.
Ele detalhou ainda a conexão entre o crime e os interesses políticos e econômicos dos réus. “A motivação é o afastamento de oposição política, manutenção dos negócios da milícia de loteamento clandestino. Vamos tirar esse obstáculo e parte da área será dada em pagamento. Aqui há a total conexão entre a forma de pagamento e a conexão do crime. A área era de total influência política e miliciana dos irmãos Brazão”, declarou.
Organização criminosa e domínio territorial
O relator sustentou que há provas consistentes da existência de organização criminosa formada pelos irmãos Brazão e Robson Fonseca, voltada à obtenção de lucro e consolidação de redutos eleitorais. “Não só manter a finalidade de enriquecimento ilícito com a lavagem, mas também para afastar a oposição política e garantir afastando a oposição política de Marielle Franco, garantir a perpetuação do seu reduto eleitoral mediante o uso de força atuação violência assassinatos”, afirmou.
Para Moraes, as provas são “harmônicas e convergentes” quanto à vinculação dos réus com atividades de milícia no Rio de Janeiro. “Não existe qualquer dúvida razoável sobre a vinculação dos réus com as milícia no Rio de Janeiro”, declarou. E concluiu: “Eles não tinham só contato com a milícia, eles eram a milícia”


