Grupo de WhatsApp de Vorcaro teria sido usado para orientar fraudes em documentos do BRB, diz PF
Conversas obtidas pela Polícia Federal apontam cobrança por extratos, ajustes de valores e tentativa de dar aparência legal a carteiras fraudadas
247 – A Polícia Federal afirma ter encontrado no celular do banqueiro Daniel Vorcaro um grupo de WhatsApp usado, segundo os investigadores, para orientar subordinados do Banco Master na confecção de documentos fraudulentos ligados à venda de carteiras de crédito ao Banco Regional de Brasília (BRB).
A informação foi revelada pelo jornal Estado de S. Paulo, que teve acesso às conversas do grupo chamado “INFO - BRB”. Segundo a reportagem, o diálogo envolvia Vorcaro, Alberto Félix, então superintendente de tesouraria do Master, e Ângelo Silva, à época diretor financeiro da instituição.
Em uma das mensagens, Vorcaro demonstrou irritação com o valor de uma carteira de crédito vinculada à Tirreno, empresa que os investigadores suspeitam ser de fachada. “Pessoal. Saldo não pode ser 6.400!!! Era 7.200. Valor da recompra”, escreveu o banqueiro, referindo-se a valores de R$ 6,4 bilhões e R$ 7,2 bilhões.
Após ser informado de que a documentação considerava alguns débitos, Vorcaro rebateu: “Não interessa. Não fecha a conta. Vamos ter que colocar remuneração”.
PF vê manipulação de extratos
Para a Polícia Federal, as mensagens indicam manipulação documental para sustentar operações bilionárias entre o Banco Master e o BRB. A investigação apura fraudes em aportes de pelo menos R$ 12,2 bilhões do banco público de Brasília no Master, além de suspeitas de pagamento de propina ao ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Segundo o relatório policial citado pelo Estadão, o extrato apresentado ao Banco Central acabou registrando R$ 6,6 bilhões — um terceiro valor, diferente tanto dos R$ 6,4 bilhões quanto dos R$ 7,2 bilhões mencionados no grupo.
A PF escreveu que o caso revela a “manipulação do valor final do extrato relativo ao pagamento da Tirreno pelo pagamento dos créditos originados e posteriormente cedidos ao BRB”. Os investigadores também afirmaram chamar atenção o fato de o extrato final apresentado ao Banco Central ter sido “fabricado” com valor distinto dos discutidos internamente.
Documentos pendentes e tentativa de regularização
As conversas também mostram, segundo a Polícia Federal, que Vorcaro cobrava subordinados sobre inconsistências apontadas pelo BRB nas carteiras de crédito cedidas pelo Master.
Em 13 de maio de 2025, ele enviou uma lista de pendências que incluía ausência de reconhecimento em cartório dos contratos da Tirreno e falta de envio desses documentos. Alberto Félix respondeu: “Vou pedir para reconhecer firma dos contratos e aí já te enviamos todos”.
Outro ponto tratado era o envio de comprovantes de averbação, que serviriam para demonstrar que os contratos de crédito consignado tinham registro formal. Félix admitiu dificuldade: “Esse é difícil”.
Pressa antes da operação com o BRB
Em 23 de maio de 2025, Vorcaro voltou a cobrar os subordinados: “Você consegue mobilizar todos aí pra responderem esses pontos (do) brb?”. Diante da pendência de contratos, o banqueiro sugeriu um esforço concentrado no fim de semana: “Não dá pra fazer um mutirão de emissão no fds?”.
Para a PF, o diálogo é relevante porque a revisão dos contratos ocorria apenas em maio de 2025, embora os negócios fossem datados de janeiro daquele ano. Os investigadores afirmam que, em tese, os documentos já deveriam estar assinados.
Banco Master sob investigação
A apuração ocorre em meio ao colapso do Banco Master e às negociações de delação premiada de Daniel Vorcaro. A defesa do banqueiro, procurada pelo Estadão, não se manifestou. O BRB também não comentou. As defesas de Alberto Félix e Ângelo Silva igualmente não se pronunciaram, segundo a reportagem.
O sigilo dos depoimentos foi levantado pelo ministro Dias Toffoli. Vorcaro foi preso pela segunda vez em março, enquanto a Polícia Federal investiga a participação de gestores do Master em fraudes documentais para obter recursos do BRB e tentar conter a crise de liquidez da instituição.



