Delator da Lava-Jato é investigado pela PF por intermediar negócios entre Cláudio Castro e Banco Master
PF aponta Ricardo Siqueira como articulador de aportes bilionários do Rioprevidência no Banco Master
247 - O empresário Ricardo Siqueira Rodrigues, conhecido por ter atuado como delator da Operação Lava-Jato, tornou-se um dos alvos da operação deflagrada pela Polícia Federal nesta terça-feira (26) contra o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL). Segundo informações reveladas inicialmente pelo jornal O Globo, os investigadores apontam que Rodrigues teria desempenhado papel central na aproximação entre o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e integrantes do governo fluminense.
De acordo com a investigação, a articulação política teria contribuído para a realização de aportes bilionários do Rioprevidência — fundo de previdência dos servidores estaduais — em fundos e papéis ligados ao Banco Master desde o fim de 2023. A operação foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
A Polícia Federal sustenta que Ricardo Siqueira atuava como “articulador, captador e lobista”, sendo responsável por identificar oportunidades de negócios e promover a aproximação entre Vorcaro e autoridades com influência sobre regimes próprios de previdência.
A decisão de Mendonça afirma ainda que o empresário teria sido peça-chave na viabilização de R$ 3,1 bilhões em investimentos do Rioprevidência em ativos ligados ao banco. Segundo os investigadores, ele também operava a empresa Mídias Promotora Ltda, que recebeu R$ 126 milhões do Banco Master entre 2022 e 2025, conforme revelou a Folha de S.Paulo.
Para a PF, a empresa teria sido utilizada para “receber e distribuir comissões” relacionadas ao esquema investigado, permitindo “a circulação e a fragmentação dos ganhos ilícitos com aparência de regularidade contratual”. A companhia estaria formalmente registrada em nome de um laranja.
As investigações apontam ainda que Ricardo Siqueira teria informado a Daniel Vorcaro que o Rioprevidência possuía um “dono” responsável por autorizar os dirigentes do instituto a realizarem pagamentos ao Banco Master. Em outra troca de mensagens obtida pela PF, os dois comemoraram o cumprimento de metas de captação de recursos de fundos de previdência.
Segundo a decisão do STF, Rodrigues também teria afirmado que resolveria os “trâmites internos” necessários para os aportes, faltando apenas o “alinhamento político”.
“No caso do RioPrevidência, é-lhe atribuída função de intermediação política e operacional da captação, tendo afirmado a Vorcaro que resolveria os trâmites internos, restando pendente apenas o alinhamento político”, diz trecho da decisão assinada pelo ministro André Mendonça.
Histórico na Lava-Jato
Ricardo Siqueira Rodrigues ganhou notoriedade nacional ao entrar na mira da Lava-Jato em 2018, durante a Operação Rizoma, que investigava supostos desvios em fundos de pensão. Na época, ele foi descrito pelos investigadores como um dos principais operadores do setor no país.
Posteriormente, tornou-se colaborador da força-tarefa e denunciou supostos esquemas de extorsão envolvendo auditores da Receita Federal. Ele também acusou o advogado Nythalmar Dias Ferreira de oferecer acesso privilegiado ao então juiz Marcelo Bretas, responsável pela Lava-Jato no Rio de Janeiro. O advogado negou as acusações e classificou as declarações como “obscenas”.
O empresário também apareceu como personagem relevante na investigação do chamado “QG da Propina”, esquema investigado durante a gestão de Marcelo Crivella na Prefeitura do Rio. Na ocasião, Rodrigues afirmou que um restaurante de sua propriedade teria sido utilizado como fachada para o recebimento de R$ 1 milhão em propina por Rafael Alves, apontado como operador do esquema.
Após as revelações, o estabelecimento comercial foi atingido por 26 disparos de arma de fogo. Rodrigues afirmou às autoridades que o ataque foi uma retaliação.
Multa milionária da CVM
Além das investigações criminais, Ricardo Siqueira também foi alvo de punição da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Em dezembro de 2024, o órgão aplicou ao empresário uma multa de R$ 53,3 milhões por irregularidades relacionadas à construção de um hotel na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio.
Segundo o relatório da CVM, empresários estruturaram em 2013 um fundo de investimento em participações (FIP) para financiar o empreendimento hoteleiro com recursos captados junto a entidades de previdência complementar.
O documento apontou suspeitas de “superavaliação do projeto” e “desvios de recursos” por meio de pagamentos substanciais a fornecedores ligados aos idealizadores do negócio, sem comprovação efetiva dos serviços prestados.



