AGU rebate ação do MPF e defende Marinha sobre Revolta da Chibata
Órgão diz que Marinha não é obrigada a endossar honrarias simbólicas a João Cândido
247 - A Advocacia-Geral da União (AGU) apresentou à Justiça Federal uma manifestação em defesa da Marinha do Brasil no debate envolvendo a memória de João Cândido Felisberto, líder da Revolta da Chibata, ocorrida em 1910. No documento, o órgão sustenta que o episódio histórico não pode ser tratado apenas como símbolo de resistência, classificando-o como um movimento que representou risco institucional.
Segundo a coluna do jornalista Bernardo Mello Franco, no jornal O Globo, no ofício encaminhado à Justiça Federal, a AGU descreveu a revolta como um “episódio marcado por mortes, insubordinação grave e ameaça à ordem pública e ao Estado de Direito”.
AGU chama rebelião de “insubordinação grave”
Ao justificar sua posição, a AGU argumentou que a atuação da Marinha, no contexto da Revolta da Chibata, teve como objetivo “preservar os princípios da hierarquia e disciplina”. O texto também afirma que a Força Naval “não está juridicamente obrigada a endossar honrarias simbólicas as quais (sic) não concorda”, em referência à possibilidade de homenagens a João Cândido.
A ação do MPF pede indenização de R$ 5 milhões
A manifestação da AGU foi apresentada no último dia 3, como resposta a uma ação do Ministério Público Federal (MPF). O órgão pede que a União seja condenada ao pagamento de R$ 5 milhões por dano moral coletivo, em razão de declarações consideradas ofensivas à memória de João Cândido.
Documento cita preservação da hierarquia e disciplina
No ofício, a AGU reforça que a Marinha não pode ser obrigada a aderir a homenagens simbólicas que não reflitam sua interpretação institucional sobre o episódio. O texto também contesta a tentativa de restringir futuras manifestações da Força Naval sobre João Cândido.
Segundo o advogado da União Cláudio de Castro Panoeiro, uma ordem judicial nesse sentido configuraria “censura institucional” e violaria o princípio da separação entre os Poderes. Panoeiro comandou a Secretaria Nacional de Justiça durante o governo de Jair Bolsonaro.
Declaração de Marcos Olsen ampliou a polêmica
A discussão sobre a memória de João Cândido ganhou novo impulso após declarações do comandante da Marinha, almirante Marcos Olsen, feitas em 2024 à Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados. Na ocasião, ele afirmou que a Revolta da Chibata foi um “fato opróbrio” e declarou que “abjetos marinheiros” teriam desrespeitado a hierarquia e a disciplina.
O episódio marcou a segunda tentativa da Marinha de convencer parlamentares a barrar o projeto de lei que busca incluir João Cândido, conhecido como Almirante Negro, no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria.
Revolta da Chibata e a luta contra punições físicas
A Revolta da Chibata foi protagonizada por marinheiros, em sua maioria negros, que reivindicavam o fim das punições físicas nos navios. O movimento teve início após o marujo Marcelino Rodrigues Menezes ser castigado diante da tripulação do encouraçado Minas Gerais.
Segundo o relato histórico , ele foi amarrado ao mastro e recebeu 250 chibatadas, episódio que se tornou símbolo da violência enfrentada por marinheiros no início do século XX.

