Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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A crise iraniana e a Rússia: sete lições

Escalada militar no Golfo Pérsico expõe riscos geopolíticos e revela lições estratégicas para Moscou diante da pressão ocidental

Os presieentes Putin (Rússia) e Pezemshkian (Irã) (Foto: Reuters)

247 - A intensificação do conflito envolvendo o Irã, após ataques aéreos de grande escala conduzidos por Israel e pelos Estados Unidos, agravou o cenário de instabilidade no Oriente Médio e elevou o nível de tensão internacional. A ofensiva, que já vinha sendo antecipada por movimentações militares no Golfo Pérsico e pelo fracasso das negociações entre Teerã e Washington, resultou em danos expressivos à infraestrutura regional e desencadeou uma resposta iraniana com mísseis contra alvos israelenses e instalações norte-americanas.

Análise de Ivan Timofeev, diretor de programa do Clube de Discussão Valdai, reproduzida pelo Brasil de Fato, aponta as implicações estratégicas do conflito e destaca sete lições centrais para a Rússia diante da atual conjuntura geopolítica. Segundo o texto, a situação revela tendências que podem moldar o cenário internacional nos próximos anos.

Os ataques provocaram forte impacto econômico e logístico, interrompendo o transporte de petróleo no Golfo Pérsico e afetando centros financeiros nos Emirados Árabes Unidos e no Catar. Apesar disso, o Irã mantém capacidade de resistência, uma vez que uma invasão terrestre em larga escala é considerada improvável. Ainda assim, os danos à base industrial e o agravamento da crise econômica devem aprofundar o empobrecimento da população iraniana.

Sanções e uso da força caminham juntos

Uma das principais conclusões do estudo é que as sanções impostas ao Irã ao longo de décadas foram acompanhadas de ações militares diretas e indiretas. Desde 1979, os Estados Unidos lideram medidas econômicas contra Teerã, ampliadas por aliados e organismos internacionais. Paralelamente, ocorreram operações militares, ataques cibernéticos e ações contra cientistas e autoridades iranianas.

Esse padrão, segundo o artigo, também foi observado em países como Iraque, Líbia e Síria. No caso da Rússia, embora um confronto direto seja considerado improvável devido ao risco nuclear, há uma atuação indireta por meio do apoio militar à Ucrânia e da ampliação da presença da OTAN em regiões estratégicas.

Pressão prolongada e desgaste contínuo

O texto destaca que a estratégia ocidental tende a ser de longo prazo, combinando sanções econômicas com ataques militares pontuais que visam enfraquecer gradualmente a capacidade do adversário. No caso iraniano, isso se traduz em sucessivas ofensivas que reduzem sua capacidade de reação.

Para Moscou, a lição é clara: as sanções dificilmente serão suspensas de forma definitiva, mesmo com eventuais negociações. A pressão deve se estender por décadas, incluindo restrições tecnológicas e comerciais.

Concessões não garantem alívio

Outro ponto central é a avaliação de que concessões feitas pelo Irã, como o acordo nuclear de 2015, não resultaram em alívio duradouro das sanções. O rompimento unilateral do pacto pelo governo Trump, presidente dos Estados Unidos à época, reforçou a percepção de que concessões podem levar a novas exigências.

Nesse contexto, a postura mais rígida da Rússia em negociações internacionais é interpretada como uma tentativa de evitar esse ciclo, especialmente diante da baixa confiança entre as partes envolvidas.

Líderes passam a ser alvos diretos

O artigo também chama atenção para a mudança no padrão de conflitos, com líderes políticos e militares sendo alvos deliberados. No caso iraniano, ataques atingiram o líder supremo Ali Khamenei, membros de sua família e autoridades de alto escalão.

Segundo a análise, essa tendência amplia os desafios de segurança e exige maior integração entre inteligência, forças armadas e sistemas de defesa para proteger a liderança nacional.

Instabilidade interna abre espaço para intervenção

A crise interna no Irã, marcada por protestos e tensões sociais, é apontada como um fator que pode ter incentivado a ofensiva externa. O texto destaca que fragilidades políticas e econômicas costumam ser interpretadas como oportunidades por adversários internacionais.

Experiências anteriores, como na Líbia e na antiga União Soviética, são citadas como exemplos de como divisões internas podem acelerar processos de desestabilização.

Parceiros econômicos não garantem segurança

Mesmo sob sanções, o Irã conseguiu manter relações comerciais com diversos países, conhecidos como “cavaleiros negros”. Essa rede ajudou a mitigar os efeitos econômicos das restrições, mas não foi suficiente para impedir ações militares.

A Rússia, que também reorientou seu comércio para países como China e Índia, enfrenta situação semelhante: apoio econômico não se traduz automaticamente em alianças militares.

Equilíbrio de poder segue determinante

Por fim, o texto destaca que, apesar das limitações, o Irã mantém capacidade de resposta militar, incluindo o uso de mísseis e drones. Medidas como o fechamento do Estreito de Ormuz demonstram que o país pode elevar o custo do conflito.

Ainda assim, a eficácia dessa dissuasão depende da percepção dos adversários sobre os riscos envolvidos. Segundo o artigo, a história mostra que essa percepção pode mudar sob pressão política contínua.

O cenário, marcado por escaladas sucessivas e ausência de soluções diplomáticas duradouras, reforça um ambiente de incerteza e tensão que tende a influenciar a dinâmica geopolítica global nos próximos anos.

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