"Nada a ver com o filme", diz Flávio Bolsonaro após operação contra produtora de Dark Horse
Polícia apura desvio de recursos públicos em contrato firmado por ONG de Karina Ferreira da Gama, controladora da produtora de Dark Horse
247 - O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta segunda-feira (1º) que a operação da Polícia Civil contra a Prefeitura de São Paulo e a produtora do filme Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), não tem relação com a produção. Ao comentar o caso, Flávio Bolsonaro negou qualquer relação entre a ação policial e a produção cinematográfica. “Não tem nada a ver com o filme”, disse o pré-candidato, em referência a Dark Horse.
A Polícia Civil de São Paulo apura suspeitas de desvio de recursos públicos em um contrato do programa Wi-Fi Livre, da Prefeitura de São Paulo, firmado com o Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade comandada por Karina Ferreira da Gama, que também controla a produtora responsável por Dark Horse. Nesta segunda, os investigadores cumpriram sete mandados de busca e apreensão para apurar possíveis irregularidades na contratação da ONG e a hipótese de financiamento cruzado ilícito da produção cinematográfica.
A apuração envolve Karina Ferreira da Gama, dona da Go Up Entertainment Ltda, produtora responsável por Dark Horse, e proprietária da ONG ICB. O ICB foi contratado pelo município para instalar e manter pontos de Wi-Fi em comunidades periféricas da capital paulista. A investigação, iniciada após pedido do Ministério Público de São Paulo (MPSP), aponta indícios de irregularidades no chamamento público que resultou na escolha da ONG. De acordo com as autoridades, apenas o Instituto Conhecer Brasil participou do processo.
A Polícia Civil também afirma que o instituto não teria experiência nem capacidade técnica no setor de comunicação. Conforme a investigação, o histórico da entidade estaria ligado principalmente à realização de feiras de livros e eventos de caráter literário ou religioso, sem atuação prévia compatível com a execução de um projeto de conectividade pública.
Outro ponto sob análise é o valor do contrato. A polícia aponta que o Termo de Colaboração foi firmado com preços considerados discrepantes em relação aos praticados no mercado. O ICB teria cobrado R$ 1,8 mil mensais por ponto de internet instalado, valor 3,3 vezes superior ao cobrado pela empresa pública municipal de tecnologia, segundo a investigação.
As suspeitas também envolvem a execução do serviço contratado. Vistorias e análises preliminares citadas pela Polícia Civil indicaram “descumprimento drástico” das metas estabelecidas. O cronograma previa a entrega de 5 mil pontos de Wi-Fi até junho de 2025, mas, conforme a apuração, 3,2 mil teriam sido instalados.
A investigação aponta ainda que a Prefeitura de São Paulo antecipou R$ 26 milhões sem a devida contraprestação. Entre os repasses, estariam valores superiores a R$ 11 milhões referentes aos 3,2 mil pontos, embora apenas seis estivessem em funcionamento no período analisado pelas autoridades.
No caso de Dark Horse, a Polícia Civil vê suspeita de possível financiamento cruzado ilícito, uma vez que a produtora do filme é controlada por Karina Ferreira da Gama. O custo da cinebiografia sobre Jair Bolsonaro é estimado entre R$ 8 milhões e R$ 20 milhões. A hipótese investigada é a de que recursos públicos recebidos pelo ICB tenham sido desviados ilegalmente para financiar a produção audiovisual.
Em nota, a Prefeitura de São Paulo afirmou que colabora com as investigações e permanece à disposição das autoridades. “Todo o material requisitado na manhã desta segunda-feira já havia sido encaminhado às autoridades e são, desde sempre, de acesso público através da prestação de contas do município”, declarou a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB).
A administração municipal também afirmou que o programa segue em funcionamento. “A administração ressalta que o programa funciona normalmente na cidade e pode ser acompanhado em tempo real no link. Por volta das 9h desta segunda-feira, dos 3,2 mil pontos contratados pela prefeitura, apenas 52 estavam off-line e passavam por manutenção. Não houve pagamento por parte da administração para 5 mil pontos. O aditivo em questão é exclusivamente para manutenção dos 3,2 mil pontos já instalados nas comunidades periféricas da cidade”, acrescentou a prefeitura.
A gestão municipal defendeu ainda a legalidade da contratação e afirmou que realiza a prestação de contas do contrato. Segundo a nota, a parceria com o ICB “seguiu rigorosamente os princípios da legalidade, transparência e economicidade”.
A prefeitura também sustentou que o chamamento público ficou aberto por 30 dias e poderia receber propostas de qualquer entidade interessada. “Vale lembrar que o chamamento público, aberto por 30 dias para qualquer entidade interessada, ocorreu em 2024, quando não havia sequer produção do filme mencionado, e o processo cumpriu todas as exigências legais. Para 2026, o custo estimado na parceria com o instituto corresponde a R$ 1.280,80 por ponto/mês, significativamente menor do que as propostas recebidas em 2022 de R$ 2.026,26 por ponto/mês e R$ 5.092,14 por ponto/mês".



