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Kassab traça plano para sair das eleições com cerca de 90 deputados

PSD sinaliza candidatura própria ao Planalto, mas libera palanques estaduais para alianças locais, mirando o salto de 47 para até 90 cadeiras na Câmara

Glberto Kassab, presidente do PSD (Foto: Divulgação/PSD)

247 – Gilberto Kassab desenhou para 2026 uma estratégia que prioriza um objetivo claro: fazer o PSD sair das eleições com uma bancada próxima de 90 deputados federais. Para isso, mesmo ao acenar com a possibilidade de candidatura presidencial própria, o partido pretende liberar seus diretórios estaduais para montarem palanques conforme a conveniência local, sem obrigação de apoiar o presidenciável da sigla.

A estratégia foi detalhada em reportagem da Folha de S.Paulo, segundo a qual Kassab vai permitir que candidatos do PSD a governador apoiem, em cada estado, o candidato à Presidência que considerarem mais vantajoso eleitoralmente — inclusive o presidente Lula — a fim de maximizar a votação proporcional e ampliar o número de cadeiras na Câmara.

Bancada maior significa mais fundo eleitoral e mais poder político

A lógica do plano é direta: quanto maior a bancada na Câmara, maior é a fatia do partido na distribuição do fundo eleitoral e do fundo partidário, além de crescer o peso político nas negociações nacionais e estaduais. Hoje, o PSD tem 47 deputados federais. Em evento na sexta-feira (30), Kassab afirmou que o partido pode chegar a eleger de 80 a 90 parlamentares. “Pode chegar a eleger de 80 a 90 deputados federais”, disse.

Essa meta se torna ainda mais relevante porque, na disputa real por influência, o tamanho da bancada costuma ser a moeda mais valiosa. Com ela, o partido amplia tempo de propaganda, poder de atração para filiações e capacidade de interferir na agenda do Congresso, independentemente de quem vença a Presidência.

Candidatura própria ao Planalto existe, mas sem amarrar os estados

Embora Kassab indique que o PSD pode lançar candidato à Presidência, dirigentes do partido afirmam que não haverá imposição aos estados para que ofereçam palanque ao nome escolhido. O potencial presidenciável seria escolhido entre os governadores Ratinho Jr. (Paraná), Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul). Ainda assim, o plano central é não travar alianças locais com uma decisão nacional.

O próprio Kassab admitiu que esses governadores podem, eventualmente, disputar apenas o Senado. E integrantes do PSD reconhecem que, como ocorreu na última eleição nacional, o partido pode acabar repetindo o movimento: ensaiar candidatura própria e desistir no meio do caminho, se isso favorecer a meta principal de eleger a maior bancada possível.

Palanques pró-Lula em alguns estados e neutralidade em outros

A liberação dos palanques cria um mosaico de alianças. No Rio de Janeiro, por exemplo, o prefeito Eduardo Paes (PSD), apontado como pré-candidato ao governo, lançou-se com o compromisso de apoiar a reeleição do presidente Lula. No Amazonas e na Bahia, o PSD também deve integrar a coligação do PT.

Em Sergipe, o governador Fábio Mitidieri (PSD), que buscará a reeleição, tem declarado apoio à recondução de Lula ao Planalto. Esses casos mostram que Kassab aceita, sem conflito, palanques alinhados ao governo federal onde isso for eleitoralmente rentável.

Pernambuco: acordo com Lula para proteger a reeleição de Raquel Lyra

Em Pernambuco, o cenário é tratado como especialmente sensível. Segundo interlocutores citados no relato, aliados da governadora Raquel Lyra, recém-filiada ao PSD, não se empolgam com uma alternativa de “terceira via” nacional e preferem um acordo com o presidente Lula para evitar desgaste. O estado é descrito como fortemente lulista: Lula recebeu 66,9% dos votos válidos em 2022.

Na eleição passada, Raquel não declarou apoio a Lula nem a Jair Bolsonaro, mantendo neutralidade. Desde que assumiu o governo, porém, o texto aponta que ela vem dando sinais de aproximação com o presidente, o que reforça o interesse em um arranjo político que preserve sua competitividade local.

Minas Gerais: apoio a Zema evidencia palanques contraditórios

A mesma flexibilidade permite alianças em direção oposta. Em Minas Gerais, o vice-governador Mateus Simões (PSD) deve apoiar Romeu Zema (Novo), atual governador e pré-candidato à Presidência. O exemplo expõe o ponto-chave do plano: o PSD quer se blindar de uma ordem nacional única, mesmo que isso produza palanques diferentes, e até contraditórios, em estados distintos.

PSD como rota de fuga da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro

Em alguns estados, a reportagem aponta que o nome do PSD ao Planalto pode servir como alternativa para candidatos a governador que tentam evitar a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL). Na Bahia, ACM Neto (União Brasil) faz oposição ao PT, mas não quer se vincular ao bolsonarismo num estado em que a maioria do eleitorado vota em Lula. Nesse caso, um presidenciável do PSD poderia funcionar como “ponte” para um palanque menos identificado com extremos.

Líderes do PSD esperam dinâmica semelhante no Mato Grosso do Sul, onde Eduardo Riedel (PP) poderia apoiar, por exemplo, Ronaldo Caiado caso o governador de Goiás seja o escolhido de Kassab para a disputa presidencial.

Santa Catarina: palanque alternativo e candidatura do prefeito de Chapecó

Em Santa Catarina, o PSD deve montar um palanque alternativo a Flávio Bolsonaro lançando o prefeito de Chapecó, João Rodrigues (PSD), para disputar o governo estadual. A ideia é oferecer um caminho próprio, capaz de dialogar com o eleitorado local sem subordinar a eleição estadual à disputa presidencial.

Goiás e São Paulo: convivência com o PL e alianças cruzadas

O desenho ainda admite convivência com o PL em determinados estados. Em Goiás, o PSD deve apoiar o vice-governador Daniel Vilela (MDB) ao governo, enquanto o PL pode lançar Gustavo Gayer ao Senado.

Em São Paulo, o PSD integra a base do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), de quem Kassab é secretário de Governo. Tarcísio, candidato à reeleição, comprometeu-se a apoiar Flávio Bolsonaro, evidenciando como Kassab tenta manter o PSD bem-posicionado em governos estaduais mesmo quando esses governos se alinham a outro polo na disputa presidencial.

A aposta de Kassab: ganhar na Câmara para dominar o pós-2026

Ao liberar palanques e priorizar a eleição proporcional, Kassab busca transformar o PSD em um dos principais centros de gravidade do Congresso a partir de 2027. Em vez de apostar todas as fichas na disputa presidencial, o partido opera com um cálculo de poder: sair das urnas maior, mais financiado e mais influente, independentemente do vencedor do Planalto.

Com isso, a candidatura própria aparece como uma ferramenta possível, mas não como eixo obrigatório. O eixo é a bancada. E a meta, como o próprio Kassab declarou, é ambiciosa: fazer o PSD sair das eleições com algo entre 80 e 90 deputados federais.

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