Villepin alerta para ruptura da ordem mundial após ataque dos EUA à Venezuela
Ex-primeiro-ministro francês diz que ação legitima mudanças de regime pela força e ameaça o direito internacional
247 - O ex-primeiro-ministro da França Dominique de Villepin afirmou que a ofensiva militar dos Estados Unidos contra a Venezuela representa um ponto de inflexão grave na ordem internacional construída após a Segunda Guerra Mundial. Para ele, a ação marca uma ruptura explícita com os princípios do direito internacional e abre precedentes perigosos que podem aprofundar o caos geopolítico global.
A avaliação foi feita em manifestação pública divulgada neste sábado (3). No texto, Villepin sustenta que os Estados Unidos, sob o comando do presidente Donald Trump, colocam-se deliberadamente fora da legalidade internacional ao violar a Carta e o espírito das Nações Unidas.
“A operação militar americana em curso contra a Venezuela é uma virada geopolítica de grande magnitude. Os Estados Unidos se colocam voluntária e indiscutivelmente fora do direito internacional, ao violar a Carta e o espírito das Nações Unidas. Trata-se de um ato de consequências profundas para a ordem internacional surgida após a Segunda Guerra Mundial”, afirmou o ex-premiê francês.
Villepin critica de forma direta a legitimação de mudanças de regime impostas pela força. Segundo ele, a história recente demonstra que esse tipo de intervenção não conduz nem à democracia nem à paz. “Mesmo que os governos derrubados sejam considerados detestáveis, os precedentes mostram que as mudanças de regime não levam à democracia nem à paz, mas ao caos, à guerra civil e à ditadura. Basta olhar para as situações do Iraque ou da Líbia”, declarou.
O ex-chefe de governo francês também associa a ofensiva à consolidação de zonas de influência imperiais, amparadas no que chamou de “corolário Trump” da Doutrina Monroe. Para Villepin, essa diretriz, explicitada na Estratégia Nacional de Defesa dos Estados Unidos de dezembro de 2025, busca impor um alinhamento ideológico em toda a América Latina. “O objetivo pouco disfarçado da política da canhoneira continua sendo a imposição de uma ordem ideológica conforme às visões de Donald Trump em toda a América Latina”, afirmou.
Na análise do ex-primeiro-ministro, a violação aberta da legalidade internacional pelos Estados Unidos fragiliza qualquer capacidade futura de contenção de outras potências. “Quando os Estados Unidos se libertam da legalidade, o que diremos à China se ela derrubar um regime que lhe desagrade, na Coreia, no Vietnã ou, ainda mais, em Taiwan? Que argumentos teremos para opor à Rússia se ela derrubar um governo que lhe desagrade na Moldávia ou mesmo nos países bálticos?”, questionou.
Ao final da manifestação, Villepin defende uma posição firme da França e da Europa em articulação com os países do Sul Global. Segundo ele, é essencial reafirmar o compromisso com a soberania dos Estados, a segurança coletiva e a preservação do sistema jurídico internacional. “A França e a Europa devem reafirmar claramente, junto aos países do Sul Global, seu apego aos princípios do direito internacional, começando pela soberania dos Estados e pela segurança coletiva, e defender a ordem jurídica dos Estados-nação contra a colisão brutal dos impérios”, concluiu.


