Macron publica imagem gerada por IA com Modi e reforça parceria França-Índia por soberania tecnológica em Nova Déli
Presidente francês diz que os dois países não querem “ser totalmente dependentes” de modelos dos EUA e da China e defende “um modelo próprio, equilibrado”
247 – O presidente da França, Emmanuel Macron, agitou as redes sociais nesta terça-feira ao publicar uma imagem gerada por inteligência artificial na qual aparece ao lado do primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em meio à expectativa pela realização do AI Impact Summit 2026, que ocorre em Nova Déli entre 16 e 20 de fevereiro.
A informação foi divulgada pela agência ANI, que relata que a publicação teve grande repercussão e foi interpretada como um gesto de aproximação política e simbólica, em um momento em que Paris e Nova Déli buscam ampliar a cooperação em inteligência artificial e reduzir dependências externas na nova corrida tecnológica.
Post em rede social e sinalização de alinhamento político
Na postagem feita na plataforma X, Macron conectou a mensagem de amizade à ideia de inovação, em um aceno direto ao evento internacional. Ele escreveu: "Quando amigos se conectam, a inovação acontece. Pronto para o AI Impact Summit!"
O conteúdo — acompanhado da imagem gerada por IA — reforça a narrativa de que a parceria franco-indiana pretende ganhar densidade justamente no campo em que governos e empresas disputam espaço: o controle das infraestruturas, dos modelos e das aplicações de inteligência artificial.
Segundo a ANI, o AI Impact Summit 2026 dá sequência a iniciativas internacionais recentes, incluindo o AI Action Summit de 2025, realizado em Paris e co-presidido por Modi e Macron. A leitura é de continuidade: um ciclo de cúpulas que busca transformar conversas diplomáticas sobre IA em agendas concretas, com compromissos, projetos e cooperação entre Estados, academia e setor privado.
Centro indo-francês em IA na saúde e cooperação acadêmica
A repercussão do post ocorre em paralelo a iniciativas institucionais anunciadas e impulsionadas pelos dois países. Entre elas, está a inauguração do Centro Indo-Francês de Inteligência Artificial em Saúde, no AIIMS, em colaboração com a Universidade Sorbonne e o Paris Brain Institute, conforme relatado pela ANI.
A criação de um centro dedicado a aplicações de IA na saúde aponta para uma estratégia que vai além do discurso: a tentativa de ancorar a cooperação em instituições, pesquisa e transferência de conhecimento, com foco em usos de alto impacto social. Ao envolver um hospital de referência e instituições acadêmicas francesas, o projeto indica uma convergência entre diplomacia, ciência e políticas públicas.
“Não queremos ser totalmente dependentes”: Macron mira autonomia estratégica
Ainda de acordo com a ANI, Macron afirmou que Índia e França compartilham “o mesmo objetivo” na inovação em IA e que não desejam ficar “totalmente dependentes” de modelos desenvolvidos nos Estados Unidos e na China — dois polos que hoje concentram parte significativa da infraestrutura computacional, dos grandes modelos e dos investimentos privados do setor.
Falando em evento no AIIMS, em Nova Déli, o presidente francês destacou a importância da autonomia estratégica em um cenário de rápida transformação tecnológica e geopolítica. Ele declarou: "Acho importante que essa inovação se torne uma parte muito importante dos nossos países. Acredito que compartilhamos o mesmo objetivo na Índia e na França, e na Europa — que não queremos ser totalmente dependentes dos modelos dos EUA e da China. Acreditamos que precisamos do nosso próprio modelo equilibrado, e queremos fazer parte da solução. Queremos que nossos atores também façam parte da solução."
A fala coloca no centro do debate um ponto sensível: soberania tecnológica. Na prática, a frase associa a inteligência artificial a interesses nacionais, cadeias de suprimentos digitais e poder internacional. Ao defender “um modelo próprio, equilibrado”, Macron sinaliza uma visão que combina inovação com controle político e econômico sobre tecnologias críticas — incluindo dados, regulação, padrões e ecossistemas empresariais.
Cúpula em Nova Déli: People, Planet e Progress e a ambição do Sul Global
A ANI informa que a Índia sedia o AI Impact Summit 2026 de 16 a 20 de fevereiro, estruturado em três pilares — descritos como “sutras”: People, Planet e Progress. A proposta é dar ao encontro uma moldura de impacto social, sustentabilidade e desenvolvimento, conectando a agenda de IA a prioridades públicas e metas de transformação econômica.
O primeiro-ministro Modi inaugurou a India AI Impact Expo 2026 no Bharat Mandapam, em Nova Déli, na segunda-feira, segundo a agência. O evento também foi apresentado como a primeira grande reunião global de inteligência artificial realizada no Sul Global, com presença expressiva de lideranças políticas e do setor tecnológico: mais de 20 chefes de Estado, 60 ministros e 500 líderes globais da área de IA, conforme os números citados pela ANI.
Macron também enfatizou a relevância do encontro para direcionar debates sobre inovação responsável e benefícios sociais. Ele afirmou: "A cúpula organizada pela Índia é extremamente importante em relação a todos esses temas. Depois da Action Summit há um ano, continuamos a conversa para garantir que nossos países se beneficiem da inovação e para assegurar que essa inovação sirva ao nosso bem comum e à humanidade."
Do debate global a “resultados acionáveis”: missão IndiaAI e Digital India
Segundo a ANI, a cúpula reúne formuladores de políticas, empresas de tecnologia, inovadores, academia e lideranças industriais com o objetivo de transformar deliberações globais sobre inteligência artificial em resultados práticos de desenvolvimento, no âmbito da missão IndiaAI e da iniciativa Digital India.
A estratégia indiana, conforme descrita pela agência, sugere que Nova Déli pretende posicionar o país como articulador de uma agenda de IA voltada a inclusão, confiança e desenvolvimento — combinando atração de investimentos, expansão de capacidades digitais e debate regulatório.
A ANI registra ainda que Modi fará o discurso inaugural em 19 de fevereiro, com a expectativa de definir o tom da cooperação internacional e de apresentar a visão indiana para uma inteligência artificial “inclusiva, confiável e orientada ao desenvolvimento”.
Parceria França-Índia e o recado aos polos EUA-China
No conjunto, o gesto de Macron nas redes, a abertura de um centro de IA na saúde e as declarações sobre dependência de modelos estrangeiros apontam para uma tentativa de reposicionar a França — e, por extensão, a Europa — e a Índia em um tabuleiro global marcado por assimetrias. A mensagem política é clara: Paris e Nova Déli querem ser protagonistas na governança e no desenvolvimento da inteligência artificial, evitando que o futuro do setor seja definido apenas pela disputa entre Estados Unidos e China.
Ao mesmo tempo, o AI Impact Summit 2026 em Nova Déli aparece como uma vitrine para consolidar projetos, alianças e parâmetros de “inovação responsável”, com grande presença de governos e do setor privado. A forma como essas diretrizes se transformarão em cooperação efetiva, padrões regulatórios e capacidade tecnológica é justamente o que torna o encontro estratégico — e explica por que uma imagem gerada por IA, publicada por um chefe de Estado, ganhou tamanha centralidade no debate público.


