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Vorcaro ordenou ataque ao jornalista Lauro Jardim: "dar um pau, quebrar todos os dentes"

Decisão do STF descreve núcleo da organização criminosa responsável por vigilância e intimidação. O alvo do grupo era o jornalista Lauro Jardim

Lauro Jardim (Foto: Reprodução/X/@JornalOGlobo)

247 - Decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), revelou detalhes sobre o funcionamento de um núcleo da organização criminosa investigada na Operação Compliance Zero responsável por monitorar adversários, obter informações sigilosas e planejar ações de intimidação contra pessoas consideradas prejudiciais aos interesses do grupo.

O despacho foi assinado pelo ministro André Mendonça na Petição 15.556 e descreve a atuação de integrantes da organização que, segundo a Polícia Federal, operavam uma estrutura informal de vigilância e coerção denominada “A Turma”. O documento relata mensagens, monitoramentos e ameaças registradas em conversas entre os investigados.

Núcleo de vigilância e intimidação

Segundo a decisão judicial, a organização criminosa investigada era composta por diferentes núcleos operacionais, entre eles um grupo voltado especificamente para monitoramento e intimidação de pessoas consideradas adversárias.

Esse núcleo atuava na coleta de informações pessoais, na vigilância de indivíduos e na obtenção de dados sensíveis que pudessem ser utilizados para pressionar ou neutralizar críticos do grupo econômico ligado ao Banco Master.

De acordo com os autos, a estrutura informal conhecida como “A Turma” executava atividades de vigilância, levantamento de dados e monitoramento de pessoas relacionadas a investigações, concorrentes empresariais, ex-funcionários e jornalistas.

As investigações indicam que esse núcleo operava sob coordenação de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, identificado nas comunicações como “Felipe Mourão” e apelidado de “Sicário”. Ele seria responsável por organizar equipes e planejar ações destinadas a acompanhar e intimidar alvos definidos pela liderança da organização.

Acesso ilegal a sistemas e coleta de informações

Segundo a decisão, Mourão teria utilizado credenciais funcionais de terceiros para acessar sistemas restritos de órgãos públicos e extrair informações sigilosas.

Os investigadores identificaram consultas a bases de dados utilizadas por instituições de segurança pública e investigação policial, o que teria permitido acesso indevido a sistemas da Polícia Federal, do Ministério Público Federal e até de organismos internacionais, como FBI e Interpol.

Essas consultas eram utilizadas para levantar informações sobre autoridades, jornalistas e outras pessoas consideradas relevantes para os interesses da organização.

Além disso, o investigado também teria participado de iniciativas destinadas a remover conteúdos e perfis em plataformas digitais considerados prejudiciais ao grupo, utilizando comunicações que simulavam solicitações oficiais de órgãos públicos.

Monitoramento e planejamento de intimidação

A decisão judicial descreve que as conversas analisadas mostram um padrão de monitoramento constante de pessoas consideradas adversárias.

Em uma troca de mensagens citada nos autos, Mourão informa a Vorcaro que está monitorando um ex-funcionário do empresário e solicita mais dados para ampliar o acompanhamento:

“Tem algum telefone alguma coisa assim para monitorar?”

Em outro episódio, Mourão se coloca à disposição para mobilizar integrantes da estrutura para intimidar um funcionário que teria feito uma gravação considerada inconveniente para Vorcaro.

As mensagens mostram ainda que o empresário determinava diretamente ações contra alvos identificados, pedindo a coleta de informações pessoais e dados de localização.

Ameaças contra jornalista

Entre os episódios descritos na decisão está uma sequência de mensagens envolvendo ameaças contra um jornalista após a publicação de uma reportagem considerada desfavorável aos interesses do grupo. Apesar de a decisão de Mendonça omitir o nome do profissional, informações dão conta de que o jornalista em questão se trata de Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Na conversa, Mourão menciona o profissional e questiona se ele publicava regularmente textos sobre o tema. Vorcaro responde afirmativamente e, na sequência, os dois discutem a possibilidade de monitoramento do jornalista.

Em um trecho reproduzido na decisão, Mourão afirma:

“Cara escroto”.

Em seguida, Vorcaro sugere colocar pessoas para seguir o jornalista:

“Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele”.

Mourão responde:

“Vou fazer isto”.

As mensagens evoluem para ameaças explícitas. Em uma delas, Vorcaro afirma:

“Esse lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.

De acordo com a decisão judicial, Mourão reagiu positivamente à mensagem e afirmou que a equipe já monitorava conteúdos negativos relacionados ao empresário.

Em outro trecho citado nos autos, após a ameaça de agressão, Mourão pergunta se poderia executar a ação, ao que Vorcaro responde:

“Sim”.

Segundo o despacho do STF, os diálogos indicam que a intenção seria simular um assalto para justificar a agressão e intimidar o jornalista.

Ameaças contra outras pessoas

As mensagens analisadas também mostram ameaças dirigidas a outras pessoas consideradas problemáticas para o grupo.

Em um episódio citado na decisão, Vorcaro relata que uma empregada o estaria ameaçando e pede providências a Mourão:

“Empregada Monique me ameaçando. É mole? Tem que moer essa vagabunda”.

Mourão responde:

“O que é para fazer?”.

Na sequência, Vorcaro determina:

“Puxa endereço tudo”.

Os investigadores apontam que esse tipo de conversa revela uma dinâmica em que Vorcaro emitia ordens e Mourão coordenava a execução das ações por meio da estrutura conhecida como “A Turma”.

Funcionamento da estrutura conhecida como “A Turma”

De acordo com a decisão, “A Turma” funcionava como um grupo responsável por executar atividades de vigilância, coleta de dados e intimidação.

A estrutura era composta por integrantes que realizavam monitoramento presencial de alvos, levantamento de informações pessoais e acompanhamento de pessoas consideradas de interesse da organização.

Entre os membros identificados pelos investigadores está o policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, apontado como operador relevante do núcleo de coerção.

Segundo o despacho, Marilson utilizava experiência e contatos adquiridos durante a carreira policial para auxiliar na obtenção de informações sensíveis e na execução das atividades de monitoramento.

Intenção de intimidar críticos e interferir em investigações

A decisão do STF afirma que o conjunto de mensagens e elementos investigativos indica a existência de um núcleo estruturado de vigilância e intimidação dentro da organização criminosa.

Para o ministro André Mendonça, as conversas revelam indícios de planejamento de ações de coerção e de tentativa de silenciar pessoas consideradas adversárias do grupo. O despacho aponta ainda que esse tipo de atuação representa risco concreto à investigação e à integridade de pessoas citadas nos autos, justificando a adoção de medidas cautelares para interromper o funcionamento da estrutura criminosa descrita na Operação Compliance Zero.

Em nota, a assessoria de Vorcaro nega que ele tenha intimidado ou ameaçado jornalistas e afirma que as mensagens foram retiradas de contexto. " A assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro esclarece que o empresário informou, no momento de sua prisão, que jamais teve intenção de intimidar ou ameaçar jornalistas e que suas mensagens foram tiradas de contexto", destaca o texto. .

Ainda segundo a assessoria , o empresário disse "textualmente que 'sempre respeitei o trabalho da imprensa e, ao longo de minha trajetória empresarial, mantive relacionamento institucional com diversos veículos e jornalistas. Não me lembro de minhas conversas por telefone, mas, se em algum momento me exaltei em mensagens no passado, o fiz em tom de desabafo, em privado, sem qualquer objetivo de intimidar quem quer que seja. Jamais determinei ou determinaria agressões ou qualquer espécie de violência'".

"Vorcaro segue colaborando com as autoridades competentes e confia que a análise completa das informações esclarecerá definitivamente as interpretações equivocadas que vêm sendo divulgadas", finaliza a nota. 

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