Países da América do Sul reavaliam relação com a China diante do protecionismo dos EUA
Editorial do Global Times analisa mudança pragmática no Mercosul e aponta possível acordo parcial com Pequim como resposta ao hegemonismo norte-americano
247 – Um editorial do jornal chinês Global Times afirma que uma mudança “silenciosa, mas profunda” está em curso na geopolítica da América do Sul, à medida que países da região passam a reavaliar de forma pragmática suas relações com a China em resposta ao avanço do protecionismo e do hegemonismo dos Estados Unidos. A análise parte de informações divulgadas pela agência Reuters sobre uma possível inflexão do Brasil em relação a negociações entre o Mercosul e Pequim.
Segundo o editorial, pela primeira vez autoridades brasileiras de alto escalão estariam dispostas a apoiar um acordo comercial “parcial” entre o Mercosul e a China. Para o Global Times, esse movimento representa uma mudança relevante na postura da maior economia da América Latina, tradicionalmente cautelosa em relação à abertura comercial com os chineses no âmbito do bloco regional.
Protecionismo dos EUA e o novo cálculo estratégico
O texto sustenta que, enquanto Washington intensifica tarifas e reforça políticas protecionistas, países do hemisfério ocidental são forçados a recalcular suas estratégias de sobrevivência econômica. Na leitura do editorial, o resultado tem sido uma reavaliação pragmática dos laços com Pequim, impulsionada pela percepção de que os parceiros tradicionais oferecem cada vez menos acesso a mercados e cada vez mais barreiras.
O Global Times afirma que os efeitos da pressão dos Estados Unidos já são visíveis em países como México e Panamá, mas argumenta que a mudança mais significativa ocorre no conjunto da América do Sul. De acordo com o jornal, quanto maior o aperto econômico imposto pelo Norte, maior tende a ser a disposição dos países latino-americanos de diversificar parcerias e aprofundar relações com a China.
O papel do Mercosul e a inflexão brasileira
O editorial descreve o Mercosul como uma união aduaneira formada por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, além de Bolívia e Venezuela, esta última apontada como atualmente suspensa. Nesse contexto, o Brasil é retratado como tendo atuado, por décadas, como um “guarda de portão” protecionista do bloco diante da China, temendo que importações asiáticas fragilizassem sua indústria de transformação.
Essa postura, segundo o Global Times, começa a mudar diante do que a Reuters teria descrito como um “novo cenário global”, expressão que o editorial traduz como a combinação entre o crescimento do protecionismo dos Estados Unidos e a atratividade concreta das oportunidades econômicas oferecidas pela China. Para o jornal, o Brasil teria feito as contas e concluído que o unilateralismo norte-americano oferece custos crescentes e poucas alternativas.
"Pela primeira vez, autoridades brasileiras de alto escalão estão considerando impulsionar um acordo comercial ‘parcial’ entre o Mercosul e a China", destaca o editorial.
Obstáculos políticos e a saída do acordo parcial
O Global Times lembra que, historicamente, um acordo amplo entre Mercosul e China foi visto como quase inviável. Entre os entraves, o texto cita as regras da Tarifa Externa Comum do bloco, que limitam negociações individuais, além de obstáculos políticos internos.
O editorial menciona o Paraguai, que mantém relações diplomáticas com a região de Taiwan, o que criaria um impasse jurídico para um acordo de livre comércio abrangente com Pequim. Também aponta a instabilidade política da Argentina, descrita como um pêndulo entre o peronismo protecionista e a atual orientação pró-EUA do presidente Javier Milei, como fator adicional de dificuldade para uma estratégia comum.
Nesse cenário, o acordo “parcial” é apresentado como uma solução pragmática. Diferentemente de um tratado de livre comércio com redução generalizada de tarifas, esse formato contornaria resistências da indústria brasileira e evitariam impasses diplomáticos. O foco estaria em barreiras não tarifárias, como harmonização de regras sanitárias, facilitação aduaneira e definição de cotas de importação.
China, investimento industrial e nova etapa da relação bilateral
O editorial sustenta que a reaproximação com a China vai além do comércio de commodities. Segundo o Global Times, a relação entre Brasil e China já teria evoluído para uma etapa de integração produtiva, com destaque para investimentos industriais chineses no país.
O texto cita a presença de montadoras chinesas de veículos elétricos assumindo antigas fábricas da Ford na Bahia como símbolo dessa transição. Para o jornal, um acordo parcial no âmbito do Mercosul poderia oferecer a base institucional necessária para consolidar esses investimentos e aprofundar a integração das cadeias produtivas.
"Ao deslocar o foco das tarifas para a cooperação regulatória, o Brasil não está apenas facilitando exportações de soja e minério de ferro, mas abrindo caminho para uma integração mais profunda do capital chinês", afirma o editorial.
Global Sul, autonomia e recado a Washington
Na conclusão, o Global Times enquadra esse movimento como expressão da crescente autonomia do Global Sul. Para o jornal, o avanço das conversas entre Mercosul e China indicaria a abertura de um novo caminho, no qual o pragmatismo econômico se sobrepõe a alinhamentos ideológicos rígidos.
O editorial também envia um recado direto a formuladores de política em Washington: tentar conter a dinâmica econômica global por meio de pressão e barreiras tende a acelerar a busca por novos parceiros. Na visão do jornal, as mudanças em curso na América do Sul não representam uma reação passiva ao enfraquecimento da hegemonia, mas uma resposta ativa de países determinados a definir seu próprio destino econômico.



