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"Se o Irã tiver fôlego, Trump será desmoralizado", diz Farinazzo

Comandante avalia desgaste militar dos EUA, alerta para risco de escalada e defende que presidente Lula adie ida a Washington em meio ao conflito

"Se o Irã tiver fôlego, Trump será desmoralizado", diz Farinazzo (Foto: Divulgação | REUTERS)

247 – O comandante Robinson Farinazzo afirmou que o desfecho da guerra em curso tende a ser definido menos pelo “número de mortos” e mais pela capacidade de resistência das partes. Em entrevista à TV 247, aos jornalistas Leonardo Attuch e Joaquim de Carvalho, ele avaliou que, “se o Irã aguentar essa campanha por um bom tempo, Trump vai ficar em situação difícil”.

Ao responder se Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, “está ganhando ou perdendo essa guerra”, Farinazzo destacou que a principal surpresa do conflito foi a reação iraniana. “Ninguém esperava essa reação do Irã. Agora, qual é a questão central? É saber quem vai resistir por mais tempo.”

Segundo ele, há um elemento estrutural de desgaste para os Estados Unidos e seus aliados: “Cada vez que o Irã lança um míssil contra uma base americana ou contra Israel, são necessários dois, às vezes três ou quatro mísseis de defesa aérea para fazer a interceptação.” Ele observou que os mísseis interceptadores são mais caros, mais complexos e mais demorados de fabricar.

Guerra de resistência e custo político

Para o comandante, trata-se de uma “queda de braço” cujo desfecho ainda é incerto. “É uma queda de braço que a gente não sabe quando vai acabar efetivamente.” Ainda assim, foi enfático quanto às consequências políticas para Trump em caso de fracasso: “Se o Trump perder essa guerra, ele está liquidado.”

Questionado sobre a capacidade do Irã de sustentar um conflito prolongado, Farinazzo afirmou que essa é “a pergunta de um bilhão de dólares”, reconhecendo que parte das análises envolve hipóteses. Contudo, declarou como ponto seguro que a China estaria fornecendo informações estratégicas a Teerã. “A China está fornecendo informações de satélite para o Irã. Ponto.”

Ele explicou que esse tipo de dado inclui localização de navios, situação de bases aéreas e outras informações relevantes para o planejamento militar.

China, petróleo e rota da seda

Na avaliação de Farinazzo, o conflito também tem dimensão geopolítica mais ampla. “Eu acho que é para fechar a rota da seda e também para tirar um dos grandes fornecedores de petróleo da China, que é o Irã.”

Ele lembrou que o Irã fornece parcela relevante do petróleo consumido por Pequim e destacou que a China historicamente atua com discrição em seus apoios estratégicos. “A China sempre foi discreta. Nós só vamos saber a extensão desse apoio no término da guerra ou talvez depois.”

Risco de escalada e armas nucleares

Ao tratar da possibilidade de escalada global, Farinazzo alertou para o risco de descontrole caso os estoques de mísseis defensivos dos Estados Unidos se esgotem. Nesse contexto, não descartou um cenário extremo: “Você duvida que uma pessoa como Trump ou Netanyahu poderia usar armas nucleares? Eu não duvido.”

Ele reforçou a preocupação ao lembrar que os Estados Unidos foram o único país a utilizar armas nucleares em guerra. “Eu não duvido que eles usem armas nucleares.”

Brasil, eleições e a viagem de Lula

Sobre o Brasil, Farinazzo defendeu que o país mantenha postura de neutralidade, mas considerou importante condenar o que classificou como ataque “sem justificativa”. Também demonstrou preocupação com possíveis reflexos internos em ano eleitoral, mencionando o risco de instabilidade e violência política.

Nesse contexto, sugeriu que o presidente Lula adie a viagem aos Estados Unidos. “Acho que ele deveria adiar. Vai ser muito constrangedor para uma liderança como o presidente Lula, que é um expoente do Sul Global, sair na foto com Donald Trump neste momento.”

Ele acrescentou: “Sair na foto com Donald Trump neste momento, com crianças sendo enterradas no Irã, é algo muito delicado.”

Ao comentar o cenário político internacional, afirmou: “O que se pode esperar de um presidente que sequestra o presidente de um país soberano? Sequestrou Maduro, ameaça Cuba e agora ataca o Irã sem justificativa.”

Na sua visão, setores neoconservadores dos Estados Unidos não teriam interesse na reeleição de Lula. “Não é do interesse dos neocons uma reeleição do presidente Lula.”

Defesa nacional e diálogo interno

Farinazzo também abordou as limitações estruturais do Brasil na área de defesa, citando fragilidades em sensoriamento, guerra eletrônica e produção de tecnologias estratégicas. Defendeu maior investimento na indústria nacional e ampliação do debate público sobre soberania.

Por fim, enfatizou a necessidade de diálogo entre diferentes campos políticos e as Forças Armadas. “É um erro os militares não conversarem com a esquerda, e é um erro da esquerda não conversar com os militares.” E concluiu: “A esquerda tem que conversar com os militares e vice-versa.”

Na avaliação do comandante, o mundo vive um momento de alta tensão e imprevisibilidade, em que o fator decisivo será a capacidade de resistência e o cálculo político das lideranças envolvidas.

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