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“A cultura deve ser o eixo central do governo Lula 4”, diz Lucélia Santos

Atriz fala sobre feminicídio, políticas culturais, bolsonarismo, China e defende a cultura como projeto estratégico de país

Lucélia Santos (Foto: Youtube / TV 247)

247 - A atriz Lucélia Santos afirmou que a cultura precisa ocupar um papel central no próximo ciclo político do país e deixar de ser tratada como setor secundário nas políticas públicas. Para ela, um eventual governo Lula 4 deve assumir a cultura como eixo estruturante do projeto nacional, tanto do ponto de vista simbólico quanto econômico, com impacto direto na geração de empregos, na soberania cultural e na imagem internacional do Brasil.

As declarações foram feitas em entrevista concedida à TV 247, em conversa com o  jornalista Leonardo Attuch, editor responsável pelo Brasil 247. Lucélia analisou temas como feminicídio, machismo estrutural, assédio, cinema brasileiro, políticas culturais, bolsonarismo, geopolítica internacional e a importância estratégica da Amazônia.

Feminicídio e violência como fenômeno cultural

Ao comentar o pacto nacional contra o feminicídio lançado pelo presidente Lula, Lucélia destacou que a violência contra a mulher não pode ser compreendida apenas como uma sucessão de crimes isolados. “O que está na raiz disso é um problema cultural. O Brasil tem uma cultura profundamente machista, assim como grande parte da América Latina”, afirmou.

Segundo a atriz, os números alarmantes refletem também um agravamento recente da violência social. “Houve um recrudescimento depois do bolsonarismo. A violência em geral aumentou, e a violência contra a mulher vem dentro desse mesmo pacote”, disse. Ela apontou ainda o papel das redes sociais e da disseminação do ódio: “A internet e certos sites que estimulam agressividade e violência criaram um ambiente muito perigoso”.

Lucélia chamou atenção para o uso indiscriminado de hormônios como fator adicional. “Há homens jovens tomando testosterona em níveis muito acima do recomendado. Isso aumenta a agressividade e pode levar a surtos violentos”, alertou.

“É preciso interferir, sim”

Questionada sobre a frase do presidente Lula — “vamos meter sim a colher em briga de marido e mulher” —, a atriz defendeu a intervenção diante de qualquer sinal de violência física. “Quando há agressão, não existe neutralidade possível. Se há violência física, é preciso interferir, sim”, afirmou.

Ela relembrou um episódio da juventude, quando morava com um grupo de teatro e presenciou brigas recorrentes de um casal. “Aquilo descambou para a violência física. E quando há corpos desiguais, a mulher corre risco real. Uma agressão pode ser fatal”, disse.

Para Lucélia, a omissão social ainda é um entrave. “As mulheres muitas vezes sentem vergonha de pedir ajuda, mesmo com os instrumentos que existem hoje. Isso precisa mudar”.

Assédio e limites na televisão

Lucélia relatou ter sofrido assédio antes de ingressar na televisão, ao tentar uma vaga como bailarina. “Fui aprovada no teste técnico, mas ao ir ao escritório para fechar contrato, o diretor trancou a porta e disse que ele mesmo iria ‘tirar as medidas’”, contou. “Foi extremamente humilhante. Consegui sair correndo, mas aquilo me marcou muito.”

Já no ambiente da televisão, ela disse que adotou uma postura rigorosa e focada no trabalho. “Eu tinha uma formação muito sólida como atriz. Era completamente concentrada no trabalho e não admitia qualquer tipo de gracinha”, afirmou. Segundo ela, isso ajudou a impor limites em um meio historicamente machista.

Ao comentar as mudanças de comportamento exigidas hoje, foi direta: “Homens de outras gerações precisam vigiar as palavras. Qualquer deslize pode ter consequências sérias”.

Cinema brasileiro e política de Estado

Ao analisar o momento do cinema nacional, Lucélia destacou que o Brasil sempre teve uma produção artística potente, mas carece de uma política estruturada de indústria e mercado. “O cinema brasileiro nunca foi fraco. O problema sempre foi a ausência de uma política pública consistente de distribuição e fortalecimento do setor”, afirmou.

Ela comparou a situação brasileira ao modelo adotado pela Coreia do Sul. “Eles entenderam que cinema é indústria, é soft power, é economia. Defenderam seu mercado e suas telas”, disse. Para Lucélia, campanhas internacionais bem-sucedidas não deveriam depender apenas do esforço individual de cineastas. “Isso não pode ser responsabilidade exclusiva dos realizadores. É papel do Estado”.

Críticas ao Ministério da Cultura

A atriz reconheceu avanços recentes, como a interiorização de recursos por meio de leis emergenciais, mas fez críticas à estrutura do Ministério da Cultura. “O ministério é uma máquina emperrada, excessivamente burocrática”, avaliou.

Segundo ela, faltou ousadia para repensar o modelo. “Não bastava reabrir o ministério como ele era antes. Era preciso modernizar, desburocratizar, facilitar a comunicação com os fazedores de cultura”, afirmou. Lucélia também criticou a concentração das decisões em Brasília e defendeu uma presença territorial mais forte.

Cultura no centro do projeto nacional

Na parte mais enfática da entrevista, Lucélia defendeu que a cultura deixe de ocupar uma posição marginal no orçamento público. “A cultura não pode ser o rabo da fila do Orçamento da União”, disse. Para ela, o setor precisa ser tratado com grandeza: “A cultura tem que ser grande, tem que ocupar um lugar estratégico”.

Ela usou uma comparação simbólica para ilustrar sua visão. “No lugar do discurso ‘o agro é pop’, o país deveria dizer: o cinema brasileiro é forte, é valioso, é nosso”, afirmou, destacando que cultura gera riqueza e projeção internacional.

Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, e riscos globais

Ao comentar o cenário internacional, Lucélia expressou forte preocupação com Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos. “Ele não pode ser tratado apenas como uma figura folclórica. Por trás das encenações, há movimentos muito sérios e perigosos”, disse.

Ela mencionou declarações envolvendo territórios e recursos estratégicos, incluindo a Amazônia. “Essa disputa por terras raras é real. O Brasil precisa estar atento, porque isso vai nos atingir diretamente”, alertou.

China, reconhecimento internacional e Amazônia

Lucélia também falou sobre sua relação histórica com a China e o papel da cultura no fortalecimento das relações entre os países. “A China entendeu cedo o valor da cultura como instrumento de projeção internacional”, afirmou.

Ao final, deixou uma mensagem voltada ao futuro do Brasil. “O país precisa assumir um compromisso real com a paz e com a preservação da Amazônia”, disse. Para ela, isso passa necessariamente pelo respeito aos povos originários. “São eles que mantêm a floresta viva. Sem eles, não há água, não há futuro”, concluiu, defendendo que a cultura seja parte central dessa estratégia de soberania e desenvolvimento.

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