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Galípolo diz que Banco Central está "um pouquinho mais para o lado conservador"

Presidente do Banco Central afirma que novos fatos “não alteraram a conjuntura como um todo para que a gente alterasse a nossa trajetória” de juros

Presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante coletiva de imprensa, em Brasília - 27/03/2025 (Foto: REUTERS/Adriano Machado)

247 - O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a autoridade monetária mantém uma postura cautelosa e conservadora diante do cenário global incerto e ressaltou que novos acontecimentos internacionais não foram suficientes para mudar a estratégia de juros. Segundo ele, a condução da política monetária segue baseada na análise criteriosa de dados econômicos, sem alteração na trajetória definida, conforme declarou nesta segunda-feira (30), durante evento em São Paulo. 

Durante seminário promovido pelo Banco Safra, Galípolo defendeu a atuação do Banco Central em um ambiente marcado por tensões geopolíticas, como a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, e seus possíveis impactos sobre a economia global. Ele destacou que a instituição busca agir com equilíbrio diante das incertezas. “Agora, mais do que nunca, temos de separar o ruído do sinal. Isso será ainda mais importante para guiar as reações que o BC deve ter. O BC sempre vai continuar agindo de forma serena e parcimoniosa”, afirmou.

O chefe da autoridade monetária também enfatizou que a inclinação conservadora faz parte da lógica de funcionamento do Banco Central. “É normal que o BC esteja sempre um pouquinho mais para o lado conservador. Mas temos toda uma governança justamente para aparar as pontas, para que não tenhamos posições mais extremadas. É por isso que é um colegiado”, disse.

Apesar do agravamento do cenário externo, especialmente com a volatilidade nos preços do petróleo, Galípolo afirmou que o Copom decidiu manter o rumo previamente traçado para a política monetária. A taxa Selic está atualmente em 14,75% ao ano, após uma redução de 0,25 ponto percentual na última reunião.

Segundo ele, o mercado passou a incorporar a expectativa de manutenção de juros elevados antes de novos cortes. “Gradativamente, a posição de manutenção de 15% por um período mais prolongado foi ganhando confiança dentro do mercado. Depois começa um debate sobre quando deveria cortar. E iniciamos o ciclo de cortes por 25 pontos-base”, explicou.

O presidente do Banco Central reiterou que os acontecimentos recentes não alteraram o cenário de forma estrutural. “Mesmo diante de novos fatos, eles não alteraram a conjuntura como um todo, à luz do que vem acontecendo, para que a gente alterasse a nossa trajetória. Decidimos seguir com a trajetória e começar o ciclo de calibragem da política monetária”, acrescentou.

Ao descrever a forma de atuação da instituição, Galípolo comparou o Banco Central a uma embarcação de grande porte, destacando a previsibilidade nas decisões. Segundo ele, o BC é “mais um transatlântico do que um jet ski” e evita “fazer movimentos bruscos ou extremados”, mesmo em períodos de maior instabilidade.

Mesmo com o ambiente internacional desafiador, Galípolo avaliou que o Brasil apresenta condições relativamente mais favoráveis. Ele apontou que o país se beneficia por ser exportador líquido de petróleo e por operar com juros em patamar mais elevado, o que contribui para enfrentar choques externos. “O Brasil se beneficia de ser um exportador líquido de petróleo. Isso nos coloca em uma situação mais favorável. E também o diferencial de juros, o fato de estarmos em um patamar mais contracionista”, disse.

A questão fiscal também foi abordada durante o evento. O presidente do BC reconheceu que o tema preocupa o mercado e segue sendo acompanhado de perto pela autoridade monetária. “Temos falado bastante sobre a questão fiscal desde a Covid. Tivemos um processo de gastos que elevou o endividamento dos países avançados”, afirmou, ressaltando que, ainda assim, o Brasil apresenta uma posição relativamente melhor em comparação a outros países.

Nos comunicados recentes, o Copom destacou o aumento da incerteza global diante dos conflitos no Oriente Médio, com impactos sobre mercados financeiros e preços de commodities. O colegiado reafirmou a necessidade de cautela e indicou que o atual cenário pode exigir juros mais elevados por um período prolongado, diante de expectativas inflacionárias ainda desancoradas.

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