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ANJL contesta estudo que liga bets ao endividamento

Entidade aponta falhas metodológicas e ausência de dados reais sobre gastos com apostas

Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL

247 - A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) contestou, nesta quinta-feira (26), as conclusões de uma pesquisa que aponta as apostas online como principal fator do crescimento do endividamento das famílias brasileiras entre 2011 e 2025. A entidade afirma que o levantamento apresenta inconsistências metodológicas e não se sustenta em dados oficiais de crédito e consumo. Segundo a ANJL, o estudo - elaborado pelo Ibevar em parceria com a FIA Business School - estabelece relações sem medir, de forma objetiva, quanto as famílias efetivamente gastam com apostas no país.

Entidade questiona uso de dados de redes sociais

O levantamento analisado busca explicar a evolução do endividamento com base em quatro variáveis: a relação entre crédito e renda das famílias, a taxa de juros das operações para pessoa física, o tempo decorrido desde 2011 e um indicador de “interesse por apostas”, extraído do comportamento nas redes sociais.

A ANJL considera que essa última variável apresenta fragilidade conceitual. Segundo a entidade, o indicador mede apenas a atenção dedicada ao tema nas plataformas digitais, sem quantificar os recursos financeiros efetivamente destinados às apostas.

Estudo não comprova impacto financeiro das apostas

Na avaliação da associação, a metodologia adotada associa o aumento do endividamento à visibilidade do tema, e não a gastos concretos. Com isso, períodos de maior exposição pública — como os debates em torno da chamada “CPI das Bets” — poderiam ser interpretados como fatores explicativos do aumento das dívidas.

A ANJL sustenta que essa abordagem impede a identificação de relações de causa e efeito. Para a entidade, uma análise adequada exigiria dados sobre os desembolsos reais com apostas em proporção à renda das famílias.

Outro ponto destacado é que juros e acesso ao crédito são, por natureza, os mecanismos diretos de formação de dívidas. Segundo a associação, gastos com apostas podem afetar o orçamento, mas só se transformam em dívida quando há utilização de instrumentos de crédito — aspecto que, segundo a entidade, não foi considerado na pesquisa.

Dados oficiais indicam gastos baixos

A associação também cita dados do Ministério da Fazenda, segundo os quais mais da metade dos brasileiros que apostam declara gastar até R$ 50 com essa atividade. Apenas uma parcela minoritária informa despesas mais elevadas.

Para a ANJL, essa distribuição indica que as apostas representam uma fração limitada do orçamento da maioria das famílias, o que não sustentaria a hipótese de que sejam o principal fator do endividamento no país.

Associação critica série de juros apresentada

A entidade questionou ainda a base de dados de juros utilizada no estudo. Segundo a ANJL, a série apresentada não reflete os ciclos da política monetária conduzida pelo Banco Central ao longo dos últimos anos.

De acordo com a associação, os dados oficiais mostram queda nas taxas até 2013-2014, alta em 2015-2016, nova redução até 2019 e elevação entre 2021 e 2023. Esse comportamento, segundo a entidade, não aparece no gráfico apresentado pela pesquisa, que indicaria estabilidade em um período marcado por oscilações.

A ANJL também ressalta que o próprio estudo reconhece a relação entre juros e crédito, variáveis que evoluem de forma correlacionada ao longo dos ciclos econômicos. Ainda assim, segundo a entidade, a pesquisa compara diretamente esses fatores com o impacto atribuído às apostas, tratando-os como independentes.

A associação defende que análises sobre endividamento devem se basear em dados concretos e respeitar as relações causais da teoria econômica. “Em síntese, o estudo levanta uma hipótese relevante, mas não apresenta evidências robustas para sustentar que as apostas online tenham se tornado o principal fator de endividamento das famílias no Brasil”, declarou Plínio Lemos Jorge, presidente da ANJL.

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