HOME > Cultura

O diabo veste Prada 2: uma reflexão sobre a crise e os dilemas do jornalismo na era digital

Sequência do clássico transforma revista de moda em metáfora do colapso da velha imprensa diante das big techs e dos bilionários da era digital

O diabo veste Prada 2: uma reflexão sobre a crise e os dilemas do jornalismo na era digital (Foto: Divulgação)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 – “O Diabo Veste Prada 2”, em cartaz nos cinemas, chega vinte anos depois muito menos como uma comédia sobre os bastidores da moda e muito mais como uma alegoria melancólica sobre a crise estrutural do jornalismo contemporâneo. Duas décadas depois do filme original, Miranda Priestly retorna não apenas como uma editora temida, mas como símbolo de um modelo de mídia em declínio, esmagado pela lógica das plataformas digitais, pela precarização do trabalho jornalístico e pela ascensão de bilionários da tecnologia como novos donos da informação. Diversas análises internacionais apontaram que o longa se transformou numa reflexão sobre o colapso das revistas impressas e sobre o poder crescente das big techs sobre a cultura e a comunicação.

No centro da trama está justamente a decadência da revista Runway, inspirada na Vogue, agora pressionada por cortes, perda de relevância e dependência de investidores externos para sobreviver. Andy Sachs, interpretada novamente por Anne Hathaway, retorna ao universo da revista depois de sofrer uma demissão em massa no jornal onde trabalhava — um retrato brutal da realidade contemporânea das redações. Em uma das cenas mais simbólicas do filme, jornalistas são dispensados por mensagem de texto durante um evento de gala, numa referência direta à brutalidade corporativa da era digital.

O velho jornalismo sob tutela dos bilionários

A principal camada política do filme aparece na figura do bilionário Benji Barnes, personagem interpretado por Justin Theroux. Embora a roteirista Aline Brosh McKenna tenha evitado confirmar oficialmente a inspiração, praticamente toda a crítica internacional enxergou no personagem uma representação evidente de Jeff Bezos.

Benji Barnes é um magnata da tecnologia interessado em comprar a Runway e transformar a publicação em uma plataforma movida por inteligência artificial, algoritmos e métricas de engajamento. O paralelo com Bezos é quase inevitável: um bilionário oriundo da tecnologia, associado à destruição de modelos tradicionais de negócios, tentando assumir o controle de um ícone cultural da mídia impressa.

As semelhanças vão além da estética ou do perfil empresarial. O roteiro dialoga diretamente com o ambiente contemporâneo em que conglomerados de mídia tradicionais passaram a depender de fortunas bilionárias para continuar existindo.

O Washington Post pertence a Jeff Bezos. O Los Angeles Times foi comprado pelo empresário Patrick Soon-Shiong. A revista Time passou ao controle de Marc Benioff, fundador da Salesforce. Em vários países, fundos financeiros e conglomerados tecnológicos passaram a determinar os rumos editoriais da imprensa tradicional.

A mensagem implícita em “O Diabo Veste Prada 2” é perturbadora: o velho jornalismo, incapaz de sobreviver apenas com assinaturas e publicidade tradicional, tornou-se refém do capital ultraconcentrado.

O algoritmo venceu a reportagem

Outro eixo importante da obra é a crítica à transformação do conteúdo jornalístico em produto algorítmico. Em vários momentos, personagens lamentam que “ninguém mais lê revistas”, enquanto a Runway é obrigada a produzir conteúdo barato, veloz e voltado ao clique.

A tensão entre jornalismo sério e lógica digital aparece sobretudo em Andy Sachs, agora uma jornalista respeitada que tenta preservar algum compromisso ético num ambiente dominado por viralização, influência de redes sociais e inteligência artificial.

O filme sugere que o problema não é apenas econômico, mas também cultural: a autoridade editorial foi substituída pela lógica do engajamento. O algoritmo passou a decidir o que merece atenção pública.

Nesse cenário, Miranda Priestly deixa de ser apenas uma editora autoritária. Ela se transforma numa espécie de sobrevivente de um mundo que desaparece diante de seus olhos. Sua arrogância já não intimida como antes porque o poder mudou de mãos. Agora ele pertence aos donos das plataformas, aos investidores de tecnologia e aos controladores dos dados.

A inteligência artificial e o medo da irrelevância

Um dos momentos mais reveladores do longa ocorre quando Benji Barnes apresenta sua visão de futuro baseada em inteligência artificial aplicada à produção editorial. Miranda reage com horror ao perceber que criatividade, curadoria e sensibilidade estética podem ser substituídas por automação e análise de dados.

O subtexto é claro: a crise atual do jornalismo não é apenas financeira, mas existencial. O temor expresso no filme é o mesmo que ronda o mercado real: haverá espaço para jornalistas, editores e criadores humanos num ecossistema governado por plataformas e máquinas?

Entre nostalgia e denúncia

Embora mantenha o glamour, os diálogos ácidos e o universo sofisticado do primeiro filme, “O Diabo Veste Prada 2” funciona sobretudo como uma denúncia elegante do esvaziamento do jornalismo tradicional.

A Runway do segundo filme já não representa apenas uma revista de moda. Ela simboliza toda uma indústria cultural que perdeu autonomia e agora precisa negociar sua sobrevivência com oligarcas digitais.

No fundo, o filme sugere que Miranda Priestly não é mais a personagem mais poderosa da sala. O verdadeiro poder pertence agora aos bilionários invisíveis que controlam plataformas, infraestrutura tecnológica e fluxo de informação.

E talvez seja justamente essa a grande tragédia do jornalismo contemporâneo: ter trocado a dependência dos anunciantes pela dependência dos donos do Vale do Silício.

Artigos Relacionados