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Sucesso da DeepSeek impulsiona expansão da inteligência artificial chinesa

Modelo generativo de baixo custo fortalece startups, atrai investimentos e desafia a hegemonia dos Estados Unidos no setor global de IA

DeepSeek (Foto: Divulgação)

247 - A rápida ascensão da DeepSeek transformou o cenário da inteligência artificial na China e reposicionou o país na disputa tecnológica global. Antes de ganhar projeção internacional, a startup chinesa enfrentou sucessivas crises financeiras e chegou a ficar perto da falência. A virada ocorreu com o lançamento, em janeiro de 2025, de um modelo de IA generativa de baixo custo, com desempenho comparável ao do ChatGPT e de outros chatbots americanos, o que desencadeou um novo ciclo de confiança e investimentos no ecossistema chinês de tecnologia. As informações são da AFP.

O sucesso do DeepSeek passou a ser visto como um marco ao colocar em xeque a expectativa de hegemonia dos Estados Unidos no setor, mesmo em um contexto de rivalidade geopolítica e restrições comerciais impostas à China.

De acordo com dados da Similarweb, empresa de análise de tráfego na internet, a DeepSeek responde atualmente por 4% do mercado global de chatbots. O ChatGPT lidera com 68%, seguido pelo Gemini, do Google, com 18%. Apesar da participação ainda modesta, o impacto simbólico da plataforma é significativo. Wu Chenglin, fundador da DeepWisdom, afirmou à AFP que o surgimento da DeepSeek “deu muita confiança a muitas pessoas”.

A DeepWisdom, cujo principal produto é uma plataforma de desenvolvimento de software com inteligência artificial, enfrentava dificuldades para se manter, mesmo com boa aceitação entre programadores. O novo ambiente de otimismo permitiu à empresa captar 220 milhões de yuans, cerca de US$ 30 milhões, em duas rodadas de financiamento ao longo do último ano.

O movimento se reflete também no mercado de capitais e no setor de investimentos. Em Pequim, a Jinqiu Capital fechou acordos com mais de 50 empresas de IA nos últimos 12 meses. A vice-presidente do fundo, Shi Yaqiong, destacou à AFP um “aumento claro” no entusiasmo em torno da inteligência artificial chinesa desde o avanço do DeepSeek. Segundo ela, “projetos que tinham uma avaliação inicial de US$ 10 a 20 milhões em 2024 terão uma avaliação inicial de cerca de US$ 20 a 40 milhões em 2025”.

O crescimento ocorre em meio à euforia global com o potencial da inteligência artificial, que tem impulsionado bolsas de valores a patamares recordes. As estreias das startups chinesas Zhipu AI e MiniMax na Bolsa de Hong Kong, neste mês, registraram forte valorização das ações. Ao mesmo tempo, investidores acompanham com cautela os sinais de possível formação de uma bolha, questionando quando essas empresas alcançarão a lucratividade.

Apesar das restrições impostas pelos Estados Unidos ao acesso chinês a chips avançados fabricados pela Nvidia, jovens empreendedores seguem apostando no setor. Para o empresário Li Weijia, os controles de exportação tornam mais provável que a IA chinesa seja “de código aberto e barata”, característica que, segundo ele, pode ampliar seu impacto social.

A disponibilidade de mão de obra especializada também favorece o avanço da área. A plataforma de recrutamento Zhilian Zhaopin registrou aumento de 39% nas candidaturas para vagas ligadas à inteligência artificial no primeiro trimestre de 2025, logo após o lançamento do DeepSeek.

Criada em 2023 como um projeto paralelo de um fundo de hedge em Hangzhou, polo tecnológico chinês, a DeepSeek teve origem a partir de uma iniciativa liderada por Liang Wenfeng, que contava com acesso a processadores Nvidia de alto desempenho. A decisão de tornar públicos os mecanismos internos de seus sistemas, em contraste com os modelos fechados adotados por concorrentes ocidentais, ampliou sua adoção por desenvolvedores e empresas.

Neil Shah, da Counterpoint Research, avaliou que as ferramentas da DeepSeek tiveram “forte adoção em mercados emergentes” sensíveis ao custo. Ele observou ainda que usuários ocidentais demonstram maior cautela, “principalmente devido a preocupações com privacidade e segurança nacional”.

No mercado interno, o potencial é expressivo. Até junho de 2025, mais de 500 mil internautas chineses relataram o uso de produtos de IA generativa, segundo o Centro de Informação da Rede de Internet da China. A empreendedora Yang Yiwen contou que seus pais tiveram o primeiro contato com a tecnologia durante o Ano Novo Chinês de 2025, ao vê-la utilizar o DeepSeek para planejar uma viagem em família. “Eles acharam divertido”, relatou.

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