Investida dos EUA contra soberania brasileira anima campanha de Flávio Bolsonaro e preocupa Lula
O governo Donald Trump decidiu classificar o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas. Impactos econômicos e de soberania são esperados
247 - A decisão dos Estados Unidos de classificar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas ampliou a disputa política no Brasil, animou a pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e provocou preocupação no governo do presidente Lula (PT) diante de possíveis impactos econômicos, diplomáticos e de soberania nacional, relata o jornal O Globo.
O anúncio foi feito pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, dois dias depois de Flávio Bolsonaro visitar a Casa Branca e apresentar o pedido ao presidente Donald Trump. A medida surpreendeu integrantes do governo brasileiro, que vinha atuando havia meses para evitar a classificação das facções criminosas como organizações terroristas.
Segundo o comunicado divulgado pelas autoridades americanas, CV e PCC são “duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”. O texto afirma que os grupos passaram a ser classificados como Terroristas Globais Especialmente Designados, categoria conhecida pela sigla em inglês SDGT. As facções também devem receber, a partir de 5 de junho, a designação de Organizações Terroristas Estrangeiras, chamadas de FTOs.
O comunicado americano diz ainda que as duas organizações “comandam milhares de membros” e teriam organizado ataques contra policiais, funcionários públicos e civis brasileiros. A nota sustenta que a influência e as redes ilícitas dos grupos extrapolam as fronteiras do Brasil e alcançam outros países da região e os próprios Estados Unidos.
Impactos financeiros e diplomáticos
A classificação como Organização Terrorista Estrangeira torna ilegal fornecer “apoio material ou recursos” a grupos incluídos na lista. Instituições financeiras dos Estados Unidos que identifiquem fundos ligados a essas organizações ficam obrigadas a reter os valores e comunicar o caso ao Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro americano.
Já a designação como Terrorista Global Especialmente Designado prevê o bloqueio automático de propriedades eventualmente localizadas nos Estados Unidos. Americanos ou pessoas que estejam no país também ficam impedidos de realizar transações envolvendo bens ou interesses vinculados aos grupos designados.
A amplitude da medida preocupa setores do governo brasileiro porque o crime organizado tem presença em áreas formais da economia. Essa infiltração poderia aumentar o risco de sanções e gerar efeitos sobre o mercado financeiro, caso empresas ou operações sejam associadas, direta ou indiretamente, a estruturas controladas por facções.
No campo diplomático, a decisão também acende alertas. Os Estados Unidos já utilizaram o combate ao chamado “narcoterrorismo” como argumento para ações fora de seu território. A lista americana de organizações consideradas terroristas inclui grupos como Al Qaeda e Hezbollah.
Flávio tenta transformar decisão em ativo eleitoral
No campo político, aliados de Flávio Bolsonaro passaram a tratar a decisão americana como um trunfo para a pré-campanha presidencial. A avaliação do entorno do senador é que o tema da segurança pública pode ganhar centralidade, especialmente após semanas de desgaste provocadas pela revelação de mensagens trocadas entre Flávio e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
A estratégia do grupo é associar o senador a uma agenda de endurecimento contra o crime organizado e reforçar sua aproximação com o trumpismo. A visita à Casa Branca passou a ser apresentada por aliados como demonstração de articulação internacional em torno de uma pauta sensível para o eleitorado brasileiro.
Após o anúncio, Flávio comemorou a medida nas redes sociais e afirmou: “Em uma viagem como presidenciável, fizemos mais pelo Brasil e pela segurança dos brasileiros do que o PT e Lula em seus 17 anos de mandato. Enquanto Lula foi de joelhos atrás do Trump fazer lobby a favor do PCC e CV, eu fui trabalhar para que fossem tratados como terroristas”.
O senador também classificou a decisão como um “grande dia”. O publicitário Eduardo Fischer, responsável pela estratégia do pré-candidato, disse que a medida representa uma “proteção ao povo brasileiro, que vai se desvencilhar do perigo”.
Governo Lula calibra reação
No governo Lula, a ordem é medir cuidadosamente o tom da resposta. Embora integrantes do Palácio do Planalto avaliem que a legislação brasileira trata terrorismo de forma distinta dos crimes praticados por facções, há receio de que uma reação considerada branda seja explorada politicamente por adversários como sinal de leniência com o crime organizado.
A segurança pública é vista pelo governo como um tema eleitoralmente sensível. O impacto cotidiano da violência sobre a população e a percepção de que a esquerda é vulnerável nesse debate levam auxiliares do presidente a evitar declarações que possam reforçar ataques da oposição.
No encontro recente entre Lula e Trump, o presidente afirmou que o tema não foi tratado. Depois da reunião, porém, defendeu a criação de um grupo de trabalho voltado ao enfrentamento do crime organizado. A proposta indicava uma disposição do governo brasileiro de ampliar a cooperação internacional, sem aceitar enquadramentos que possam afetar a soberania nacional.
A surpresa no Planalto foi reforçada pelo fato de que, no início da semana, o ministro Wellington Lima e Silva havia afirmado ao jornal O Globo que não via a adoção da medida em um “horizonte próximo”. A decisão americana, portanto, contrariou a avaliação expressa por integrantes do governo brasileiro.
Celso Amorim cita soberania nacional
Até o momento, a manifestação mais direta do governo partiu de Celso Amorim, ex-chanceler, assessor especial da Presidência e conselheiro de Lula para assuntos internacionais. Horas antes da decisão dos Estados Unidos, Amorim já havia afirmado, em discurso durante um fórum na Rússia, que a classificação das facções como terroristas não seria o melhor caminho.
Depois da oficialização da medida, o assessor defendeu a cooperação entre países no combate ao crime organizado, mas alertou contra qualquer uso da decisão como justificativa para violar a soberania brasileira.
“Segurança pública é um tema fundamental para o desenvolvimento socioeconômico. Crime organizado é um mal que tem que ser combatido. Cooperação internacional é bem-vinda, especialmente em temas como lavagem de dinheiro e contrabando de armas. Pretexto para intervenção é inaceitável”, afirmou Amorim em nota.
A decisão dos Estados Unidos ocorre em um momento de aproximação diplomática entre Brasília e Washington, após o período de tensão provocado pelo tarifaço. Com a nova classificação, o tema da segurança pública passa a ocupar um espaço ainda mais sensível na relação bilateral e tende a ser explorado na disputa política brasileira.



