A China! Impressiona
A China é um exemplo
No artigo, China! Impressiona qualquer visitante | Brasil 247, expressei as minhas primeiras impressões sobre uma visita à China, recebi comentários de diversos amigos; uns críticos, alegando que a China seria uma ditadura comunista e que eu não poderia elogiar este tipo de regime, outros exaltados ao afirmar que a China seria um país socialista a caminho de o se tornar exemplo para o mundo, a nova utopia ou farol para os socialistas e comunistas, e outros estupefatos ao dizer: “eu também fui e voltei impressionado, é uma coisa…!”.
Para deixar claro, não acho que exista um farol para o mundo, cada país tem a sua própria história. No momento em que vivemos, por mais paradoxal que possa parecer, a globalização da economia mundial aprofundou as disputas entre os diversos países e os interesses nacionais prevalecem sobre as causas humanitárias e mundiais. Em parte, isto explica o desmantelamento dos organismos internacionais e o acirramento de muitas guerras neste primeiro quartil do século XXI. A máxima de que na política internacional não tem mocinho nem bandido, só interesses de países, nunca foi tão verdadeira. A presença dos EUA na Venezuela é um bom exemplo; o que está em questão não é a ditadura ou a ilegitimidade de Maduro e sim os mais de 300 bilhões de barris de petróleo por lá já descobertos.
Na China tudo é impressionante, a dimensão, o mercado interno, o crescimento acelerado nos últimos 40 anos, os avanços tecnológicos e, entre tantas outras coisas, a sobrevivência do seu regime de tipo socialista, numa conjuntura de debacle internacional do chamado comunismo hegemonizado pelo estalinismo e pela concepção autointitulada de leninista. O regime chinês é um tipo do que os leninistas chamam de ditadura do proletariado, Estado e Nação organizados por um planejamento econômico, cultural, político e social dirigidos pelo Partido Comunista chinês, único partido existente. O fato de existir economia de mercado e liberdade de ir e vir, dentro dos parâmetros estabelecidos pelo planejamento estatal do país, não pode levar a alguém concluir que a China seja capitalista, é o principal país socialista da atualidade e diferente da antiga União Soviética, constrói o seu socialismo sem aspiração, até o momento, de exportar o seu modelo e sim de se afirmar como a principal potência tecnológica e comercial do mundo, a “parceira da paz e do desenvolvimento mundial”.
A China ainda está muito longe de se igualar ao poderio econômico e militar dos EUA; se considerarmos os gastos militares dos EUA em 2024, cerca de 1 bilhão de dólares, 37% do total de gastos do mundo, sozinhos gastaram mais que Rússia, China, Inglaterra, França, Alemanha e Itália juntos; em termos de poderio atômico a diferença é ainda maior, os EUA têm mais mais de 5300 ogivas, enquanto a China tem em torno de 500; apesar do acelerado crescimento econômico China, o PIB dos EUA representa mais ou menos o dobro do chinês. O dado novo na geopolítica mundial é o isolamento paulatino dos EUA. A recente eleição de Trump, a meu ver, enfraqueceu os EUA, não só militarmente, como economicamente e também culturalmente. Até o trampismo hegemonizar a política americana, os EUA se afirmavam como o defensor da democracia e o articulador da economia e da cultura ocidental. Em que pese as diferenças com a Europa, os EUA eram quase uma unanimidade, suas forças se somavam a todos os países ocidentais e aos países aliados do leste. Hoje, os EUA se apresentam como os predadores do mundo, sem pejo não mascaram a ganância para mandar e sorver todas as riquezas do mundo. A política “Make America Great Again”, difundida por Trump, expressa este sentimento e tem criado problemas aos EUA com os europeus, com a Índia, com o Japão e principalmente para os próprios EUA. Agora é cada um por si e, nesta “lei de Murici”, a China tem levado vantagem e tem expandido a sua presença no mundo econômica e politicamente. A guerra fria está estabelecida com as disputas sobre o desenvolvimento das novas tecnologias; os metais críticos e terras raras; a produção de energia em larga escala; o controle da produção refino e comercialização do petróleo e o desenvolvimento da inteligência artificial.
Este é um grande dilema geopolítico para o Brasil. O Brasil não pode se colocar como aliado estratégico dos EUA e nem da China. A base da nossa geopolítica deve se pautar pelo pragmatismo, a neutralidade e um projeto nacional de desenvolvimento que coloque em primeiro plano os interesses nacionais.
Temos que, em pouco tempo, resolver questões estruturais para ocuparmos uma posição de protagonismo no mundo. As ideias ingênuas de ambientalistas fundamentalistas, que priorizam as discussões climáticas mundiais, como se no mundo para melhorar o clima o fundamental fosse impedir que o Brasil explorasse a suas riquezas; a insegurança jurídica, que dificulta o investimento; a educação de péssima qualidade e a formação inadequada da mão de obra; a imensa concentração de renda; a falta de infraestrutura com portos, aeroportos, hidrovias, ferrovias, infovias, satélites georeferenciados, entre outras coisas, e a política polarizada entre ideológicos que acham que ser de direita é vestir o boné da MAGA, se embolar com os americanos e torcer para a crise da China, de um lado e de outro a chamada esquerda representada pelo governo federal, que confunde a totalidade dos interesses nacionais com as políticas identitárias e com o fundamentalismo ambiental, que impedem o nosso desenvolvimento.
O Brasil pode superar esse atraso e encontrar um rumo, pois pouquíssimos países detêm condições como às nossas: temos a maior fronteira agrícola do mundo e tecnologia de ponta para produzir alimentos; temos as maiores bacias hidroviárias para hidrovias e para produzir energia elétrica; temos uma das maiores reservas de minerais críticos, essenciais e os 17 elementos chamados de terras raras, não são raros, mas são difíceis de explorar e processar; temos riquezas inestimáveis e adormecidas no Atlântico e no subsolo da Amazônia e sabemos preservar as florestas, temos um código florestal que nenhum país possui e temos exemplo da exploração de petróleo em alto mar e na floresta amazônica.
Hoje, a China produz a maior parte dos carros elétricos, as baterias de lítio, as turbinas para energia eólica e os painéis para energia solar; nenhuma destas tecnologias surgiu na China. No início do século XXI os EUA produziram o primeiro veículo elétrico, em 1941 a primeira turbina e em 1954, cientistas dos laboratórios Bell criaram a primeira célula fotovoltaica de silício, mas com projeto nacional, planejamento estratégico de longo prazo e determinação, hoje é a China que domina estas tecnologias. O Brasil não pode ser o exportador de terras raras, de ferro e de metais críticos e importador de produtos com valor agregado. O Brasil não pode ter a segunda maior reserva do mundo de terras raras e não explorá-la porque encontra-se em terras indígenas, pois o subsolo pertence à União e não ao dono ou ocupante do solo.
No meio da guerra fria, os contendores principais são a China e os EUA, como figura média está a Europa, capitaneada por Alemanha e França, a Inglaterra, a Rússia, e mais alguns países, como Índia, Brasil, Japão, estão à procura de um ou do seu espaço.
A China é impressionante e um exemplo, não pelo seu regime, esta é outra discussão, mas pela sua capacidade de em 4 décadas ter evoluído de um país atrasado para a segunda maior potência mundial; de, neste período, ter reduzido a pobreza, incorporado os seus habitantes ao desenvolvimento e de ser referência para qualquer discussão no mundo sobre temas científico, bélico e tecnológico. Lá, houve mudança política com a assunção de Deng Xiaoping. O Brasil pode, se nosso povo assim entender, fazer boas escolhas na política. O Brasil precisa de quem tem fé no Brasil, de paz, menos polarização e de desenvolvimento econômico.
Deixo, para encerrar este artigo, um trecho de uma música de Belchior:
“Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria,
Em nenhuma fantasia, nem no algo mais
Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia
Amar e mudar as coisas me interessa mais”
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



