Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Telemedicina nos países do BRICS: como recurso complementar se torna parte essencial da saúde

Como tecnologias ajudam a compensar falta de especialistas, superar distâncias e reduzir desigualdades no acesso à assistência médica nos países do BRICS?

Telemedicina (Foto: IA)
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247 - Atualmente, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), 40% dos países do mundo têm menos de 10 médicos para cada 10 mil habitantes. Essa distribuição também é desigual. Muitas vezes, dezenas ou centenas de quilômetros separam os pacientes do atendimento médico qualificado. Nesses casos, a possibilidade de realizar diagnósticos remotamente e coletar dados para análises preditivas com apoio da inteligência artificial pode salvar muitas vidas. Amplamente difundida durante a pandemia de Covid-19, a telemedicina se torna uma parte cada vez mais importante dos sistemas de saúde no mundo, relata reportagem da TV BRICS

"Atualmente, a telemedicina deixou de ser uma "opção complementar" e se transformou em uma parte absolutamente essencial dos sistemas de saúde em todo o mundo. Para os países do BRICS, isso é especialmente importante: grandes distâncias muitas vezes provocam uma distribuição desigual de médicos e aumentam a pressão sobre os sistemas de saúde. A telemedicina é uma ferramenta que permite reduzir rapidamente a lacuna no acesso à assistência médica", afirmou Margarita Isakova, especialista em diplomacia acadêmica e científica, promoção da educação russa no exterior, cooperação internacional em saúde e pesquisas médicas internacionais.

No âmbito do BRICS, existe um reconhecimento comum de que a telemedicina é um elemento central para alcançar a igualdade na saúde, afirma, em entrevista à TV BRICS, a pesquisadora em saúde digital no Sistema Único de Saúde (SUS) do Brasil e mestra em gestão do cuidado em enfermagem Vitória Davi Marzola. O nível de desenvolvimento dessa área varia entre os países do grupo, mas a tendência é a mesma: crescimento rápido e transição de projetos-piloto para soluções em escala.

Ao mesmo tempo, alguns projetos são desenvolvidos de forma conjunta pelos países do BRICS. O Brasil e a China, por exemplo, cooperam na criação dos chamados hospitais inteligentes. Um desses projetos, baseado no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, prevê a implementação de sistemas de inteligência artificial para diagnóstico, ambulâncias com conexão 5G rápida e de qualidade e tecnologias de telemedicina para consultas on-line. A iniciativa brasileira conta com apoio técnico da China.

Telemedicina nos países do BRICS

A China é hoje reconhecida como líder mundial na digitalização da saúde. A telemedicina no país forma um amplo ecossistema, que abrange milhares de hospitais e atende dezenas de milhões de pessoas. O sistema inclui consultas on-line, quiosques médicos com IA, hospitais virtuais e entrega rápida de medicamentos. Esses recursos passaram a ser usados de forma especialmente ativa durante o surto de Covid-19.

Atualmente, o país implementa o conceito "internet mais saúde" (IPHC, na sigla em inglês), que inclui consultas remotas. Plataformas comerciais também funcionam. No entanto, a China mantém restrições bastante rígidas ao uso da telemedicina. As consultas remotas são permitidas apenas em atendimentos de retorno, para pacientes que já passaram por consulta presencial. Além disso, instituições médicas e profissionais precisam ter licença, o uso de plataformas estrangeiras para a prestação de serviços de telemedicina costuma ser proibido, e todos os dados dos pacientes ficam armazenados em servidores especiais dentro do país. Antes da teleconsulta, exige-se a identificação do paciente por meio de sistemas nacionais.

De acordo com o 55º relatório estatístico sobre o desenvolvimento da internet na China, em janeiro de 2025 as consultas de telemedicina já estavam disponíveis para moradores de todos os distritos e cidades. Mais de 70% dos centros médicos nacionais tinham experiência em consultas remotas com colegas de instituições médicas mais especializadas.

Na Índia, desde setembro de 2021, é implementada a Ayushman Bharat Digital Mission (ABDM), programa voltado à digitalização do sistema de saúde. A iniciativa prevê a criação de um perfil digital de saúde, ou ID digital de saúde, e de um sistema unificado de prontuários eletrônicos acessível em todo o país. A implementação do programa também deve garantir o intercâmbio seguro de dados médicos entre instituições e o acesso à telemedicina. No início deste ano, já tinham sido criados mais de 850 milhões de IDs de pacientes, chamados Ayushman Bharat Health Accounts; mais de 454 mil unidades médicas foram registradas na base de instituições de saúde; e mais de 767 mil profissionais passaram por verificação no sistema digital.

Outro instrumento importante da telemedicina na Índia, especialmente em áreas remotas, é a plataforma estatal de consultas a distância nos formatos "médico-médico" e "médico-paciente". Ela é simples de usar e não exige a instalação de software específico, bastando o acesso por navegador. A plataforma desempenha papel importante na transformação digital da saúde indiana, tornando os serviços médicos mais acessíveis e eficientes.

"A experiência da Índia se destaca pelo foco na escala e na ampliação do acesso aos serviços de saúde. Tudo funciona mesmo com infraestrutura limitada, muitas vezes por meio de dispositivos móveis. A Índia é líder na área de tecnologias da informação, e a telemedicina é apenas um dos aspectos dessa liderança global", destaca Margarita Isakova, responsável pela cooperação internacional no Departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade Nacional Russa de Pesquisa Médica Pirogov, do Ministério da Saúde da Rússia.

A África do Sul desenvolve ativamente a telemedicina em um contexto de falta de médicos e distribuição desigual dos recursos do sistema de saúde. As iniciativas estatais avançam por meio da estratégia nacional de e-Health e da plataforma Health Normative Standards Framework. Em paralelo, o país implementa projetos-piloto que testam soluções de telemedicina para clínicas rurais, além de desenvolver serviços comerciais nessa área. O foco principal está em teleconsultas, telerradiologia, com troca de imagens para diagnóstico, telepsiquiatria, que ganhou relevância especial durante a Covid-19, e monitoramento de doenças crônicas. Ainda assim, o principal obstáculo para a adoção ampla dessas tecnologias na África do Sul segue sendo o acesso limitado à banda larga e sua dependência da rede elétrica.

No Brasil, cuja telemedicina passou a se desenvolver de forma especialmente ativa a partir de 2020, o principal ator é o programa estatal de telemedicina SUS Digital, ligado ao Sistema Único de Saúde. Sua tarefa central é implementar a telemedicina em regiões remotas, como a Amazônia e o Nordeste. Também existem programas de apoio a médicos em áreas rurais, como o Médicos pelo Brasil, e projetos comerciais de teleconsultas. Ainda assim, a legislação limita teleconsultas e diagnósticos iniciais sem atendimento presencial, exceto em casos de emergência.

Na Rússia, as tecnologias digitais na medicina avançam por meio do projeto nacional "Saúde" e de um circuito digital unificado baseado no Sistema Estatal Unificado de Informação em Saúde. O sistema digital inclui serviços como o EMIAS, em Moscou, o Telemed, em São Petersburgo, além de plataformas privadas. A Rússia também registra uma implementação ativa de tecnologias de IA, em grande parte impulsionada pelo setor privado, para análise de imagens médicas, monitoramento remoto, chatbots e assistentes virtuais voltados à triagem inicial de pacientes.

"A inteligência artificial desempenha um papel estratégico no aprimoramento da telemedicina e da telessaúde nos países do BRICS, especialmente quando se trata de apoiar decisões clínicas, automatizar a triagem de pacientes, analisar imagens e gerenciar grandes volumes de dados", afirmou Vitória Davi Marzola, especialista em enfermagem e saúde pública.

A implementação de IA e telemedicina em políticas públicas também avança na Etiópia. No Egito, há serviços de telemedicina 24 horas para atendimentos urgentes, enquanto o mercado de telemedicina cresce em ritmo recorde na Arábia Saudita. Ainda assim, especialistas apontam a China, a Índia, a Rússia e o Brasil como os líderes mais evidentes do BRICS na área de telessaúde.

"Esses países [China, Índia, Brasil e Rússia] avançaram na ampliação da cobertura da população por serviços médicos e diversificam os serviços oferecidos, como teleconsultas, telemonitoramento e telediagnóstico. Essa diversidade de serviços também criou oportunidades para o intercâmbio de modelos dentro dos países do BRICS", avalia Vitória Davi Marzola.

Perspectivas e desafios da telemedicina no BRICS

As perspectivas de cooperação entre os países do BRICS na área de telemedicina têm alto potencial, afirma Margarita Isakova em entrevista à TV BRICS. Isso ocorre porque os desafios enfrentados pelos países são, em grande medida, semelhantes: grandes territórios, acesso desigual à internet e proteção dos dados dos pacientes. Esse cenário cria uma boa base para o intercâmbio de tecnologias, soluções digitais conjuntas e até para a criação de padrões comuns. Além disso, segundo especialistas, os países podem desenvolver plataformas conjuntas voltadas não apenas aos mercados internos, mas também a outros países em desenvolvimento.

No contexto do BRICS, a cooperação pode acelerar a criação de soluções comuns que considerem as particularidades locais e a importância da soberania tecnológica de cada país, avaliam os especialistas. O trabalho conjunto pode ocorrer por meio de redes multilaterais e projetos entre governos.

No entanto, para desenvolver a telemedicina e alcançar uma cooperação plena, os países do BRICS ainda precisam superar barreiras centrais. Elas não estão nas tecnologias em si, mas nas condições de sua implementação: desigualdade digital, diferenças regulatórias, privacidade e segurança de dados, afirma Margarita Isakova.

"A solução está em uma abordagem integrada: desenvolvimento da infraestrutura, regulação mais flexível e coordenada, capacitação de médicos e pacientes e, principalmente, incorporação da telemedicina ao sistema de saúde como parte plena dele, não como solução temporária", destaca.Para superar esses e outros desafios, os países-membros podem investir em conjunto em infraestrutura digital, promover padrões comuns, fortalecer marcos regulatórios e compartilhar experiências bem-sucedidas entre si, concorda Vitória Davi Marzola.

Segundo especialistas, ações consistentes e coordenadas podem ajudar a diminuir as diferenças no desenvolvimento da telemedicina e consolidá-la como uma ferramenta estrutural importante nos sistemas de saúde dos países do BRICS. Ainda assim, eles apontam outro fator menos evidente, mas essencial para o sucesso: o aumento da confiança da população na telemedicina e, especialmente, nas ferramentas de IA aplicadas a essa área. Sem essa condição, afirmam, o sistema de telessaúde perde sentido.

O artigo foi elaborado por Svetlana Khristoforova.

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