Brasil aposta na Índia para ampliar comércio e reduzir dependências globais
Viagem de Lula busca diversificar exportações, atrair investimentos e aprofundar parcerias estratégicas com o país mais populoso do mundo
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera entre 19 e 21 de fevereiro uma missão internacional à Índia com foco em ampliar o comércio bilateral, atrair investimentos e construir parcerias estratégicas em áreas consideradas sensíveis para o desenvolvimento brasileiro. A iniciativa ocorre em um momento de reposicionamento da política externa, marcado pela tentativa de reduzir a dependência econômica do Brasil em relação aos Estados Unidos e à China, ao mesmo tempo em que se fortalece a articulação com potências emergentes.
A comitiva presidencial deve ser uma das maiores já organizadas pelo atual governo. Auxiliares do Planalto relatam que Lula deseja uma missão expressiva, o que se reflete na mobilização da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), responsável por abrir um chamamento para credenciar até 200 empresários interessados em acompanhar a viagem. Até o fechamento das inscrições, cerca de 150 representantes do setor produtivo já haviam confirmado presença.
A aproximação entre Brasil e Índia vem sendo construída ao longo dos últimos meses. Em outubro de 2025, o vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), esteve no país asiático ao lado do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro. Na ocasião, ambos se reuniram com o ministro da Defesa indiano, Rajnath Singh, para discutir cooperação em temas ligados à soberania e à área de Defesa. A agenda também incluiu negociações para ampliar o Acordo de Preferências Tarifárias entre o Mercosul e a Índia, em vigor desde 2009.
O diálogo político avançou ainda mais recentemente. Na sexta-feira (23), Lula conversou por telefone com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi. Entre os assuntos tratados, destacou-se a defesa de uma reforma ampla das Nações Unidas e, em especial, do Conselho de Segurança, pauta histórica da diplomacia brasileira e também de interesse da Índia.
O esforço de aproximação se reflete em iniciativas concretas. O Brasil inaugurou um escritório de negócios na Índia, que se soma a um grupo restrito de cerca de 20 estruturas semelhantes espalhadas pelo mundo. A expectativa do governo é usar essa presença institucional para diversificar a pauta exportadora. Em 2025, o petróleo respondeu sozinho por aproximadamente 30% das exportações brasileiras para o país asiático, evidenciando a concentração atual do comércio.
Os números mostram a relevância do parceiro. No ano passado, a Índia ocupou a décima posição entre os maiores destinos das exportações brasileiras, com compras que somaram US$ 6,9 bilhões. Ao mesmo tempo, foi o sexto país de onde o Brasil mais importou, com um total de US$ 8,4 bilhões, o que gerou um déficit comercial de US$ 1,5 bilhão. Apesar do saldo negativo, tanto as exportações quanto as importações registraram crescimento expressivo em 2025, de 30,2% e 21,9%, respectivamente.
A área agrícola também está no radar. O governo brasileiro pretende oferecer cooperação técnica voltada à agricultura familiar, razão pela qual um representante da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) integrará a delegação oficial que acompanha o presidente.
Nos bastidores, a preparação da visita foi tratada como prioridade. O Brasil alugou por dois dias um auditório com capacidade para cerca de 500 pessoas, onde Lula deve se reunir com empresários e investidores indianos. A estratégia é apresentar oportunidades de negócios e estimular aportes no Brasil ao longo dos próximos anos.
Além do conteúdo econômico, a viagem tem um componente político relevante. O Palácio do Planalto avalia que a agenda internacional contribui para reforçar a imagem de Lula como uma liderança com projeção global, capaz de defender interesses nacionais em um cenário internacional cada vez mais competitivo.




