Sessão infame que selou o golpe de estado contra Dilma completa dez anos
Comandada por Eduardo Cunha, sessão marcou o ponto mais baixo da história do parlamento; hoje Dilma comanda o Banco dos BRICS em Xangai
247 – A sessão mais infame da história do parlamento brasileiro completa dez anos no dia de hoje, relembrando o momento em que a Câmara dos Deputados autorizou a abertura do processo que resultaria no golpe de Estado contra a então presidenta Dilma Rousseff, em 2016.
Ao longo de horas de votação televisionada, deputados dedicaram seus votos a familiares, religiões, corporações e até a figuras envolvidas em controvérsias históricas, enquanto o falso fundamento jurídico do impeachment — as chamadas “pedaladas fiscais” — era pouco debatido. A condução do processo por Eduardo Cunha, posteriormente preso e condenado por corrupção, reforçou a percepção de ilegitimidade do processo entre juristas, acadêmicos e setores da sociedade civil.
A sessão acabou sendo interpretada como o ponto culminante do que diversos analistas políticos, movimentos sociais e lideranças internacionais classificaram como um golpe de Estado contra Dilma, já que não houve comprovação de crime de responsabilidade que justificasse a destituição da presidenta eleita.
Retrocessos sociais e econômicos
A queda de Dilma marcou uma inflexão profunda no rumo das políticas públicas brasileiras. Nos anos seguintes, sob os governos Michel Temer e Jair Bolsonaro, foram implementadas reformas que implicaram a retirada de direitos trabalhistas e sociais conquistados nas décadas anteriores.
Entre as medidas mais emblemáticas estão a reforma trabalhista, que flexibilizou contratos e reduziu garantias históricas dos trabalhadores, e a emenda do teto de gastos, que limitou investimentos públicos por duas décadas, impactando áreas essenciais como saúde e educação. Já no governo Bolsonaro, houve aprofundamento de políticas de desregulamentação, privatizações e enfraquecimento de políticas públicas, ampliando desigualdades e precarizando ainda mais as condições de vida da população.
Um marco de retrocesso econômico
Além dos impactos sociais, o período pós-impeachment também ficou marcado por um amplo retrocesso econômico. A desaceleração do crescimento, o aumento do desemprego e a perda de capacidade de investimento do Estado foram elementos que comprometeram o desenvolvimento nacional.
Projetos estratégicos foram interrompidos ou desacelerados, e o país passou a adotar uma agenda mais alinhada ao receituário neoliberal, com menor protagonismo do Estado e maior dependência de fluxos financeiros externos, o que fragilizou a soberania econômica brasileira.
A volta por cima de Dilma e o papel no mundo multipolar
Uma década depois, Dilma Rousseff reconstruiu sua trajetória política e ocupa hoje um dos postos mais relevantes da governança global. À frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco dos BRICS, com sede em Xangai, ela se tornou uma das vozes mais importantes na construção de uma nova ordem internacional baseada no multilateralismo e na cooperação entre países do Sul Global.
Sua atuação tem sido marcada pela defesa de modelos de financiamento que priorizem o desenvolvimento sustentável, a redução das desigualdades e o fortalecimento da soberania dos países emergentes.
A trajetória de Dilma, que passou da destituição em um processo controverso à liderança de uma das principais instituições financeiras do mundo em desenvolvimento, simboliza não apenas uma volta por cima pessoal, mas também a persistência de um projeto político voltado à construção de um mundo multipolar, mais equilibrado e menos subordinado aos centros tradicionais de poder.


