Mesmo sem distribuidora, Petrobras ganha mercado com vendas diretas de diesel para grandes clientes
Estratégia comercial da estatal amplia presença junto a grandes consumidores e fortalece competitividade no setor de combustíveis
247 – A Petrobras, comandada por Magda Chambriard, vem ampliando sua presença no mercado brasileiro de combustíveis por meio de vendas diretas de diesel a grandes consumidores, em uma estratégia que fortalece sua competitividade mesmo após a venda da BR Distribuidora, atual Vibra Energia, realizada durante o governo de Jair Bolsonaro. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que essas operações dispararam no primeiro trimestre de 2026, impulsionadas principalmente por um contrato firmado entre a estatal e a Vale.
As informações foram publicadas pela Reuters. Segundo documento da ANP visto pela agência, as vendas diretas de diesel B — já com a mistura obrigatória de biodiesel — realizadas por produtores de combustíveis a grandes consumidores somaram 22,39 milhões de litros entre janeiro e março deste ano. No trimestre anterior, o volume havia sido de apenas 1,1 milhão de litros.
O crescimento ocorreu após a Petrobras anunciar, em 5 de janeiro, um contrato para fornecimento de diesel S10 à Vale, destinado às operações da mineradora em Minas Gerais. O estado concentrou 19,49 milhões de litros comercializados no período, o equivalente a quase 90% do total informado à reguladora.
A estratégia da Petrobras reforça o movimento da companhia de recuperar proximidade com consumidores finais de grande porte, ampliando margens e participação de mercado em setores estratégicos como mineração e agronegócio.
Nos últimos meses, executivos da estatal já haviam sinalizado o interesse em expandir vendas diretas para grandes grupos empresariais, incluindo companhias ligadas ao setor agrícola e industrial. A iniciativa representa uma nova etapa comercial da Petrobras após a privatização integral da BR Distribuidora, concluída no governo Bolsonaro, que afastou a companhia do contato direto com o consumidor na ponta.
Procurada pela Reuters, a Petrobras afirmou que “avalia continuamente a possibilidade de realizar vendas diretas para grandes consumidores, sempre em estrita conformidade com a legislação e a regulação vigentes”. A estatal também ressaltou que todas as operações de comercialização de diesel B são conduzidas “em total observância à legislação brasileira”.
O avanço da Petrobras nesse mercado provocou reação do Sindicom, entidade que representa distribuidoras como Vibra Energia, Raízen e Ipiranga. Em ofícios enviados à ANP, o sindicato argumenta que existe uma “assimetria concorrencial” porque os produtores de combustíveis não são obrigados a comprar créditos de descarbonização do programa RenovaBio, os chamados CBios.
Segundo o Sindicom, isso cria uma diferença regulatória em relação às distribuidoras, que precisam adquirir os créditos ao comercializar combustíveis fósseis.
“Como os produtores não são agentes obrigados no âmbito do RenovaBio, a comercialização direta de combustíveis fósseis por esses agentes a grandes consumidores ocorre de forma assimétrica em relação às distribuidoras”, afirmou a entidade em documento enviado à ANP.
Mesmo diante das críticas, a expansão das vendas diretas é vista por analistas do setor como um movimento natural de reposicionamento estratégico da Petrobras, que busca ampliar eficiência comercial e aumentar rentabilidade em um mercado cada vez mais competitivo.
A Vale, por sua vez, informou que o contrato firmado com a Petrobras está protegido por cláusulas de confidencialidade. A mineradora não comentou os questionamentos levantados pelo Sindicom nem divulgou os volumes adquiridos.
A ANP confirmou os números apresentados, mas informou que, por razões concorrenciais, não divulga quais produtores realizaram as vendas diretas. Atualmente, a Petrobras é a principal produtora de diesel do Brasil. Já a Acelen, segunda maior produtora do país, afirmou à Reuters que não realiza vendas diretas de combustíveis.
O crescimento dessas operações reforça o papel estratégico da Petrobras no abastecimento nacional e evidencia a capacidade da estatal de ampliar mercados mesmo sem contar com uma distribuidora própria, consolidando uma atuação mais direta junto a grandes clientes industriais e do agronegócio.


