Light planeja R$ 10 bi em investimentos após renovar concessão
Companhia prevê capitalização, conversão de dívidas e volta ao mercado de crédito ainda em 2026
247 - A Light planeja investir R$ 10 bilhões nos próximos cinco anos após renovar antecipadamente sua concessão por mais 30 anos, em um movimento que também deve permitir a conclusão de sua recuperação judicial, a capitalização da companhia, a conversão de dívidas em ações e a retomada do acesso ao mercado de crédito ainda em 2026.
A renovação foi oficializada pelo Ministério de Minas e Energia na sexta-feira (8) e é vista pela empresa como o início de uma nova etapa operacional e financeira. Segundo a Broadcast, o novo ciclo de investimentos previsto pela distribuidora representa o dobro do volume aplicado anualmente nos últimos anos e será direcionado principalmente à modernização da rede elétrica nos 31 municípios atendidos pela companhia.
O presidente da Light, Alexandre Nogueira, afirmou que os próximos 90 dias devem concentrar os últimos passos do plano de recuperação judicial. Nesse período, a empresa espera concluir um aporte de capital dos acionistas, de até R$ 1,5 bilhão, nos próximos 60 dias, além da conversão de R$ 2,2 bilhões em dívidas em participação acionária nos 30 dias seguintes.
“Finalizando esses processos, em 90 dias, cumprimos o previsto do plano de recuperação social e, imediatamente, a Light pede o juiz pra sair do cenário de recuperação judicial”, disse Nogueira.
De acordo com o executivo, as medidas devem gerar um reforço de capital entre R$ 3,2 bilhões e R$ 3,7 bilhões. Desse montante, de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão viria da capitalização, enquanto o restante seria resultado da conversão de dívidas. A expectativa é que a alavancagem caia para um nível considerado sustentável para a concessão, pouco abaixo de duas vezes.
A partir dessa reorganização, a companhia pretende voltar ao mercado financeiro. Nogueira afirmou que a Light já vem sendo procurada por instituições financeiras e avalia diferentes formas de captação para sustentar o novo programa de investimentos.
“A gente tem que ver essa concessão, já a partir do segundo semestre, pós-saída do processo de recuperação judicial, como uma concessão normal, que vai ter sua sustentabilidade econômica, financeira e operacional, e que vai voltar ao mercado de crédito, que é uma condição normal e necessária para fazer esse programa de investimentos”, afirmou.
O executivo disse que a reestruturação do conselho de administração, com maior aproximação do mercado financeiro, e a chegada do novo diretor financeiro, Leonardo Gadelha, indicam uma mudança de postura da empresa diante de investidores e credores.
Segundo Nogueira, esses movimentos “são sinais de que a companhia estará muito atuante, não só no mercado de crédito, como no mercado de equity, porque a gente espera ter essa proximidade e resgatar a credibilidade da Light nesses dois mercados”.
O presidente da distribuidora também avaliou que o processo de recuperação judicial conseguiu superar a frustração de investidores, inclusive pessoas físicas. Ele destacou a complexidade da negociação, marcada por uma base pulverizada de credores.
“Foi um processo muito exitoso, em termos de recuperação judicial, porque tinha mais de 63 mil credores, era muito pulverizado e complexo de fazer qualquer tipo de acordo, mas tem apenas uma ação na Justiça contestando o plano”, afirmou.
Na avaliação de Nogueira, o baixo volume de questionamentos judiciais reflete o diálogo conduzido durante a recuperação. “No final o credor compreendeu que não poderia ter aquela situação que havia a expectativa, porque a empresa não estaria preparada para o cenário de desalavancagem que era condição necessária para a renovação da concessão”, disse.
O novo contrato de concessão impõe exigências adicionais de qualidade na prestação do serviço. Para atender às novas metas, a Light projeta aplicar, em média, R$ 2 bilhões por ano, no que Nogueira classifica como o maior programa de investimentos da história da companhia.
A maior parte dos recursos deverá ser destinada à modernização e renovação da rede já existente. A área de atuação da Light concentra mais de 70% da população do estado do Rio de Janeiro e reúne 4,3 milhões de unidades consumidoras.
Entre os ativos que demandarão atenção está a rede subterrânea da companhia, apontada por Nogueira como a maior da América Latina, com cerca de 3 mil quilômetros de extensão. O executivo evitou detalhar projetos específicos, mas afirmou que será necessária uma intervenção relevante nessa infraestrutura.
A empresa também espera reduzir seus indicadores operacionais. Nogueira lembrou que a Light já teve o pior Tempo Médio de Atendimento do país e chegou a 2022 com 18% dos consumidores afetados por interrupções de fornecimento superiores a 24 horas. Mesmo com restrições de caixa, a taxa caiu para um patamar próximo da média brasileira, entre 3% e 4%.
“Nos próximos três anos, a gente espera ficar entre os 30 tempos médios de atendimento ao consumidor”, afirmou.
A área de concessão da Light é considerada uma das mais complexas do país, com regiões onde a distribuidora enfrenta restrições de acesso devido à violência e à atuação de grupos criminosos, como tráfico de drogas e milícia. O novo contrato prevê tratamento regulatório específico para as chamadas “áreas de severa restrição”.
Segundo Nogueira, a Agência Nacional de Energia Elétrica deve regulamentar o tema entre o fim deste ano e o início do próximo. O executivo evitou comentar expectativas sobre essa discussão.
Ele, no entanto, defendeu a regulamentação do reconhecimento anual dos investimentos realizados, prevista nos novos contratos. Para Nogueira, esse mecanismo é importante porque a atividade de distribuição exige aportes recorrentes.
“Distribuição é um setor de disponibilidade, que é recorrente de investimento; você não pode investir mais um ano ou concentrar o seu investimento nos últimos anos do ciclo tarifário, como era no contrato anterior”, disse.



