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Joesley Batista entra na Avibrás e reestruturação abre caminho para novos mísseis do Exército

Aporte privado de R$ 300 milhões destrava retomada da maior indústria bélica do País, preserva controle nacional e acelera projetos estratégicos

Joesley Batista (Foto: Paulo Vitale)

247 – O empresário Joesley Batista, controlador da J&F, decidiu investir na Avibrás e participar do financiamento que viabiliza a retomada da empresa, uma das mais estratégicas da base industrial de defesa do Brasil. As informações foram publicadas pelo jornal Estado de S. Paulo, que revelou a assinatura de um contrato no âmbito da captação coordenada pelo Fundo Brasil Crédito, responsável por reunir R$ 300 milhões com investidores privados.

O movimento representa uma inflexão decisiva no processo de recuperação da Avibrás, em recuperação judicial desde 2022, e pode recolocar a empresa no centro dos projetos militares brasileiros. Além de ser o principal credor da companhia, o Fundo Brasil Crédito foi o autor do plano alternativo de reestruturação financeira, já aprovado pela Justiça e pelos credores.

Segundo a reportagem, Joesley Batista, o Fundo Brasil Crédito e a própria Avibrás não comentaram o negócio. A expectativa, porém, é de que o anúncio final da reestruturação ocorra nas próximas semanas. O fundo tem como cotistas os investidores Raul Ortuzar e Thiago Osório, ambos especializados em reestruturação de empresas e detentores de ações da Avibrás, que poderão ser negociadas ao fim do processo. Ainda resta a conclusão de um acerto com a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional.

Reestruturação acelera retomada da produção

A entrada dos recursos privados enfrenta um dos principais impasses que cercavam o futuro da companhia. O plano de reestruturação previa, além dos R$ 300 milhões obtidos com investidores, outros R$ 300 milhões em recursos públicos, por meio de financiamento da Finep, do BNDES ou do Programa de Aceleração do Crescimento. Mesmo sem essa segunda etapa concluída, o Fundo Brasil Crédito decidiu avançar e retomar a produção já a partir de maio.

A decisão sinaliza que a reorganização da Avibrás não dependerá, ao menos neste primeiro momento, da liberação imediata de verbas estatais. A aposta é que a retomada operacional fortaleça a empresa, restaure sua capacidade produtiva e a reposicione no mercado de defesa, nacional e internacional.

Joesley, de acordo com a apuração do Estado de S. Paulo, reuniu-se duas vezes com a direção do fundo. Entre os demais financiadores há pelo menos um banco. A Avibrás, considerada estratégica para a soberania nacional, vinha sendo defendida em setores do Congresso, onde parlamentares pressionavam o governo do presidente Lula a adotar uma solução que impedisse a desestruturação da empresa.

Controle nacional afasta investidas estrangeiras

A entrada de capital brasileiro também resolve outra frente sensível: o temor das Forças Armadas de que a companhia acabasse sob controle estrangeiro. Entre 2024 e 2025, a chinesa Norinco, a australiana DefendTex e a saudita Black Storm Military Industries demonstraram interesse na aquisição da empresa.

Esse cenário gerava forte resistência dentro da estrutura militar, que via a Avibrás como um ativo estratégico cuja tecnologia, propriedade intelectual e capacidade produtiva deveriam permanecer sob controle nacional. A solução articulada pelo Fundo Brasil Crédito e agora reforçada com o aporte de Joesley atende justamente a esse objetivo.

Em meio a uma conjuntura internacional mais tensa, os sistemas da Avibrás voltaram a ganhar centralidade. A preservação da empresa passou a ser tratada como questão de Estado, diante da necessidade de manter autonomia industrial em uma área sensível como a defesa.

MTC-300 e S+100 estão no centro da retomada

Os principais contratos hoje mantidos pela Avibrás envolvem o Exército e a Força Aérea. A empresa é responsável pelo sistema Astros, considerado a joia da coroa da artilharia do Exército brasileiro e exportado para quase dez países, entre eles Indonésia e Malásia.

A reportagem informa que a prioridade imediata da retomada será a continuidade da parceria com o Escritório de Projetos do Exército para concluir o desenvolvimento do Míssil Tático de Cruzeiro (MTC-300). O projeto já está 90% concluído, faltando apenas a campanha de tiro.

Outro programa relevante é o Míssil Tático Balístico S+100, em desenvolvimento pela Força Terrestre. O sistema deverá aproveitar o conhecimento acumulado no projeto S-80 e terá interoperabilidade com outras plataformas da própria Avibrás. Trata-se de um projeto novo, com potencial expressivo de vendas no mercado externo.

As negociações são conduzidas pelo Comando de Logística e pelo Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército. O plano é utilizar recursos assegurados pela Lei Complementar 221, que autorizou a exclusão de até R$ 30 bilhões em despesas com projetos estratégicos de defesa do arcabouço fiscal até 2031. Essas futuras encomendas são vistas como fundamentais para sustentar a empresa em sua nova fase.

Empresa quer sair de 80 para mais de mil profissionais

A retomada também terá impacto imediato sobre o quadro de pessoal. Atualmente, a Avibrás conta com 80 profissionais. A previsão é chegar a 200 empregados em maio, quando a fábrica deverá voltar a operar, e alcançar 500 em junho.

Com novas encomendas e futuras parcerias com empresas nacionais e estrangeiras, a projeção é superar mil trabalhadores. A empresa preservou sua linha de produção, seus ativos de tecnologia da informação e sua propriedade intelectual. Também já reativou os setores de compras e recursos humanos, sinalizando que a reestruturação avança para além do plano financeiro e entra na fase operacional.

Força Aérea e Marinha também podem ampliar contratos

No caso da Força Aérea, a Avibrás deverá oferecer uma versão aérea do MTC-300, disparada por aviões. Há ainda a possibilidade de o míssil ser incorporado pela Marinha.

Atualmente, a força naval utiliza o sistema Astros em baterias de defesa costeira para o lançamento do míssil Mansup, fabricado pela Siatt. O Mansup tem alcance atual de 70 quilômetros, com possibilidade de chegar a 200 quilômetros em sua versão estendida. Ainda assim, fica abaixo dos 300 quilômetros do MTC-300, o que amplia o interesse potencial por esse sistema em diferentes ramos das Forças Armadas.

Recuperação judicial começou em 2022

A Avibrás entrou com pedido de recuperação judicial em março de 2022, informando dívidas de R$ 394 milhões. À época, a empresa alegou perda de competitividade em mercados do Oriente Médio e do Sudeste Asiático, sobretudo diante da ascensão de concorrentes fortemente financiados por governos estrangeiros.

O plano de recuperação apresentado pelo Fundo Brasil Crédito foi aprovado e validado pela Justiça de São Paulo. Em dezembro de 2025, um novo CNPJ foi criado para a empresa, capitalizado com R$ 2,5 bilhões oriundos da companhia em recuperação judicial.

Outro passo importante foi o encerramento de uma greve que durou 1.280 dias. O acordo, homologado na Justiça em 26 de março, previu o pagamento da dívida trabalhista de R$ 230 milhões com 1,4 mil ex-funcionários em até quatro anos.

Foi nesse contexto que Joesley Batista formalizou o interesse em financiar a empresa, condicionado ao cumprimento de exigências para a efetivação do negócio, entre elas justamente a negociação das pendências trabalhistas. O antigo dono da companhia, João Brasil, ficará fora da nova estrutura da Avibrás.

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