Inteli aposta em formação de talentos para reduzir déficit em tecnologia
Instituto criado com apoio do BTG Pactual adota método intensivo baseado em projetos e amplia programa de bolsas para formar profissionais em escala
247 - O Inteli — Instituto de Tecnologia e Liderança — vem se consolidando como uma das principais apostas brasileiras para enfrentar o gargalo de profissionais de tecnologia e engenharia no país. Criado em 2019 e instalado na Cidade Universitária, ao lado da USP, em São Paulo, o instituto aposta em um modelo pedagógico próprio, centrado em ciclos intensivos de projetos reais e acompanhamento individual dos estudantes.
A proposta, detalhada em reportagem publicada pelo Brazil Stock Guide e assinada pelo editor André Vieira, destaca que o Inteli busca romper com o formato tradicional das universidades brasileiras, adotando uma lógica inspirada em métodos de execução corporativa. A instituição também aposta fortemente em bolsas de estudo para ampliar o acesso e garantir diversidade social e regional em suas turmas.
Durante um café da manhã realizado no campus na primeira semana de fevereiro, o CEO do BTG Pactual e principal patrocinador institucional do projeto, Roberto Sallouti, afirmou que o desafio central é construir reputação em pouco tempo. “Bom, bem-vindos. É um prazer ter vocês aqui com a gente”, disse ele na abertura do encontro.
Sallouti ressaltou que o prestígio de uma instituição de ensino depende do desempenho de seus formandos e do impacto que deixam na sociedade. “A reputação de uma faculdade se faz com o que os ex-alunos conquistam e com o legado que eles deixam”, afirmou. Segundo ele, universidades tradicionais contam com décadas — ou séculos — de história para sustentar sua credibilidade, enquanto projetos novos precisam construir essa referência a partir de resultados concretos.
Déficit De Profissionais E Baixa Formação Em Engenharia
A motivação para a criação do Inteli, segundo Sallouti, surgiu a partir de um diagnóstico recorrente ouvido durante visitas ao Vale do Silício: investidores evitavam apostar no Brasil por entenderem que o país não forma engenheiros em quantidade suficiente para sustentar empresas globais de tecnologia.
A preocupação é reforçada por projeções que indicam que o Brasil pode chegar a um déficit superior a 1 milhão de profissionais de tecnologia até 2030. O problema se agrava porque apenas 1,8% dos universitários brasileiros estão matriculados em cursos de Engenharia ou Computação, e a evasão em cursos de Computação alcança 53%. Mesmo entre as instituições mais bem avaliadas, os dez melhores cursos somam cerca de 1.200 vagas anuais, número considerado insuficiente para atender a demanda do mercado.
Modelo Pedagógico Em Ciclos Intensivos E Projetos Reais
A CEO do Inteli, Maíra Habimorad, afirmou que o instituto vem construindo o projeto com base em encontros frequentes com apoiadores e parceiros. “Esse deve ser o 49º café da manhã que a gente faz”, disse ela, ao lembrar que o Inteli começou durante a pandemia, ainda de forma embrionária.
O diferencial do instituto está no modelo de ensino: em vez de semestres tradicionais, disciplinas isoladas e provas como eixo principal, o Inteli organiza a formação em ciclos intensivos de dez semanas, estruturados em torno de projetos com empresas e desafios concretos. As avaliações são feitas por evidências e entregas contínuas, com acompanhamento individual ao longo dos quatro anos.
Segundo o texto do Brazil Stock Guide, o modelo tem um nível alto de exigência: entre 7% e 8% dos alunos reprovam, e proporção semelhante desiste do curso. A instituição oferece recuperação estruturada, mas mantém um ritmo intenso que exige adaptação rápida e dedicação permanente.
Antes de chegar ao formato atual, o grupo responsável pelo projeto visitou universidades como MIT, Stanford e Carnegie Mellon, além de modelos alternativos como Minerva e École 42. A referência mais direta, porém, veio da Olin College, escola de engenharia de Massachusetts que trabalha com ensino baseado em projetos e evidências acumuladas ao longo de décadas.
Parcerias Com Empresas E Indicadores De Desempenho
O modelo do Inteli também foi desenhado para atender demandas do setor produtivo. O instituto afirma ter entregue 749 protótipos, com 105 parceiros ativos, além de registrar um NPS médio de 92,6% entre empresas que recebem projetos desenvolvidos pelos estudantes.
A infraestrutura do campus foi adaptada para favorecer esse tipo de dinâmica, com salas organizadas para trabalho em grupo e metodologias de sprint, aproximando o ambiente acadêmico da rotina corporativa.
Bolsas, Diversidade E Formação Em Escala
Atualmente, o Inteli reúne 621 alunos de graduação, vindos de mais de 100 cidades brasileiras. Aproximadamente 55% dos estudantes são bolsistas — mais de 340 alunos — e 24% se declaram pretos ou pardos. As mulheres representam 27% do total, índice acima da média observada em cursos tradicionais de engenharia.
Sallouti destacou que a diversidade é intencional e parte do desenho do projeto. “Aqui tem os filhos dos meus amigos, os amigos dos meus filhos e uma turma que estava pelo Brasil inteiro procurando uma oportunidade”, disse. “Quando você junta tudo isso, a oxigenação é muito poderosa.”
Com mensalidade em torno de R$ 7,7 mil, o instituto opera com custos semelhantes aos de instituições privadas de elite, o que levou à criação de um programa agressivo de bolsas. Há modalidades que incluem desde o financiamento integral do curso até apoio específico para moradia, intercâmbio, equipamentos e iniciação científica.
O custo anual de uma bolsa completa gira em torno de R$ 131 mil, enquanto o modelo de financiamento contínuo, chamado de “vaga perpétua”, exige aportes próximos de R$ 1,95 milhão.
Sallouti afirmou que a meta é que o instituto se torne autossustentável no futuro. “Só teremos sucesso quando não precisarmos mais da gente”, declarou.
Processo Seletivo E Acompanhamento Individual
O acesso ao Inteli é estruturado para separar mérito acadêmico de condição financeira. Todos os candidatos passam pelo mesmo processo seletivo, que inclui provas de lógica e matemática, redações, análise de trajetória, dinâmicas em grupo e projetos práticos. A análise financeira ocorre apenas depois da aprovação.
O acompanhamento acadêmico é feito de forma individualizada desde o primeiro dia, com registros contínuos de desempenho e feedback estruturado ao longo do curso. O modelo é supervisionado por Lucas Niemeyer, ex-líder do programa de trainee da Ambev, citado na reportagem como um dos profissionais atraídos para o projeto.
Primeira Turma Formada E Resultados No Mercado
O Inteli já formou sua primeira turma de graduação e, nesta semana, iniciou o ano letivo com a entrada de 260 novos alunos, ampliando a escala do instituto.
Segundo os dados apresentados, 97% dos formandos deixaram o curso com a carreira encaminhada. O levantamento aponta que 49% estão em estágio regular, 36% já foram efetivados e 12% seguem empreendendo ou atuando em pesquisa aplicada.
O salário médio entre os egressos é de R$ 4.394, com 37% recebendo acima de R$ 5 mil. Entre os bolsistas, a renda per capita familiar cresceu em média 147% ao longo do curso, indicador apontado como evidência de mobilidade social gerada pelo modelo.
Relatos De Estudantes Mostram Exigência E Transformação
A experiência acadêmica intensa foi relatada por alunos durante o encontro. Débora Pereira, de Campina Grande (PB), afirmou que o modelo do Inteli força adaptação rápida e integração entre estudantes de origens diversas. “Todo mundo entra no mesmo barco”, disse.
Pedro Faria, de Londrina (PR), descreveu o processo de transição entre suporte inicial e autonomia progressiva. Segundo ele, após um período de acompanhamento intenso, a instituição reduz deliberadamente a tutela para estimular independência. “Eles soltam a mão”, afirmou.
O estudante relatou ainda que a exigência aumenta no terceiro ano, quando o estágio obrigatório aproxima a rotina da vida profissional e torna os erros mais custosos, ainda que educativos.
A reportagem também descreve o caso de um aluno bolsista de Aracaju, filho de mãe manicure e pai policial militar da reserva, que passou por estágio no BTG Pactual, participou de projetos com grandes empresas, venceu hackathons e criou uma startup. Em 2022, a renda per capita familiar dele era inferior a R$ 1.700 mensais e, atualmente, ele recebe cerca de US$ 7 mil.
Ao final do encontro, a reportagem aponta que o Inteli ainda está em construção, mas já apresenta resultados concretos na formação de profissionais e no impacto social gerado pelas bolsas. A instituição segue como uma aposta baseada em método, métricas e execução, com o objetivo de ampliar a capacidade brasileira de formar talentos tecnológicos em escala.


