Governo Trump autoriza empresas dos EUA a comprar fertilizantes da Venezuela
Medida flexibiliza sanções em meio às agressões contra o Irã e à alta global dos insumos agrícolas
247 - O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou empresas estadunidenses a comprar fertilizantes e outros produtos petroquímicos da Venezuela. A decisão representa mais um passo no processo de flexibilização de sanções contra o país sul-americano. As agressões dos EUA e Israel ao Irã têm afetado rotas estratégicas de exportação no Oriente Médio, especialmente o Estreito de Ormuz, por onde passam insumos agrícolas essenciais. As informações são da Bloomberg.
Documentos divulgados na sexta-feira (13) pelo Departamento do Tesouro indicam que a medida amplia iniciativas voltadas à reintegração gradual da Venezuela ao mercado energético global. A política também ocorreu após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos em janeiro. Com a proximidade da temporada de plantio de primavera, agricultores estadunidenses intensificaram a busca por fertilizantes, sobretudo amônia e ureia, produtos que a Venezuela já exportou em grande escala no passado.
Segundo dados da Bloomberg Green Markets, o preço da ureia no porto de Nova Orleans acumulou alta de 28% desde o início do conflito contra o Irã. O fertilizante é amplamente utilizado nas lavouras de milho nos Estados Unidos. O país importa mais de um terço da ureia consumida do Oriente Médio, de acordo com o instituto setorial The Fertilizer Institute. Nesse cenário, a liberação para compra de fertilizantes venezuelanos é interpretada como um sinal de ampliação da oferta para o setor agrícola.
Regras para as transações
A autorização do Tesouro permite a venda de fertilizantes venezuelanos a empresas dos Estados Unidos, mas estabelece que as companhias ainda precisam obter autorização específica do Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros. Os pagamentos deverão seguir regras semelhantes às aplicadas ao petróleo venezuelano comercializado sob licenças anteriores. Os valores pagos por empresas estadunidenses serão depositados em contas bloqueadas no exterior e posteriormente repassados ao Banco Central da Venezuela.
A medida também inclui a emissão de uma licença que autoriza trabalhos na rede elétrica venezuelana. O objetivo é apoiar a recuperação da infraestrutura energética do país, considerada fundamental para a retomada da indústria de petróleo e de outros setores produtivos. As grandes reservas de gás natural da Venezuela sustentaram, no passado, uma importante indústria petroquímica liderada pela estatal Pequiven. As principais instalações ficam no complexo industrial de José, além de unidades em Morón e El Tablazo.
Os EUA estavam entre os principais mercados para os fertilizantes produzidos no país. Nos últimos anos, porém, o setor sofreu com falta de investimentos e problemas de gestão, situação semelhante à enfrentada pela indústria petrolífera venezuelana. Atualmente, a Pequiven ainda exporta pequenas quantidades de amônia e ureia, principalmente para o Brasil e a Colômbia, muitas vezes com descontos elevados e por canais comerciais pouco transparentes.
Especialistas avaliam que a recuperação da capacidade produtiva levará tempo. Josh Linville, vice-presidente de fertilizantes da corretora StoneX Group, afirmou que será necessário investimento para restaurar as instalações industriais. Segundo ele, a Venezuela não deverá se tornar um grande exportador para o mercado estadunidense no curto prazo. Dados do comércio internacional indicam que a Venezuela exportou quase 400 mil toneladas de ureia para o Brasil em 2025. Volumes menores também foram enviados à Colômbia e ao Chile nos últimos anos.
A capacidade nominal de produção do país, no entanto, é significativamente maior. Segundo dados da Pequiven, as plantas venezuelanas poderiam produzir anualmente cerca de 2,7 milhões de toneladas de amônia e 3,3 milhões de toneladas de ureia.


