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Netanyahu usa guerra contra o Irã para redesenhar Oriente Médio, diz ex-premiê do Catar

Em entrevista à Al Jazeera, diplomata alerta para plano de “Grande Israel”

Tamim Bin Hamad Al-Thani (Foto: MIKE SEGAR/REUTERS)
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247 - A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã esté sendo usada pelo primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu para redesenhar o Oriente Médio, segundo avaliação do ex-primeiro-ministro e ex-ministro das Relações Exteriores do Catar, Sheikh Hamad bin Jassim Al Thani. Em entrevista à Al Jazeera, ele alertou para o plano de “Grande Israel”, para a escalada no Estreito de Ormuz.

No programa Al Muqabala, o veterano diplomata afirmou que a guerra não deve ser vista como uma escalada repentina, mas como resultado de uma agenda israelense de longo prazo para remodelar a região pela força. “Estamos testemunhando uma grande reestruturação da região”, disse Sheikh Hamad, ao avaliar que as atuais convulsões geopolíticas podem definir o formato do Oriente Médio nas próximas décadas.

O ex-chefe de governo catariano afirmou que já havia alertado, no ano passado, para o risco de um conflito envolvendo o Irã. À época, ele defendeu que os países do Golfo buscassem uma solução diplomática para a crise com Teerã, de modo a evitar ataques militares e uma deterioração ainda maior do ambiente regional.

Segundo Sheikh Hamad, a pressão por uma guerra contra o Irã partiu de uma facção linha-dura em Israel, liderada por Netanyahu. Ele afirmou que o primeiro-ministro israelense tenta arrastar os Estados Unidos para um confronto militar ligado ao programa nuclear iraniano desde a década de 1990, durante o governo de Bill Clinton.

O diplomata disse que governos norte-americanos anteriores, incluindo o primeiro mandato do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, resistiram a lançar uma guerra em grande escala contra Teerã. Na avaliação dele, Netanyahu conseguiu superar essa resistência ao vender a Washington uma “ilusão”.

“Ele convenceu o governo americano de que a guerra seria curta e rápida e que o regime iraniano cairia em poucas semanas”, afirmou Sheikh Hamad. Ele comparou esse cálculo às tentativas fracassadas dos Estados Unidos de promover mudanças de governo na Venezuela.

O ex-primeiro-ministro do Catar também criticou a dependência norte-americana da força militar como instrumento de política externa. “O verdadeiro poder dos Estados Unidos sempre residiu em sua capacidade de evitar o uso da força, não em empregá-la”, declarou.

Para Sheikh Hamad, a guerra acabou obrigando todas as partes a voltarem à mesa de negociações. Ele sugeriu que mais duas semanas de conversas em Genebra, no início deste ano, em uma iniciativa diplomática liderada por Omã para evitar o conflito, poderiam ter impedido a catástrofe.

Netanyahu e o projeto de “Grande Israel”

Na avaliação do ex-premiê catariano, Netanyahu emergiu como o principal beneficiário da guerra. Sheikh Hamad afirmou que o líder israelense está usando o caos regional para promover sua visão de alianças forçadas e de um “Grande Israel”, plano associado à direita israelense para expandir as fronteiras do país em direção a Estados árabes vizinhos.

A entrevista também destacou a dimensão estratégica da guerra para a nova configuração regional. Para Sheikh Hamad, a ofensiva contra o Irã se insere em um movimento mais amplo de reorganização do Oriente Médio, com impactos políticos, econômicos e militares de longo prazo.

Estreito de Ormuz vira ponto de tensão global

Ao analisar a estratégia de Teerã, Sheikh Hamad afirmou que o Irã conseguiu absorver os primeiros ataques militares da guerra e, posteriormente, passou a retardar um acordo ao perceber que poderia explorar uma vantagem estratégica: o Estreito de Ormuz.

Ele classificou a instrumentalização da passagem marítima como o “resultado mais perigoso” da guerra. Segundo o diplomata, Teerã passou a tratar esse ponto vital do comércio internacional como se fosse parte de seu território soberano, o que representa uma ameaça mais imediata e grave às economias globais do que o próprio programa nuclear iraniano.

O ex-primeiro-ministro afirmou ainda que os países do Golfo, mais do que Washington, foram os mais atingidos pela crise. Ele condenou os ataques iranianos contra infraestruturas energéticas, industriais e civis da região, realizados, segundo ele, sob o argumento de atingir interesses dos Estados Unidos.

Sheikh Hamad ressaltou que esses países haviam se posicionado contra a guerra. Para ele, as ações de Teerã desgastaram significativamente o capital político iraniano no Golfo, gerando indignação pública diante dos danos econômicos e dos riscos à segurança.

Apesar das críticas, o diplomata defendeu que a geografia impõe a necessidade de convivência entre os países do Golfo e o Irã. Ele propôs um diálogo coletivo, direto e franco com Teerã, em vez de contatos unilaterais e fragmentados, para construir um marco realista de convivência futura.

Ex-premiê defende uma “Otan do Golfo”

Em uma das avaliações mais contundentes da entrevista, Sheikh Hamad afirmou que a maior ameaça ao Golfo não é o Irã, nem Israel, nem a presença de bases militares estrangeiras. Para ele, o principal risco é a desunião interna entre os próprios países da região.

Como resposta, o ex-premiê defendeu a criação de uma “Otan do Golfo”, um projeto político e de defesa conjunto formado inicialmente por um núcleo de países estrategicamente alinhados. Ele afirmou que a Arábia Saudita deveria exercer o papel de eixo natural dessa estrutura.

Sheikh Hamad comparou a proposta ao processo de formação da União Europeia, que começou com um grupo menor de países antes de se expandir. Para ele, uma aliança regional do Golfo precisaria ser sustentada por leis institucionalizadas e respeitadas por todos os membros.

O diplomata reconheceu que as bases militares dos Estados Unidos exerceram papel importante de dissuasão durante décadas. No entanto, alertou que a mudança estratégica de Washington em direção à Ásia e à contenção da China significa que o Golfo não poderá depender indefinidamente do guarda-chuva de segurança norte-americano.

Nesse contexto, ele defendeu que os países do Golfo desenvolvam parcerias estratégicas de longo prazo, baseadas em interesses concretos, com potências regionais como Turquia, Paquistão e Egito.

Gaza, Palestina e normalização com Israel

Ao tratar da Palestina, Sheikh Hamad condenou o assassinato de civis por todos os lados, mas acusou Israel de cometer um “desastre moral e político” em Gaza, onde mais de 72,5 mil palestinos foram mortos desde o início da guerra genocida israelense, em outubro de 2023.

Ele também alertou para um plano israelense de despovoar a Faixa de Gaza. Segundo o ex-premiê, informações de inteligência indicam que dinheiro estaria sendo oferecido para encorajar palestinos a deixarem o território, transformando Gaza em um projeto imobiliário.

Sheikh Hamad reconheceu que a causa palestina passou a receber uma simpatia global sem precedentes desde 7 de outubro de 2023, especialmente no Ocidente. Ao mesmo tempo, advertiu facções palestinas, incluindo o Hamas, a calcularem cuidadosamente o custo humano devastador do conflito.

O diplomata rejeitou qualquer discussão sobre o desarmamento do Hamas sem uma perspectiva política garantida para a criação de um Estado palestino independente. Ele também elogiou a recusa firme da Arábia Saudita em normalizar relações com Israel sem um roteiro para esse objetivo, posição que, segundo ele, prejudicou profundamente os cálculos regionais de Netanyahu.

Síria e bastidores diplomáticos dos anos 1990

Na entrevista, Sheikh Hamad também comentou as mudanças na Síria. Ele afirmou ter recebido com alívio a queda de Bashar al-Assad e revelou que, no início da luta por essa derrubada, aconselhou pessoalmente o então presidente sírio a ouvir seu povo.

O ex-primeiro-ministro catariano elogiou o pragmatismo da nova liderança síria ao evitar provocações israelenses. Para ele, o foco deve estar na reconstrução econômica e institucional do país, após quase 14 anos de guerra e má gestão sob o governo de al-Assad.

A entrevista revelou ainda um episódio pouco conhecido da diplomacia regional. Sheikh Hamad contou que, no fim da década de 1990, a liderança do Catar o enviou a Teerã para entregar uma mensagem do governo Clinton.

Segundo ele, os Estados Unidos exigiam que o Irã entregasse seu programa nuclear, ainda em estágio inicial, à Rússia ou se submetesse aos acordos internacionais. O Catar, afirmou, atuou apenas como mensageiro, embora Teerã tenha interpretado, naquele momento, que Doha estava alinhada à posição norte-americana.

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